Miguel Sousa Tavares

Jornalista e escritor.


Filho de Sophia de Mello Breyner Andresen e Francisco Sousa Tavares, é desde a publicação do livro 'Equador' um dos mais lidos autores em Portugal. "Não escrevo diatribes. Escrevo aquilo que eu penso sobre as coisas, não são diatribes. Sabe que as pessoas acham que é muito fácil dizer mal quando se escreve. Ao fim de 15 anos pode ter a certeza de que é mais difícil", confessa sobre o seu lado de jornalista e comentador.


Tem feito várias cruzadas nos últimos tempos. Contra a APL, o BCP... Sente-se um D. Quixote ou vai acabar como o Sancho Pança?

Não vou acabar como o Sancho Pança, mas também não me sinto um D. Quixote. Vejo as coisas de uma maneira muito simples: pagam-me para ter opinião e ter opinião é aquilo que eu penso. No dia em que achar que não penso, não quero pensar ou tenho medo de pensar, então deixo de escrever. Agora, o contrato estabelecido entre mim, o jornal e os leitores é para que eu diga o que penso. Se achar que a administração do BCP se portou como um bando de trapaceiros, porque é que eu hei-de calar isso?

"Em Portugal tudo acaba sem responsável e responsabilidade." Ainda pensa assim?

Sim e em muitas coisas, basta ver a "Operação Furacão", que dura há três anos, pôs sob suspeita a nata do nosso empresariado e o que é que nós sabemos? Que até agora já se devem ter gasto uns milhões a investigar, uns milhares de páginas a relatar, uns tipos apanhados a fugir ao fisco que foram pagar voluntariamente e o Estado recuperou os dinheiros mas nem sequer o nome deles sabemos. Mesmo que não acabe em acusações em tribunal, deveria ser público que o grande empresário condecorado no 10 de Junho devia um milhão e desviou dinheiro para uma offshore.

Mas aí teríamos metade da classe empresarial portuguesa exposta na praça pública!

Mas é isso que falta, Portugal nunca soube a lista dos jornalistas que colaboravam com a PIDE, temos um jogo de encobrimentos tremendo.

É mais crítico do que elogioso porque a realidade nacional é assim tão incontornável?

Infelizmente, Portugal parece que tem sempre um motivo para me indignar. Também não é sempre assim, porque fui muito concordante com os dois primeiros anos de Sócrates - como fui com os primeiros anos de Guterres - mas é evidente que, se vejo o Santana Lopes a chegar a primeiro-ministro, aí eu estou indignado desde a primeira hora, porque eu sei o que é que isso significa.

Acredita que José Sócrates poderá ter uma nova maioria?

Até uma maioria absoluta, tudo pode acontecer! Acho que não vai perder as eleições, talvez a maioria absoluta. Isso sim é muito provável.

Então acredita na sua sobrevivência?

Acho que tem uma grande capacidade de luta, porque é muito mais tenaz do que as pessoas imaginam. Tenho pena é que não tenha a coragem de ir aos pontos essenciais e, quando vejo o que o Sócrates foi como ministro do Ambiente e o que é que este Governo tem feito nessa matéria, parece que são duas pessoas completamente diferentes. Está a permitir que o actual ministro faça, a mando dele próprio, uma política que é radicalmente diferente daquilo que o Sócrates anunciava quando era ministro, que foi quando eu o conheci.

Porque mudou assim tanto?

Por pressão dos acontecimentos, por não ser capaz de ter a calma suficiente para enfrentar uma crise muito grande em Portugal. O modelo de de senvolvimento, o funcionamento da administração pública, o sistema escolar, entre outros, estão ultrapassados e teremos que tocar no fundo para depois voltar a emergir. Começou com coragem para fazer as reformas, mas recuou. Se lhe aparece alguém a dizer "olhe, está aqui esta paisagem protegida. Dêem-me isso e eu meto aqui dez milhões, faço um aldeamento turístico, dou emprego a 500 pessoas", ele sacrifica a paisagem.

E Manuela Ferreira Leite terá força para enfrentar barões e baronetes no PSD?

Essa é a grande questão, é que sozinha também não ganha eleições. As pessoas têm que perceber que apareceu outra gente no PSD e esquecer o que é que foram os últimos anos: um ano catastrófico de Santana Lopes antecedido por dois anos e meio do Barroso em que, depois de prometer que ia governar melhor, pôs-se na alheta e foi-se embora. E eu não sei se as pessoas já esqueceram tudo isso e se estarão dispostas a trocar simplesmente por trocar só porque não gostam do Governo.

