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No DN entrou como redactor de Política e foi director durante 12 anos, mais de uma década em que dirigiu o relançamento do jornal com base no rigor e na credibilidade.

Quando Mário Bettencourt Resendes entrou no DN, em Dezembro de 1976, a situação política em Portugal já tinha "normalizado". Tendo passado pelo diário Jornal Novo e pela revista Opção, após um curso de jornalismo em Paris, mal sabia o então jovem jornalista que no centenário jornal da Avenida da Liberdade haveria de passar mais de três décadas e assumir quase todas as funções: de jornalista a director.

Conduziu o DN nos caminhos difíceis da pós-privatização (já nos anos 90), atento sempre à evolução do papel dos media. Exerceu um magistério claro, calmo, "sólido e limpo" (como o caracterizou Carlos Pinto Coelho) também na universidade e na televisão, mas foi aqui no DN que construiu a sua obra essencial: a defesa de um jornalismo de rigor e de princípios.

O baptismo na reportagem tivera-o em Novembro de 1975, quando Artur Portela (director do Jornal Novo) o enviou a Madrid, onde dezenas de jornalistas europeus aguardavam o desenlace ditatorial: Franco agonizava e a imprensa internacional queria testemunhar o fim de uma época em Espanha. O generalíssimo morreria no dia 20 e cinco dias depois o PREC ("processo revolucionário em curso", designação da época) chegava ao fim. Pouco depois, a administração do Jornal Novo despede Artur Portela e com ele se solidariza boa parte da redacção, incluindo Mário Bettencourt Resendes, que ajuda a fundar a efémera revista Opção.

No DN - onde chegou quando outro açoriano, Mário Mesquita, era director adjunto -, Bettencourt Resendes foi redactor de Política, editor do suplemento "Análise" (às sextas) e das secções de Política, Economia e Trabalho. Em 1986, torna-se, com Helena Marques, director adjunto de Dinis de Abreu, que substituíra Mário Mesquita. Menos de um ano após a privatização do DN, em Março de 1992, passa a director, cargo que iria exercer nos 12 anos seguintes.

Atravessa os períodos de controlo da Lusomundo e da PT com a independência possível, tornando-se o primeiro defensor da Redacção quando sucessivas administrações acenam com a sugestão de despedimentos. Evita rupturas e prova os méritos de negociador nato no relançamento do DN. Em meados dos anos 90, o jornal está de novo em alta (em credibilidade e em vendas) e quando passa o testemunho, em 2004, pode orgulhar-se da obra feita.

"Foi um resistente. Quando sentia que não tinha capacidade para resolver um problema como gostaria, esperava que o tempo passasse, sem nunca se vitimizar", recorda o jornalista José António Santos, que com ele trabalhou cerca de 30 anos no DN. "O ritmo dele era o da sabedoria", sintetiza.

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Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

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Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

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