A adolescência portuguesa de um presidente africano

Nascido numa família de ascendência nobre, o Presidente de São Tomé e Príncipe mantém a ligação à terra do pai e aos amigos que fez durante o liceu. Retalhos da vida de um menino da avó

A Casa de Fataúnços, na aldeia do mesmo nome, onde passou parte da adolescência é desde 1998 um hotel, gerido por um primo em segundo grau, o engenheiro Pedro Teles de Menezes. "Foi nesta casa que nasceu o pai do Fradique, que também se chamava Fradique, irmão gémeo da minha avó. Ele vem cá às vezes, tem uma relação afectiva muito estreita com isto. Liga-me e diz, 'Primo, vou lá dar um salto'. A relação é tão forte que um amigo assevera que o presidente da República de São Tomé e Príncipe procura comprar uma propriedade na zona onde, dos 10 aos 22 anos, residiu, primeiro com a avó, Inês Benedita Teles de Mello Meneses e Castro, que todos garantem "muito autoritária" e "rigorosa" -"Punha os meninos todos em sentido, fazia toda a gente a rezar antes do almoço e jantar" - e depois num quarto alugado em Viseu, onde frequentava o liceu.

A família, dita "de pergaminhos" e segundo Pedro de Menezes remontando a Leonor Telles, mulher do rei D. Fernando - aliás, este mês Duarte Pio de Bragança deslocou-se a São Tomé para entregar a Fradique de Menezes as "armas" respectivas - estaria já à época do nascimento do actual presidente da antiga colónia portuguesa em alguma decadência económica. "Passaram por períodos muito difíceis no século XX, e nos anos 60, quando a conheci, a avó de Fradique já só tinha uma empregada em casa. Vivia dos bens da terra - oliveiras, vinho, milho, e das rendas dos rendeiros." Seria o pai de Fradique, que vivia em São Tomé, para onde tinha ido trabalhar como contabilista e onde conhecera a mãe do actual presidente, a pagar os estudos do filho, nascido em 1942, na "metrópole". "Nem sei se haveria liceu lá nas ilhas na altura, mas o pai dele quis dar os melhores estudos aos filhos", comenta Pedro de Menezes. Além de Fradique, viriam para Fataúnços, Vouzela, também a irmã Maria Helena e o irmão Aires, hoje a viver em Lisboa.

Do acolhimento de uma criança "mestiça" da nobreza rural na província dos anos 50 do século passado o primo não tem referências, nem um dos mais íntimos amigos de Fradique, Flórido Marques, que o conheceu, "aos 15 ou 16 anos, se calhar nalguma farra, porque eu e o Fradique gostávamos de fazer as nossas farras", e que havia de passar com ele a provação do serviço militar em Moçam-bique (ao qual a ascendência "nobre" claramente não furtou o hoje presidente - de resto, Flórido garante que se ele e Fradique foram para a tropa "Não foi por sermos bem comportados, com 22 anos nem o liceu tínhamos acabado"). Mas Jaime Gralheiro, um advogado e dramaturgo da terra dez anos mais velho que conheceu Fradique no grupo de teatro em que este e Florido militavam, tem algo a dizer sobre o assunto. "Conheci o Fradique salvo erro em 1961/62, quando o grupo de teatro dirigido por um padre progressista, Augusto Carvalho [mais tarde jornalista do Expresso], pegou numa peça que eu tinha escrito. Começou por se chamar Epifânio Lacerda e acabei por mudar o título para paredes nuas. Era a história de um homem, o Epifânio, que tinha escrito uma peça e sonhava levá-la à cena; numa discussão fútil com a mulher ela rasga a peça e ele perde a cabeça e mata-a. É julgado e o advogado dele resolve invocar legítima defesa - a legítima defesa do sonho. O Flórido fazia de Epifânio e para fazer de advogado escolhi o rapazinho mulato, o Fradique, que então estava no Colégio de Santo Agostinho. A minha ideia era chocar o reaccionarismo da sociedade viseense, ponto final. Porque mais a mais se tinha passado o que se tinha passado em Angola, em Fevereiro de 1961, e havia aquela coisa de pôr um negro a defender matar em defesa do sonho. Estava em causa saber se as pessoas tinham o direito de usar a violência em defesa do sonho." Gralheiro criou na sequência uma amizade com Fradique e Flórido que dura até hoje. "Ficámos muito unidos, os três. Quando foram os dois para Moçambique iam muito a casa de uma irmã minha que lá vivia, casada com um funcionário público. Foi um período muito doloroso para eles. Depois foi para a Bélgica acabar os estudos e foi seguindo a sua vida e quando dei por mim ele era primeiro-ministro de São Tomé e quando dei por mim era presidente. Estabelecemos uma grande relação de amizade, considera-me seu mestre, e acredito que sim, que talvez seja das pessoas que mais coisas importantes lhe tenha ensinado". E exemplifica: "Que ficasse de pé vertical, que não ajoelhasse fosse perante quem fosse e que tivesse como juiz a sua consciência bem formada."