Incomodou-o a atitude de Durão Barroso?

Eu vou-lhe dizer uma coisa que não tem nada de pessoal. De todas as actuações de todos os políticos desde o 25 de Abril, aquela que eu mais desprezo foi a do Durão Barroso. É, de todos os políticos, aquele por quem eu tenho menos consideração. Acho que ele fez e estará disposto a fazer qualquer coisa simplesmente pelo poder e mais nada.

Irrita-o porque o fez a um alto nível?

É mais grave do que isso. Em Durão Barroso não há a mínima noção de serviço público na política. Ele está no poder apenas pelos sinais exteriores de poder e pelo que isso lhe dá de importância e de exposição mediática. Não tem, posso estar enganado - o meu pai tinha uma frase, "queira Deus que eu esteja enganado" -, nenhuma intenção nobre da política. Nunca teve e o facto de a Europa o ter escolhido para comissário demonstra a que baixo nível chegaram os líderes hoje em dia. Que saudades dos Willy Brandts, dos Olof Palmes e do Felipe González. Era outra coisa.

Era inevitável a acusação da SEDES de que Sócrates anda já a pactuar com as eleições?

Eu não acho que ande a pactuar com as eleições, porque o lançamento de obras públicas só vai ter repercussão muito depois das eleições. Acho é que chegou ao Governo com algumas ideias preparadas para reformas e aí foi bom. Fez algumas, outras deixou-as a meio porque não conseguiu derrotar os lóbis que resistem às reformas. Só que a agenda política esgotou-se aí. Ele não pensa para além disso e como vê que há uma grande crise económica recorre ao método tradicional em Portugal, que é lançar obras públicas porque é o único horizonte de desenvolvimento que vêem.

Quando diz que não pensa para além disso…

Não pensa… Se eu perguntar ao Sócrates o que é que Portugal vai ser daqui a vinte anos - de que é que nós vamos viver, o que vamos produzir - ele não é capaz de responder. Onde é que está a aposta na investigação e na tecnologia? Agora, fazer mais auto-estradas, barragens e aldeamentos turísticos é fácil. É a aposta na construção civil que dura há quarenta/cinquenta anos, e que qualquer pessoa sabe que está esgotada.

Não é por acaso que Jorge Coelho sai do PS para ir para a Mota-Engil?

Não o foram buscar por acaso. E seguramente que, independentemente de ser uma pessoa competente, a Mota-Engil não agiu inocentemente. E isso tem que ver com uma promiscuidade que existe entre o lóbi das obras públicas, os grandes escritórios de advocacia em Lisboa e políticos que circunstancialmente estão no activo e que a seguir ou vão para os escritórios de advocacia ou para essas empresas: Ferreira do Amaral na Lusoponte; Fernando Gomes da Galp; Mira Amaral no banco do Amorim e por aí fora.

Para conseguir mais votos e ter obras vai sacrificar muito mais no próximo ano e meio?

Pois vai e isto também está ligado à política dos autarcas que querem mais construção. Recorde--se que uma das coisas do programa eleitoral dele - que eu apoiei imenso - era a inversão do sistema para que as receitas autárquicas deixassem de depender das licenças de construção. Não fez nada disso, pelo contrário, e quando lhe perguntei a razão respondeu-me candidamente: "Bem, nem tudo que está no programa se consegue fazer. Às vezes não há condições políticas."

Acha que interiormente se sente derrotado?

Isso não acho, de todo. Nem acho que o esteja, nem acho que esteja derrotado.

Até porque Manuela Ferreira Leite não vai ser um obstáculo tão grande como se pensava?

Vai ser mais que o Menezes. Ele trucidava o Menezes e a ela não sei! Vamos ver, acho que ela não começou nada mal ao perguntar quanto custam as obras públicas e para que servem. É um barrete, porque estamos a investir em obras que não vão ter retorno económico nem ajudar ao desenvolvimento do País. Foi o caso de Alqueva...

Mas uma boa oposição vai ajudar a terminar melhor o mandato?

Acho que sim e isso acontece em todas as circunstâncias e governos. Não há pior em democracia que uma má oposição. É tão mau como um mau Governo.

Mesmo assim, as reformas de Sócrates promoveram bastante contestação social...

