A faceta de pintor do mestre

A genialidade do poeta, romancista,  ensaísta e crítico parece ter ofuscado a sua pintura. Agora, na Casa da Achada, vai perceber-se melhor a sua arte no cavalete.

"Pintarei, pintarei, queiram ou não, possa eu ou não. É directo, é autêntico, é profundo, é espontâneo. E é como que gostar muito de alguém. Costumo dizer que sou um romancista que não escreve romances. Mais verdade será talvez dizer que sou pintor, chegue ou não ao fim dos quadros. Não é o quadro verdadeiramente que me interessa, mas pintar." O poeta de Riso Dissonante, o crítico e conferencista, o ficcionista de O Dia Cinzento, o pedagogo e polemista, o ensaísta de A Paleta e o Mundo definia assim, na sua Autobiografia, esse outro domínio criativo que iniciara em 1942.

A obra plástica de Mário Dionísio - que começou por assinar com os pseudónimos José Alfredo Chaves (o ministro do Interior e a polícia política apreenderam-lhe um quadro na II Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1947) e Leandro Gil, se manteve como pintor figurativo até 1963, altura em que passou para a sua fase abstracta, aceitando apenas fazer exposições colectivas a partir de 1989 - é menos conhecida que o escritor de Não Há Morte Nem Princípio e de Terceira Idade.

Na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio (ver outra peça), em Lisboa, além do seu espólio literário e biblioteca, vai poder apreciar-se também o génio do amante da história de arte, que escreveu ensaios sobre Van Gogh, apreciava Picasso, reconheceu logo o génio de Pomar, entrevistou Léger e Portinari e ainda se interessou, antes de morrer em 1993, pelo mais recente Tapiès.

A partir de Setembro, quando as obras do centro estiverem concluídas, ficarão ali disponíveis cerca de 140 pinturas de Mário Dionísio: umas 40 telas da fase anterior às Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946), mais 12 quadros a óleo ou guache ainda figurativos, a que se juntam umas 90 obras já da fase abstracta (1963-1993). Acrescentam-se uns 150 desenhos soltos a carvão, tinta-da-china ou lápis, as maquetas para duas tapeçarias e um mural, estudos e esboços, seis blocos de desenhos (um de desenhos infantis legendados), duas serigrafias feitas a partir dos seus quadros e uma tapeçaria.

Se "a pintura de Mário Dionísio", como escrevia o crítico Joaquim Matos Chaves no catálogo da sua primeira exposição individual, na Galeria Nasoni, em 1989 (tinha 73 anos), se manteve "ao longo de anos como um facto de que se tinha conhecimento, que se sabia existir, mas de que era difícil saber em que consistia, como consistia", a partir de agora pode perceber-se no seu conjunto.

A juntar-se a este espólio há ainda meia centena de originais de artistas como Portinari e Vieira da Silva, Júlio e Carlos de Oliveira, Pomar e Resende, Abel Salazar e Álvaro Cunhal. Afinal, o líder comunista (com o pseudónimo António Vale) que atacou as concepções de Mário Dionísio acerca da estética, na célebre polémica da Vértice em 1954, tinha sido antes um dos seus companheiros no cavalete.

E ao ver as criações plásticas de Mário Dionísio pode ser que se entenda melhor porque é que, em 1965, já ele tinha escolhido para uma antologia poética o título Memória Dum Pintor Desconhecido.

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