Jaime, Flórido e Fradique encontravam-se no famoso café Monte Branco, onde se reuniam os "estudantes de esquerda", incluindo o ex-ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho. Flórido faz o retrato: "Viseu hoje é uma cidade morta, mas naquela altura era uma cidade muito viva. Com os cafés cheios de gente nova, miúdos como nós, abertos até às duas, três da manhã. Não havia discotecas, nem bares nem pubs, e por ali ficávamos a conversar até alguns donos de cafés nos pedirem pelo amor de Deus para irmos embora porque fazíamos demasiado barulho." Entre as matérias de discussão, aponta as leituras. "Uma coisa que nunca me esqueço é de ter lido Camus. E o Sartre, também, era lido com uma ânsia brutal. Queríamos fazer a peça As Mãos Sujas mas não nos deixaram." Do reviralho, pois, os dois amigos teriam sido, afiança, crismados por Jaime Gralheiro, hoje do PCP, como "cristãos progressistas". "Porque ele era muito conservador." Mas Gralheiro assegura que era ele próprio "católico progressista". E atento a nuances: garante que percebeu o preconceito de que Fradique era alvo, "mesmo ninguém tinha coragem de dizer-lhe na cara que está este negro aqui a fazer". "Nunca foi verbalizado, mas o Fradique, que era um rapazinho muito simples, calado, pouco falador, com um grande sentido de justiça, atento às questões sociais, apaixonava-se de uma forma louca pelas moças e apaixonou-se por uma rapariga branca muito bem posicionada em Viseu. E apesar de ele ser de uma família com aspirações monárquicas, da nobreza, o facto de ser diminuía-o um bocado." Terá levado a paixão ao ponto de gravar o nome da amada num braço, quando esteve em Moçambique. Mas o objecto de tanto desvelo, suspeita o jurista, nunca soube de nada. "Uma história bonita, não é?", pergunta Jaime Gralheiro. Mas o amigo Flórido, hoje com 68 anos, encolhe os ombros: "Ele era mais castanho mas não fazia qualquer diferença. Pode ter gostado de alguma rapariga que não gostou dele e eu também gostei de algumas que me mandaram bugiar, não tinha nada a ver com isso."

Definido politicamente por Gralheiro como "muito longe de mim, é um social democrata, mas com algum sentido de justiça social", Fradique Bandeira Melo de Menezes continua a relacionar-se com os amigos de adolescência. A Flórido Marques (que fez a vida profissional como bancário, tendo sido deputado pelo PS, partido no qual ainda milita, na Assembleia Constituinte) chegou mesmo a convidar para trabalhar com ele. "Queria que trabalhasse nos negócios privados que tem, de importação e exportação, e que não pode misturar com a presidência. Mas o que eu gosto é de estar com ele a comer ostras e a comer vinho branco. Espero que acabe o mandato agora em Setembro [há eleições em Julho] para vir cá tranquilamente e sentarmo-nos num restaurante a conversar. Porque ele é um grande conversador."

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