Houve contestação social, porque as pessoas não gostam que lhes mexam nas coisas que têm como adquiridas. A contestação à ministra da Educação é um exemplo disso no caso das aulas de substituição, em que os professores conseguiram providências cautelares que determinam que só trabalham se for trabalho extraordinário. E com isto desceram à rua centenas de milhares de professores. Como é que é possível uma classe em que uma das funções principais é classificar pelo mérito alunos todos os anos se recusar a ser avaliada por mérito? Como é possível juntar 200 mil pessoas contra isto? Uma contestação que foi alimentada pelo Partido Comunista, porque vive disso, mas também irresponsavelmente pela oposição de direita a Sócrates que derrotou muitas das reformas urgentes na educação.

Uma manifestação em que alguns milhares lhe faziam a folha se pudessem!

Muitos, aliás, fizeram-me a folha de uma maneira cobarde, que foi inventar artigos que eu não tinha escrito e coisas que eu não tinha dito e pôr a circular na Internet. Tive algumas reacções de professores que me deixaram preocupado - não que tivesse fisicamente medo - porque achei que o nível de combate de ideias desses que me escreveram era de tal maneira rasca que fiquei a pensar como podem ser professores.

No mundo dos blogs também não poupam?

Já criei há muito uma defesa ao não frequentar blogs e já declarei publicamente que 90% do que escrevem sobre mim é falso. Não fazem a mais pequena ideia de como é que vivo ou o que faço.

Há substitutos para a velha classe política?

Eu acho difícil, porque é muito difícil governar Portugal. A última coisa que eu queria era governar este país, só com uma pistola apontada à cabeça, porque os portugueses acham que o político está lá para roubar e eu não penso assim, os nossos políticos não são piores que o povo. Se calhar até acho o contrário! Estar no Governo é um atraso de vida em termos financeiros, familiares e pessoais e, se fazem uma coisa bem, contestam, se fazem mal, criticam. É um problema que a Europa vai ter cada vez mais, porque as melhores pessoas não querem governar e daqui a dez anos só mesmo um louco quererá governar Portugal.

Antes ainda regressará o Bloco Central?

Apesar dos desmentidos, tem pernas para andar se as coisas piorarem muito, porque alguém vai ter que governar. Eu acho que daqui a um ano, ou daqui a um ano e meio, não vai ser possível ter um Governo em minoria a enfrentar uma crise económica tremenda. Se Sócrates ganha as eleições com 38 por cento, estaremos em plena crise e ele não vai querer governar assim.

Resta o trio Cavaco, Sócrates e Manuela?

Eu percebo que Manuela Ferreira Leite não possa dizer que "Bloco Central não, eu sou a alternativa ao Governo" mas as circunstâncias podem ditar isso e o próprio Cavaco derrubou o Bloco Central no tempo do Soares. Pode vir a aceitar e a patrocinar uma solução dessas.

Falando de desilusões, Pinto da Costa...

Penso que o "Apito Dourado" é uma fantochada inventada pelo Benfica para ganhar fora do campo. Dito isto, acho que Pinto da Costa devia ter-se demitido, porque cometeu um erro que não pode cometer: rodeou-se de companhias que levaram o nome do clube para a lama.

Refere-se à "escritora" Carolina Salgado?

Exactamente. Não só, mas sobretudo ela. Que ele entronizou como se fosse primeira dama do Porto, levou-a ao beija-mão ao Papa, para os camarotes do clube nos jogos mais importantes e devia saber com quem se estava a meter. Assim que ela se tornou o inimigo público número um do clube, devia ter-se ido embora.

O tempo de Pinto da Costa acabou?

É ridículo que uma pessoa fique 25 anos na mesma função.

O tempo do Filipe Vieira também já passou?

Esse nunca devia ter existido. O último presidente do Benfica decente foi o Fernando Martins e tenho saudade do tempo do Borges Coutinho quando eu até ia ao Estádio da Luz ver o Benfica europeu e torcer por ele.

Vai haver tempo para Carlos Queiroz?

Sim, com certeza que vai haver tempo.

Tem planos para o próximo livro?

Sérios não.

O cenário será o Estado Novo?

Tão cedo não escrevo um romance histórico. Quero escrever outras coisas. Não digo que nunca mais volte lá, mas tão cedo não. Escrevi o segundo porque me apetecia e foi uma espécie de estágio de preparação para outras coisas. Neste momento, o que eu estou a tentar fazer - mas ainda não é uma coisa séria - é totalmente diferente e se for avante as pessoas vão ficar muito admiradas e surpreendidas.

