A risonha mulher do líder do PSD

O vulto que surgiu ao lado de Pedro Passos Coelho no último congresso do PSD, mas que não costumava ter qualquer actividade política, nasceu em Bissau, viveu no Mindelo e em Coimbra, é fisioterapeuta e foi mãe da Júlia aos 42 anos

Cigarro distraído ao canto da boca e a filha bem sentada ao colo, o pai sonhador dava cor aos livros de pintura enquanto lhe ia trauteando músicas brasileiras e canções francesas. Talvez por isso, Laura Maria Garcês Ferreira, a actual mulher do novo líder do PSD, Pedro Passos Coelho, com quem se casou em 2004, goste de ouvir sobretudo Maria Bethânia ("vi todos os concertos dela"), Caetano Veloso e Milton Nascimento, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud e Georges Moustaki.

As raízes da mulher que o País ficou a conhecer quando, bem sorridente, acompanhou o marido no último congresso social-democrata são um arco-íris: o pai de Laura é filho de um português e de uma cabo-verdiana da Brava, "a ilha das mulheres brancas e louras"; a mãe é filha de um português e de uma mancanha de Bolama.

As "memórias muito gratificantes" de uma infância feliz na Guiné, pois nasceu em Bissau e no 25 de Abril de 1974 estudava numa escola de freiras em Bafatá, estão associadas às brincadeiras ao ar livre e às histórias mágicas que ouvia contar à noite, mas também a situações tão simples como a mãe, na altura muito jovem, após as noites de chuva, acordar os filhos para irem todos apanhar as mangas que tinham caído no quintal.

Funcionário da administração guineense, o pai mudava fequentemente de posto e a pequena Laura Ferreira viveu ainda em Canchungo (na época, Teixeira Pinto) e lembra- -se também de estar no quartel de Contima, com abrigos e buracos nas redes da vedação, de ter andado de helicóptero e tirado fotografias com soldados que tinham saudades das filhas. Depois, descobriu que alguns dos "turras" (como eram designados, no contexto da guerra colonial, os guerrilheiros dos movimentos de libertação) eram da sua família - e acabariam por desempenhar cargos quando o PAIGC chegou ao poder em Bissau e na Praia.

Entretanto, acompanhando a família, abandonou o país onde os seus primos Caló Barbosa e Jânio Barbosa tocavam no famoso grupo Tabanka Djaz e foi viver para Cabo Verde, a pátria do escritor (e ainda seu parente) Pedro Duarte, um dos nomes do célebre movimento Claridade e autor de livros como Manduna de João Tiene. E no Mindelo, onde toda a gente gosta de passear no jardim da Praça Nova (o local mais central da cidade, onde ficam o cinema e o hotel), com o seu quiosque e os bustos de Luís de Camões e de Sá da Bandeira, ouvia tocar no coreto o seu professor de música do liceu, o consagrado clarinetista Luís Morais. E ainda hoje a encantam os quadros "maravilhosos" do pintor Kiki Lima.

Mudou, então, de continente ("nunca mais voltei a África") e, habituada já à paisagem árida da ilha de S. Vicente, espantou-se com os parques frondosos e os jardins de Coimbra. Com o sorriso que estampa no rosto ao falar dos pais, das filhas, dos irmãos, do marido, recorda esse período, em que estudou no Liceu José Falcão - e alguns colegas, num tempo em que o reggae estava na moda, chegaram a usar um fumo negro na manga, mostrando que estavam de luto quando morreu Bob Marley -, ia ao Teatro Avenida ver filmes como Grease e Saturday Night Fever (os dois títulos cinematográficos que garantiram fama ao disco-sound) e às piscinas municipais, onde as miúdas ficavam encantadas quando passava perto delas o nadador olímpico da Académica Rui Abreu.

