Bomba na associação de amizade Portugal-RDA

No Verão de 1976, já na ressaca do processo revolucionário, um potente engenho de trotil explodia num local que se  tornara um símbolo da tentativa de hegemonia comunista

"Portugal tem agora a sua oportunidade de colher bons frutos através deste tipo de relações, o que, aliás, é garantido pelo alto índice de desenvolvimento da Alemanha Oriental, que desde a sua fundação, há 25 anos, tem conhecido um extraordinário progresso a todos os níveis." As palavras dos oradores na conferência de imprensa, efectuada na sede da Associação Portuguesa de Escritores, em que tinha sido apresentada a Associação de Amizade Portugal-República Democrática Alemã (RDA), reproduzidas pelo DN de 14 de Agosto de 1974, tinham uma resposta bizarra dois anos depois: as suas instalações eram destruídas à bomba!

"Foi bastante potente o engenho deflagrado ontem à tarde, cerca das 13 e 45, nas instalações da Associação de Amizade Portugal-RDA, que ficou parcialmente destruída", noticiava o DN de 24 de Julho de 1976. "Não há vítimas a lamentar, mas os prejuízos materiais são elevados. Embora não tenha sido possível apurar, com rigor, as características do engenho, os técnicos de minas e armadilhas da PSP supõem que se tratasse de trotil ou outra matéria semelhante, pondo de parte as hipóteses de pólvora ou dinamite. A bomba foi colocada junto da porta da Associação, no 4.º andar do número 17, da Praça José Fontana, nas proximidades dos elevadores do prédio local, onde abriu uma grande cratera."

Acerca da motivação política, numa época em que se estava já em plena ressaca do Processo Revolucionário em Curso, nem um comentário. No Verão de 1974, quando o Leste europeu ainda não tinha sido anatemizado e já existiam a Associação de Amizade Portugal-URSS e a Associação de Amizade Portugal-Cuba, além do presidente Alexandre Babo, estavam presentes na apresentação à Imprensa os escritores Fernando Namora, José Palla e Carmo e Maria Velho da Costa e o compositor Fernando Lopes-Graça.

Entre os objectivos então anunciados destacavam-se "projecção de filmes sobre a RDA, exposições fixas e itinerantes, uma ampla troca de delegações a vários níveis, atribuição de bolsas de estudo, viagens recíprocas de estudantes, trabalhadores e personalidades de prestígio em todos os campos da actividade humana".

No ano da bomba começou a Festa do Avante!, em que actuariam nomes da RDA como a cantora Gisela May, os grupos rock Puhdys, Silly e City, as bandas de jazz Dixieland All Stars Berlin ou Jazzformation. E a Associação de Amizade Portugal-RDA, que duraria até à queda do Muro de Berlim, trouxe a Portugal artistas e nadadores olímpicos, projectou filmes dos estúdios da DEFA (Deutsche Film-Aktiengesellschaft) e promoveu espectáculos, mas, sobretudo, editou revistas e livros em que se tentava demonstrar o "alto índice de desenvolvimento" do país de Honecker.

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