Mas não serão livros de viagens?...

Não vou desvendar tudo, mas uma das coisas que estou a tentar escrever é teatro.

Atrai-o o palco?

Atraem-me os diálogos, que é uma grande dificuldade na ficção portuguesa. Eu tentei-o no Equador e acho que consegui. O teatro é sobretudo uma escrita à base de diálogos, necessita de noção cénica e é um grande desafio.

Vai escrever teatro para...

Eu estou a escrever, não sei se vou escrever!

... para ser representado?

Isso já não me cabe a mim, mas obviamente que estou à espera que alguém represente.

Deve-se à sua recente experiência cinematográfica como actor no filme do Equador?

Não é propriamente uma experiência cinematográfica. Curiosamente, na véspera de ir fazer os filmagens, recebi um convite - que já é o segundo - do Joaquim Leitão. E já recebi quatro/cinco convites para fazer cinema. Não é coisa que repudie à partida, só que ainda acho pouco profissional o cinema que se faz aqui.

Sente capacidade para representar?

Não sei se gostaria. Gostei muito do ambiente de filmagens, mas não lhe sei dizer se foi uma brincadeira... Se fosse a sério, não sei se o faria.

Mas com tantos convites!

Não sei o que passa na cabeça dos cineastas.

Acostumados a vê-lo representar na TV...

Se calhar é isso…

Aquela representação que fez com a Manuela Moura Guedes foi boa.

Não foi representação, foi a vida real. Eu chateei-me e não foi a brincar, é o meu trabalho.

Mas se os realizadores o convidam é porque o devem achar com potencialidade...

Isso não sei, talvez porque há falta de actores. Não é uma vocação, apesar de no Liceu Gil Vicente ter feito teatro em duas ou três peças.

Então, também está nos genes?

Achei divertido e não era difícil decorar as deixas… Mas não é uma vocação que tenha nem uma coisa que me entusiasme assim tanto. Há muito mais coisas que me entusiasmariam.

Ser actor já não está fora dos seus planos?

Acho que já passei ao lado da suposta carreira.

Já passou ou já entrou?

Já deixei passar. O convite mais tentador foi para O Delfim [de José Cardoso Pires], realizado pelo Fernando Lopes. Estive tentado a aceitar, mas o Paulo Branco pagava miseravelmente... Acho que fez mal, porque teria vendido mais cem mil bilhetes à minha conta.

O Paulo Branco entende de cinema...

Pois entende, mas é muito forreta.

O Paul Auster além de escrever também tem realizado filmes. Isso já o atrai?

E isso sim eu gostaria de tentar um dia. No tempo da RTP, fiz muitas grandes reportagens que já eram meio cinema. Se tivesse hipótese, gostaria, era um desafio como foi o Equador.

Que filme faria?

Com um tipo de narração como a de um filme do cinema americano. Mostrar que é possível contar a história através de imagens, mas não iria filmar livros como o Manoel de Oliveira.

Tipo One from the Heart, do Copolla?

Não sei... Gostei muito do Último Tango em Paris. Também gostaria de filmar um Leopardo. Acho que todos os realizadores gostariam...

O Último Tango tem só cenas de sexo... Mas isso também existe nos seus livros!

O sexo não existe? Como dizia o Millôr Fernandes sobre o Equador: "Caralho, o sexo existe!"

Muitos escritores são autobiográficos nos livros. Aquelas cenas foram vividas por si?

Quais?

Aquela cena tórrida na praia de S. Tomé.

Eu não fui ver o livro do Kamasutra das 500 posições para ver quantas é que eu tinha experimentado na minha vida. Com certeza que há cenas sexuais que eu vivi e outras não. O que as torna credíveis é que as pessoas lêem e relêem--se. Não é o autobiográfico, é o que acontece na vida de todos nós e não é sempre na posição do homem em cima da mulher, graças a Deus.

Mas a do Equador é autobiográfica ou não?

Não é autobiográfica, nunca estive em S. Tomé desse modo nem nunca fui governador…

Não estou a falar de S. Tomé...

Quer saber se eu já fiz sexo na praia? Já, já várias vezes e gostei muito, mas não foi exactamente aquela cena.

Fez 56 anos e mais do que nunca há um ditado popular - quem sai aos seus não degenera - que se lhe adapta. Gosta da tribuna, como o seu pai; de escrever, como a sua mãe...

