A imperatriz do 'ketchup' e quase primeira dama

Nasceu em Moçambique na época colonial, mas é cidadã americana desde 1971. A fortuna do seu primeiro marido fez dela uma filantropa. A carreira política do segundo, John Kerry, podia tê-la posto na Casa Branca.

Lá estava o português no discurso que Teresa Heinz Kerry fez em Julho de 2004 na cerimónia de designação do marido como candidato presidencial do Partido Democrata. "Falo a toda a família portuguesa e brasileira", disse em Boston a dona do império do ketchup Heinz, depois de se ter dirigido aos latinos em espanhol, de ter falado também em francês e italiano e, claro, usado o inglês para chegar a todos os americanos.

Cidadã dos Estados Unidos desde 1971, tudo na vida da candidata fracassada a primeira dama (não tivesse John Kerry perdido para Bush as eleições) ajudou a formar a sua personalidade multicultural. Afinal a mulher que insiste em chamar-se apenas Teresa Heinz e que só aceitou o apelido do segundo marido para fins políticos temporários nasceu em Lourenço Marques, a 5 de Outubro de 1938, e foi baptizada Maria Teresa Thierstein Simões-Ferreira. O pai era um médico de Albergaria-a-Velha, a mãe uma britânica.

A infância e juventude de Maria Teresa foi vivida na actual Maputo e ao longo dos anos a agora milionária e filantropa várias vezes disse ter saudades dos sons, cheiros e sabores desses tempos passados no Moçambique colonial. Percebe-se que o pai, que disfarçava mal a antipatia por Salazar, foi a figura mais influente na sua formação. E, para salientar o valor da democracia aos americanos durante a Convenção Democrata, não hesitou em usá-lo como exemplo da vida sob uma ditadura: "O meu pai, um homem maravilhoso que foi médico 43 anos, e que me ensinou a perceber a doença e a pobreza, só teve direito a votar pela primeira vez aos 71 anos." Após a independência de Moçambique, José Simões-Ferreira Júnior regressou a Portugal e morreu em 1989 no Porto.

Ao chegar aos 18 anos, a jovem portuguesa escolheu estudar línguas na Universidade de Witwatersrand. E, apesar dessa escola sul-africana não estar ainda submetida à segregação racial, Maria Teresa recorda ter-se apercebido da força do apartheid, que impunha um racismo que não tinha comparação com a situação em Moçambique, apesar de durante a campanha de 2004, alguns críticos de Kerry terem atacado a sua mulher nascida em África como vinda de uma sociedade que simbolizava o pior que havia no colonialismo. Não serviu de nada: nove em dez negros americanos votaram no democrata.

À África do Sul seguiu-se a Suíça, com estudos de tradução em Genebra. E depois, em 1963, a ida para os Estados Unidos para um trabalho na sede da ONU, em Nova Iorque.

Como foi possível ver na tal cerimónia em Boston, Teresa é fluente em inglês, francês, espanhol e italiano. E, quando a democracia finalmente chegou a Portugal, em Abril de 1974, na pele da portuguesa de Lourenço Marques estava já uma cidadã americana de papéis passados, casada desde 1966 com John Heinz III, herdeiro das empresas Heinz. Com o pai dos seus três filhos viveu a primeira experiência como mulher de político, pois assistiu à sua eleição como senador republicano pela Pensilvânia. E quando este morreu num acidente aéreo em 1991 conta-se que a senhora Heinz terá recusado herdar o seu cargo, decidida a dedicar-se à gestão da fundação ligada à empresa familiar.

Foi como membro da delegação americana à Cimeira da Terra, em 1992, no Rio de Janeiro, que a viúva Teresa se cruzou com John Kerry, senador democrata pelo Massachusetts. Em comum, a veia ecologista e a pertença a uma certa aristocracia, mesmo que ela vivesse em Pittsburgh e ele fosse de Boston. Casaram-se em 1995, com separação de bens. E ela só se assumiu como democrata quando o novo marido tentou destronar Bush.

Enquanto Kerry continua entusiasmado com a política, servindo de enviado do Presidente Barack Obama ao Sudão ou ao Paquistão, Teresa, que admitiu em 2009 sofrer de cancro da mama, mantém-se fiel à sua veia humanitária. Ocupa-se sobretudo das actividades ligadas ao ambiente e à saúde, um homenagem ao seu pai português. No site da Fundação Heinz destaca-se a dezena de doutoramentos honoris causa que já recebeu.

A maioria são americanos, mas também há o da Witwatersrand. Nenhum é português.

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