"Há coisas grotescas na família real"

A história íntima dos Borbóns ao longo de três gerações, vista pelo olhar de Pilar Eyre, é uma descida ao inferno davida espartilhada pelo desejo de poder.

As famílias felizes não têm história, escreveu o escritor russo Lev Tolstói no romance Anna Karenina. Partindo desta premissa, a família real espanhola está longe de ser feliz, mas é com certeza uma família cheia de histórias. Exílio, mortes, luxo e pobreza, lutas pelo poder, amores e desamores, heroísmo e decadência, fazem dos Borbóns figuras dignas de uma tragédia shakespeariana.

Pelo menos esta é a opinião da jornalista, escritora e especialista em assuntos ligados à família real, Pilar Eyre, que no livro Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola, editado agora em Portugal pela Esfera dos Livros, desvenda e analisa o percurso dos Borbón ao longo de três gerações, desde D. Alfonso XIII até D. Felipe e sua polémica mulher Letizia.

A obra, recebida com polémica no país vizinho, traça um retrato contundente, por vezes irónico e crítico sobre esta casa real, cruzando acontecimentos individuais dos seus membros com a história contemporânea da Europa, desde a destituição da monarquia em 1931 até à actualidade. Eyre é autora de romances, ensaios e de um programa de televisão, e todos os espaços são sobre a realeza de Espanha.

Que família é esta que ocupa o trono de Espanha?

É uma família que podia ter saído de um drama shakespeariano. Há lá tudo, intrigas, lutas pelo poder, cobiça, loucura e morte. O mais chocante talvez seja a falta de ligações afectivas e a forma irrealista como vivem e viveram, sobretudo durante os anos de exílio.

Mas não são assim todas as famílias?

Em parte sim, mas as outras não estão expostas ao olhar público. Não se espera delas o comportamento exemplar que se espera dos monarcas. A sua função na sociedade passa muito pelo exemplo que eles podem dar ao nível das suas acções individuais e colectivas, dos valores que sustentam. Mas penso que eles não se dão conta disso pela difícil relação que têm com os media. Hoje a família real é suportada pela imprensa do coração. Vive de uma aura de sonho. Mas esta aura de sonho que envolve estas pessoas é onde radica também grande parte da sua força e da sua aceitação pública.

Que segredos e mentiras escondem?

Escondem tudo o que poderia constituir um perigo para o seu lugar no trono. A origem do dinheiro, ou a falta dele, as rupturas familiares. Os homens escondem as amantes. As mulheres escondem as humilhações, mas também a sua força. Durante as décadas no exílio, viviam como se ainda governassem, numa irrealidade total. No Estoril rodeavam-se de uma verdadeira corte de empregados e bajuladores mas, ao mesmo tempo, vendiam aos fotógrafos imagens dos filhos ou das festas. Escondem actos de covardia, a falta de cultura. Esconderam a forma como D. Juan usurpou o trono ao pai, a sua proximidade com Franco...

Neste livro há uma visão muito crítica dos Borbóns...

Procuro, antes de mais, mostrar o seu lado humano. As suas fragilidades e cobardias para lá dessa imagem pública de família de sonho. Há aspectos grotescos nas suas vidas: a forma como educam os filhos, a forma faustosa que viviam mesmo sem dinheiro, a desunião familiar, a solidão de cada um deles.Tudo sacrificado para estar no trono.

Espanha identifica-se com a família real?

A monarquia no nosso país é atípica. Nós não nos identificamos propriamente com o regime monárquico. Identificamo-nos com Juan Carlos, sentimos que ele é um de nós. Ele cai e levanta-se, tropeça e pragueja. Somos juancarlistas, não monárquicos. Quando eu nasci, não havia rei, ensinavam-nos que eles eram bêbedos, corruptos, ladrões...

Porém, como conta no seu livro, Juan Carlos tem uma história terrível: a morte acidental do irmão, a sua proximidade com o ditador Franco, a forma como conseguiu ficar no trono que pertencia por direito a seu pai...

Sim, é mais uma vez digno de Shakespeare. Era considerado um tonto, foi sempre péssimo aluno. Mas acho que aprendeu com a vida o essencial para ganhar o carinho e a aceitação do seu povo. É um sobrevivente, e isso tornou-o um político hábil. O filho, D. Felipe, não tem o encanto, nem o poder de sedução, nem a habilidade política do pai. Nunca fez nada. Não tem um trabalho. Não se dá a conhecer ao seu povo. Vive fechado no seu círculo familiar. Penso que é um fraco e que está totalmente dominado pela sua mulher, Letizia, que é uma mulher do mundo, enquanto ele foi sempre afastado da realidade.

Como terá D. Juan Carlos superado o facto de ter causado a morte do irmão?

"Jura que não fizeste de propósito", foi o que o pai lhe exigiu ante o cadáver do irmão. Portanto, ele teve de lidar com a morte e a eterna dúvida do pai. Isso tornou-o uma pessoa triste, mais fechada. Os amigos dizem que só agora é que ele se está a tornar uma pessoa mais afectuosa.

Há mais segredos para revelar sobre esta família?

Sim, claro. Muitos mais. Mas há uma censura em torno da família real. Ainda no ano passado, o director do canal de televisão onde trabalho disse-me: "recebemos muito mais pressões da Casa Real do que do Governo". Ainda hoje ninguém sabe bem de onde lhes vem o dinheiro, por exemplo.

Qual é o membro da família real que mais admira?

Quem mais admiro são as irmãs do rei: Dona Pilar e Dona Margarida, duas grandes desconhecidas mas mulheres com uma história exemplar, que dizem o que pensam e têm uma vida simples, e é uma pena que D. Juan Carlos não se tenha apoiado mais nelas. Acho que é um homem muito sozinho. A figura mais problemática para mim é Dona Letizia. Porque ela mantém-se à margem de tudo. Não participa em acontecimentos sociais, não a conhecemos. Como poderemos aceitá-la como rainha?

Que futuro vê para a monarquia espanhola?

Há duas correntes de opinião: os que defendem que Felipe e Letizia acabarão por conseguir impor-se junto aos mais jovens e aqueles que pensam que, com a saída de D. Juan Carlos, acabará por haver um referendo e a monarquia acabará.

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