O meu pai [Francisco Sousa Tavares] também gostava muito de escrever. Era um colunista - embora tenha escrito um livro muito bom que ninguém conhece porque foi apreendido na gráfica pela PIDE (Combate Desigual), feito quando ele era monárquico -, não era um ficcionista. A minha mãe [Sophia de Mello Breyner Andresen] também nunca escreveu um romance. Não sei se os genes são mesmo uma determinação a que não se consegue escapar... Não sei até que ponto é que se herda isso tudo. Digamos que herdei um certo ambiente propenso à meditação e à escrita.

Hoje já não encontramos polemistas como o seu pai. Falta-nos garra?

São poucos e esses estarão cansados. A maior parte das pessoas consegue manter colunas da imprensa onde nunca criaram inimigos ao fim de dez e de vinte anos. É notável fazerem críticas sem nomes e conseguirem atravessar as várias estações da política sem se chamuscarem. O meu pai não era assim, mas um bombardeiro.

Seria uma questão geracional?

Não é geracional, mas estrutural. Tem que ver com a nossa maneira de ser, que é muito aquela máxima: "Agarrem-me, senão eu bato-lhe."

Lembra-se de dois/três nomes que possam comparar-se a Francisco Sousa Tavares?

Pacheco Pereira é um, de outro género, mais intelectual e profundo nas análises, porque o meu pai era mais intuitivo e imediatista. Talvez seja o único que se aproxima dele... Não há outros.

Nem Soares, que atira frequentes bombas?

Ele não atira tantas bombas como isso, mas cada vez que escreve é amplamente divulgado. Não deixo de admirar a juventude tardia do pensamento do Dr. Mário Soares.

Mais progressista que os outros políticos?

Não sei bem o que é que quer dizer progressista! É um termo cujo sentido se abastardou de tal maneira que eu não iria por aí. Mário Soares levanta questões que dão que pensar tal como foi com a atitude da Europa em relação a Hugo Chávez, em que foi a primeira pessoa que disse "atenção que não é um simples ditador sul-americano como é apresentado no Ocidente. Há mais qualquer coisa ali". Isso deu-me que pensar e nesse sentido admiro-o, porque não adormeceu.

Voltemos ao genes. Somos um país de poetas mas terá a sua mãe poetas comparáveis?

Não terá tão cedo e o grande consenso que existe à roda da minha mãe, da obra e da pessoa dela vem daí. Acho que ela é a essência da poesia e qualquer pessoa o reconhece, desde o miúdo que aos 12 anos começou a ler coisas para além do livro de leitura até ao professor universitário. Há qualquer coisa na poesia da minha mãe que é absolutamente instintiva, imanente às coisas. Aquilo não é uma escola literária, é poesia com tudo o que tem de pureza, e penso que é inultrapassável nesse aspecto.

Houve quem a desejasse Prémio Nobel...

Muita gente bateu-se por isso, mas a minha mãe nunca se dispôs a fazer o roteiro obrigatório do Prémio Nobel: ir à Feira de Frankfurt, à Feira de Londres, ir aqui e ali. Nunca se dispôs a isso e era uma pessoa muito relapsa a dar entrevistas a quem a incomodasse na sua torre de marfim, porque era de facto um poeta de torre de marfim e nunca se prestou a isso. Lembro- -me de várias vezes ouvir em conversas de pessoas que se moveram para que fosse Prémio Nobel e que iam falar com ela e diziam "Ó So phia, você só tem que vir aqui ou ali, ou dar esta entrevista", mas ela nunca quis, nunca, nunca.

Portugal é um terno candidato ao Nobel, mas só na literatura.

Acho que temos grandes investigadores nas ciências, mas os melhores estão lá fora, integrados em equipas e sem capacidade para investigar sozinhos. Mas creio que daqui a uns anos pode acontecer que ganhemos um Nobel de Física, da Química ou da Medicina! Creio que, sem tirar o mérito ao Nobel do Saramago - e ele próprio também achava que a minha mãe era uma excelente candidata -, o primeiro Nobel da literatura portuguesa deveria ter sido para a poesia, porque é o melhor que temos.

Há outros candidato ao Nobel da Literatura?

Ninguém pode dizer se não vai nascer aí um génio ao dobrar da esquina, mas o Prémio Nobel da Literatura, tal como o da Paz, ganhou um sentido muito político e não é uma coisa que seja atribuída unicamente a génios literários.

