A mulher que humaniza o ditador

No livro 'A Governanta', Joaquim Vieira recorda a vida de D. Maria, uma mulher dura, forte, atenta e de "uma dedicação canina" a Salazar, que acompanhou  de perto como mais ninguém.

Penetramos agora no reino de Maria", confia Salazar a Christine Garnier quando, ao dar um passeio com esta nos jardins de São Bento, chega à área dos galinheiros. E o ditador lá vai contando à jornalista francesa como Maria o seguiu para Lisboa e se tornou, "assim, a pouco e pouco, uma personagem - uma personagem importante, tanto para os contínuos de São Bento como para os meus amigos".

Personagem importante. Diz Salazar. Mas Maria de Jesus Caetano Freire era, e foi, muito mais do que isso. Foi a mulher que viveu incondicionalmente para o ditador, que o amou de forma profunda e platónica - como fez questão de comprovar e revelar a directora do lar onde ela morre nos anos 80: "Quando a algaliámos, na sequência de exames ginecológicos, (…) comprovámos que estava completamente virgem" - e que, de tão mau feitio que tinha, acaba por ser mais dura, rígida, vingativa do que o próprio Salazar. Na unidade familiar que se cria intramuros de São Bento, Salazar revela-se, por contraponto, um ser humano carinhoso e preocupado com os que lhe são próximos. E chega a ter de a admoestar.

A jovem que, em 1894, nasceu numa família rural numerosa - eram sete filhos - e com poucas posses, não hesita em voltar as costas à sua terra natal - freguesia de Santa Eufémia, concelho de Penela - para procurar uma nova vida na cidade de Coimbra. E é na cidade académica por excelência que irá trabalhar para os, então, docentes António Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira. Maria de Jesus traz consigo a rudeza e a determinação da terra. E, mais, a noção de que não pertence à mesma classe dos homens para quem trabalha. Uma característica que Salazar privilegia, como fará questão de lho recordar quando lhe parece que a sua colaboradora o esqueceu. Mas será só em Lisboa que Maria de Jesus irá revelar-se por completo. Será também aí que ela irá transformar--se na "mulher mais poderosa de Portugal no século XX".

"Grande inteligência" e "vontade firme" são duas das características - ou qualidades - que todos os que conviveram com Maria de Jesus lhe apontam. E que foram confirmadas por muitas ocasiões, nomeadamente na forma como conseguiu, através do contacto com as ditas "senhoras da sociedade" que frequentavam São Bento, burilar a sua forma de estar e de agir. Analfabeta, só em Lisboa é que Maria de Jesus faz a quarta classe. E tudo porque precisava de ter o seu passaporte para ir visitar o irmão que tinha em Moçambique.

Mas ela não fica por aí: uma vez que domina o alfabeto, os números, resolve tirar partido desses novos conhecimentos. Agora pode controlar melhor as despesas da casa, os preços no mercado, elaborar sem ajuda a lista das compras, ler antecipadamente as cartas que recebem as criadas de São Bento - não vá estarem a portar-se menos bem -, melhorar os seus dotes culinários através das receitas que vai encontrando em revistas ou nos livros que adquire para o efeito. Ou ainda que lhe são fornecidas por "senhoras amigas" quando lhes telefona. E neste caso, a situação é, no mínimo, espantosa. Quem imaginaria que o ditador, o homem que trazia o País totalmente amordaçado e que foi responsável pela perda de grande parte da sua juventude, faria de secretário à sua própria governanta? Pois é, mas aconteceu. E pelos vistos mais do que uma vez: Maria repetia a receita que lhe estavam a ditar ao telefone e o presidente do Conselho registava-a...

A governanta não tem tempo para sentimentos ou mimos. A não ser para o patrão. E é ciumenta das atenções que este dispensa, por exemplo, às duas garotas que receberam em São Bento e que são, afinal, da família de Maria de Jesus. Micas, uma das meninas, conta como Salazar era incapaz de se ir deitar sem passar pelo seu quarto a compor-lhe a roupa e afagar-lhe os cabelos; também era ele quem com elas brincava e contava histórias. Maria? Essa não só não achava graça - nunca deu um beijo nas garotas - como chegava a amuar quando Salazar a repreendia por ser dura com elas. Só após a morte de Salazar, Micas nota uma mudança na "tia": torna-se menos rígida, mais afectuosa.

Na sua "devoção canina" ao ditador, Maria de Jesus era uma autêntica fera a defendê-lo e a protegê-lo. Fazia-o às vezes com desvelos quase de mãe, como quando Salazar foi vítima de uma depressão no fim da II Guerra Mundial. Controlava em absoluto as mulheres que dele se aproximavam e conseguiu afastar sem alarido. A única que aceitou foi Gardiner. Talvez por a saber casada e conhecer até que ponto Salazar era conservador.

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