Foi para o teatro porque era uma pessoa rica

O homem que é a alma do grupo teatral profissional Gungu, de Moçambique, deve o início da carreira a um acaso, quando teve de substituir um actor doente. Hoje é uma figura incontornável da cultura desse país africano.

De um "menino mimado" a que nada faltava, Gilberto Mendes, estrela de teatro, cinema e de televisão em Moçambique, saiu do berço, fundou a companhia de teatro Gungu e hoje, gestor de duas salas de teatro, em Maputo, está a andar com os seus próprios pés e diz que foi ao teatro porque era uma pessoa rica. A longa aventura deste homem no campo teatral começa com a sua participação, como actor de cinema, no filme de José Cardoso O Vento Sopra do Norte, entre 1984 e 1985, que conta a história da guerra de libertação de Moçambique envolvendo o movimento guerrilheiro da Frelimo e a tropa colonial portuguesa. "Depois fiquei um tempo sem fazer nada até que surgiu um convite para integrar o grupo cultural Mutumbela Gogo, de Manuela Soeiro, no seu satélite, o Mbeu", disse. Nessa altura, a companhia-mãe tinha em cena a peça Nove Horas, no Teatro Avenida, e Mendes não se fartava de ver várias vezes a mesma obra, em busca de referências para se fazer na carreira. Numa delas, ao intervalo, com casa cheia, desmaiou um actor devido a problemas de úlcera, e teve de ser levado de emergência para o hospital. Num ambiente de incerteza quanto à possibilidade de prosseguir com o espectáculo, Gilberto Mendes foi o Messias. De um simples espectador, viu-se no palco, sem ensaio prévio da peça, "arrastado" pela Soeiro para fechar o lugar, quebrando, assim, a sua virgindade no teatro de forma peculiar.

"Quando subi ao palco, fiquei anestesiado. Não me lembro de nenhuma sensação para além do nervosismo, preocupado em saber o que devia fazer em palco. Alguém me dizia, a dado passo, faz isto. Havia coisas que eu acertava porque já tinha visto a peça e outras que fazia mal", narrou, emocionado. Mendes conquistou o coração de Manuela Soeiro, "dama de ferro" do teatro moçambicano, e ficou de vez no mesmo personagem.

Algum tempo depois, ganhou o estatuto de actor principal. "Aquilo serviu de rampa para o meu lançamento no mundo de teatro". Nos princípios da década de 90, multiplicaram-se sugestões de amigos e amantes do teatro para que Mendes começasse a ter a sua própria companhia. Abandonou Mutumbela Gogo e procurou enquadrar-se num outro grupo, entre a Casa Velha, Zomola e outros. "Apercebi-me de que donde eu vinha estava acima daquilo que existia e que, se calhar, era preferível criar uma coisa própria." O primeiro desafio era ter uma sala de teatro. Entre as três opções que o Instituto Nacional de Cinema lhe apresentou, a escolha recaiu sobre o cineteatro Matchedje, sem compromisso com o cinema, completamente partida, sem cadeiras, luz e vidros nas janelas. "Era um sítio abandonado e um miniarmazém de produtos roubados do Porto de Maputo. No local vendia-se clandestinamente arroz, açúcar e feijão. Na calada da noite, os guardas cediam a sala, a título de aluguer, para a prática de prostituição. Isto tudo estava cheio de preservativos usados", contou. Gilberto Mendes lembra-se de que a zona era frequentada por muitos marginais, e a noite, com tudo escuro, "metia medo vir para aqui ao teatro. "Era sempre a pensar nestas barreiras que eu montava, tanto o espectáculo, como a visão que teria de ter para a companhia." Mesmo com todas estas adversidades, a 2 de Setembro do mesmo ano, Gungu pariu a sua primeira peça, intitulada Coração da Lagoa , cuja estreia, longe da crítica de teatro, foi dedicada às famílias dos actores, "à luz de cambiara, com a lanterna na boca, para conseguir ligar os fios à ficha, a servir de luminotécnico". "As cadeiras, tinha trazido de casa. Nas sessões seguintes, abertas ao público, às vezes tínhamos mais actores no palco do que propriamente espectadores. Foi um mergulho no escuro, mas sempre na perspectiva de fazer espectáculo, estudando o público para descobrir aquilo que deveria ser a nova roupagem do teatro a pratica pela companhia Gungu. "O meu sentimento, ao conseguimos pôr a primeira peça em palco, foi de que é possível alguém chegar onde sonha, bastando para o efeito acreditar em si e dizer 'é isto que eu quero'."

É possível alguém chegar onde sonha, bastando acreditar em si e dizer 'é isto que eu quero'"

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