A maior parte dos leitores desconhecem que é filho de Sophia. Qual a razão de o esconder?

Porque acho que não tenho que ter um letreiro ao pescoço a dizer "eu sou filho da Sophia de Mello Breyner". Eu distingo muito bem as duas coisas, o que é que era a escritora e o que é que era a minha mãe. E a minha mãe não é uma pessoa do domínio público, só a escritora é que é. E eu não me escondo nem o divulgo, acho que não é relevante. Para a minha biografia não é e para a dela ainda menos. Além de que eu não quero que a minha biografia precise do nome da minha mãe.

O que faz tem valor suficiente?

Tem que ter e isso é uma coisa que resolvi desde os 15 anos. Tenho de conseguir as coisas por mim e não por ter sido filho de quem fui.

E acredita que a sua obra está à altura?

Em vida da minha mãe não, certamente. Mas ela gostava muito do que eu escrevia, sempre gostou... Não vou dizer mais sobre isso, porque acho que me ficaria mal. Seguramente que eu não escreveria se achasse que a envergonharia, em vida ou depois da morte, então teria arranjado um pseudónimo. Mas também não tenho anos suficientes nisto para poder dizer que tenho uma obra… Sou um escritor muito tardio, andei a fazer muitas coisas antes, sobretudo no jornalismo, e não foi de ânimo leve que escrevi o Equador. Foram dez anos a pensar no livro.

Gosta de ler autores nacionais?

Leio todos. Pelo menos, abro e começo os livros todos do que se faz de ficção em Portugal.

Quais é que não tem acabado?

Oitenta por cento.

Dê um exemplo.

Não!

Quais é que tem acabado?

Eu acabo sempre o Mário Cláudio, a Agustina e a Lídia Jorge - sou muito conservador. Depois há outros de que gosto: Mia Couto, Agualusa, José Luís Peixoto.

Irrita-o um primeiro-ministro que proibiu os portugueses de fumar à sua vontade?

Passou-se uma coisa engraçada entre nós - não desvendo nenhum segredo inconfessável - depois de ele ter feito essa lei. Sócrates telefonou-me para irmos almoçar e eu disse-lhe: "Não posso ir almoçar consigo." Ele perguntou: "Mas não pode porquê?" Ao que respondi: "Porque não se pode fumar no Palácio de S. Bento." E aí disse-me: "O senhor sabe que eu sou um liberal, sempre fui." E eu: "Não, o senhor escreveu uma lei em que não se pode fumar em edifícios do Estado e eu só vou a sítios onde se possa fumar." E, então, ele ficou um bocado atrapalhado: "Bem, eu comprometo-me a arranjar um sítio onde o senhor possa fumar." Arranjou e fomos a um restaurante onde me cravou seis cigarros durante o almoço… - e eu que tenho os cigarros contados até ao fim do dia, porque gosto sempre que sobrem alguns! Vem um não fumador e dá-me cabo da coisa e obriga-me a ir às bombas de gasolina a meio da noite.

Sócrates prometeu que acabava com o vício!

Eu acho que ele fez muito mal - mas os políticos têm coisas que nós não compreendemos - ao dizer "nunca mais fumo". A lei está mal feita e é completamente absurda. Eu acho a lei uma violência e idiota e não faz nenhum sentido, porque devia ser uma que defendesse uns e outros. Não aconteceu assim… Foi uma lei fundamentalista de mais e o exemplo de Espanha era tão fácil de copiar. Agora, o que eu acho é que ele fez mal, depois de ser apanhado a fumar no avião, obviamente era contraditório com a lei que tinha feito, ainda vir dizer: "Peço desculpa, não volto a fumar." Porque é que uma pessoa tem de pedir desculpas públicas por hábitos privados? Faz-me lembrar a história do Clinton com a Monica Lewinsky! Nunca percebi até hoje porque é que desde o primeiro dia não se limitou a dizer "Desculpem, é a minha vida sexual, íntima e privada. Ao direito da Quinta Emenda da Constituição Americana, vocês não têm o direito de entrar por aqui a dentro e não é por eu ser presidente que tenho menos direitos que os outros. Nem mais nem menos. Não falo sobre esse assunto." Assim teve a sua vida sexual exposta na Internet. Na liberdade individual, só há duas atitudes: ou não se cede nem um passo, ou então, quando se cede, não pára.

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Leonídio Paulo Ferreira

Nuclear: quem tem, quem deixou de ter e quem quer

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.