De Executivo do Google a herói da revolução

A página "Somos todos Khaled Said" no Facebook surgiu para vingar a morte de quem lhe deu nome. De Alexandria, a campanha contra a tortura e brutalidade policial, o rastilho acendeu a revolta.

Chama-se Wael Ghonim, tem 37 anos e criou uma página no Facebook que levou à queda de Hosni Mubarak. "Não sou um herói, os heróis sois vós que continuais nesta praça", afirmou Wael Ghonim aos milhares de manifestantes que, esta terça-feira, o receberam de forma apoteótica na Praça da Libertação, no centro do Cairo.

Mas, por mais que tentasse regressar à sua condição de cidadão anónimo, os jovens presentes no principal palco da contestação ao regime egípcio não lhe deram essa oportunidade e rapidamente o escolheram para ser o seu porta-voz.

Na véspera e após 12 dias de detenção pela polícia secreta egípcia, Ghonim surpreendera e galvanizara todo o país quando, perante as câmaras da cadeia de televisão privada egípcia - Dream2 -, se emocionou até às lágrimas ao ter conhecimento da existência de vítimas em consequência do movimento de protesto que ele, afinal, lançara ao criar no Facebook a página "Somos todos Khaled Said". Foi através dessa página, que leva o nome de uma vítima dos esbirros do regime em Alexandria, que foi inicialmente criada para lançar uma campanha contra a tortura e a brutalidade policial, que Wael Ghonim apelou a um protesto contra o regime no dia 25 de Janeiro, Dia da Polícia no Egipto.

O jovem lançou o apelo com a esperança de que tudo corresse de forma pacífica e que o povo não contasse mais "mártires". Enganou-se. Daí que, ao ser confontado com as imagens das vítimas, tenha sido com a voz embargada pelos soluços que pediu perdão a todas as mães que perderam um filho durante os confrontos. O seu pedido de desculpa, comentavam depois muitos manifestantes, contratastava "com a arrogância do poder" que nunca fora capaz de fazer mea culpa. E o movimento que parecia estar a perder alguma vitalidade ganhou nova energia.

Oriundo do Cairo, onde nasceu há 37 anos, Wael Ghonim é um executivo do Google, mais concretamente o seu chefe de Marketing para a África do Norte e o Médio Oriente. Dias antes da data agendada para o protesto, este jovem moreno, de testa alta e óculos - sinal de inteligência, diz o povo - deixou o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), onde reside com a mulher e os dois filhos pequenos, para se deslocar ao Cairo. Perante os seus superiores, justificou a necessidade da viagem com "problemas pessoais". Na realidade, queria ver como respondia o povo ao apelo que ele lançara. Esteve na Praça da Libertação, passeou pela cidade, viu a polícia carregar e, na segunda noite do movimento, foi raptado pela polícia secreta que o manteve 12 dias algemado, de olhos vendados, e constantemente sob interrogatório dos polícias que acreditavam ter entre mãos o agente de uma qualquer potência estrangeira interessada na desestabilização do Egipto.

"Nada de especial", dirá o jovem quando procuram saber da sua saga nas masmorras do regime, onde, provavelmente, teria ficado mais tempo não fosse o gigante americano para o qual trabalha dar o alerta sobre o seu desaparecimento.

Na Praça da Libertação, sob o olhar atento dos militares, Ghonim confessou aos manifestantes que gostava de chamar ao movimento a "revolução Facebook, mas depois das pessoas que aqui vejo, será melhor dizer que esta é a revolução do povo egípcio".

Até à sua libertação, era desconhecida a identidade do criador da página do Facebook que contava já com 90 mil seguidores. Após a entrevista na televisão, rapidamente a página em causa aumentou para 220 mil fãs e continuou em crescendo.

Na praça, palco da revolução popular que pôs termo a 30 anos de regime de Mubarak, Wael Ghonim teve uma surpresa que também o emocionou profundamente: encontrou, pela primeira vez, a mãe de Khaled Said.

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