Nova alteração de endereço e Laura Ferreira foi viver para o Cacém, onde constituiu outro leque de amigos e guardou na memória as paródias juvenis. Nessa altura, também passava férias na Nazaré e em S. Martinho do Porto, onde gostava de conhecer gente de todo o mundo, fossem turistas da Argélia ou da Austrália - e até se lembra de uns austríacos que estranhavam encontrar uma africana que sabia falar inglês. E, nesta época, recorda-se também de ver o (então) líder da JSD na televisão e, mesmo sem nunca se ter dedicado muito à política, pensar que Pedro Passos Coelho dizia coisas acertadas.

Inclinada para a área da saúde, matriculou-se em Medicina na Universidade de Lisboa, mas, não se adaptando àquelas cadeiras teóricas, desistiu no segundo ano, acabando por trocar essa licenciatura pela fisioterapia, onde pode dedicar-se à geriatria, pois assume um "fascínio pelos idosos". E gosta bastante da sua profissão, que exerce, há uma década, no Centro de Educação para o Cidadão Deficiente (CECD), em Mira Sintra, onde é actualmente coordenadora do Centro de Medicina e de Reabilitação.

Entre sorrisos, a conversa podia girar apenas em torno da música: Laura Ferreira, numas férias na (então) Metrópole, teve aulas de piano, que não prosseguiu ao regressar à Guiné; viu a lenda sul-africana Miriam Makeba a actuar em Bissau e os cabo-verdianos Os Tubarões na Festa do Avante!; assistiu ao concerto dos Simple Minds no estádio de Alvalade (e não esconde uma simpatia pelo Sporting), com Joe Cocker a fazer a primeira parte; e conhece bem os discos dos brasileiros Seu Jorge e Ana Carolina.

Signo Balança, casou-se aos 27 anos e foi mãe da Teresa aos 30. Nessa altura, adormecia a filha mais velha, hoje já com 15 anos, pondo a tocar as mornas da Cesária Évora. Depois, divorciou-se, embora goste de frisar que continua a dar-se bem com o ex-marido. Três anos mais tarde, numa casa de amigos comuns, em Vilamoura, conheceu Pedro Passos Coelho e descobriu que, ao contrário do que estava então convencida, era "possível apaixonar-se outra vez". Casou-se com o novo líder do PSD e, aos 42 anos, voltou a ser mãe da pequena Júlia. "Foi óptimo!", sintetiza, quando se coloca a questão da idade com que teve a segunda gravidez e o último parto.

Apesar de, aparentemente, serem muito diferentes, Laura Ferreira assume que têm imensas afinidades, do prazer em apreciar os mesmos pratos (muambas, cachupas, cozidos, feijoadas) ao gosto comum pelo cinema. E a fisioterapeuta de sorriso pronto, questionada sobre os filmes que aprecia, lembra-se logo de As Pontes de Madison County (Clint Eastwood), A Vida É Bela (Roberto Begnini), A Cor Púrpura (Steven Spielberg), O Leitor (Stephen Daldry), Apenas Um Sonho (Sam Mendes). Mas, agora, tem poucas oportunidades de ir ver filmes - e, também, como tanto gosta, de "jantar a sós com o Pedro".

Entretanto, vai lendo, "aos bochechos". Os últimos livros que lhe mereceram destaque foram Alma e os Mistérios da Vida, de Luísa Castel- -Branco, e Zélia, do seu sogro, A. Passos Coelho, um contista, poeta e romancista que, aos 82 anos, revela nesta obra "uma enorme sensibilidade na forma como conhece as mulheres".

Acerca da política, sensatamente, prefere não se pronunciar, remetendo o tema para o marido. "A política não me assusta, mas também não me afasta nem me aproxima de ninguém," declara, com a mesma convicção com que explica porque manteve o seu nome: "Sou Passos Coelho de paixão, mas não no bilhete de identidade." E, agora, podia ouvir-se, numa aparelhagem vizinha, o La Bohème, do Aznavour, ou o Djan Djan, dos Tubarões.

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