Álvaro Cunhal ainda é o controleiro do PCP

É uma espécie de 'Avatar' o filme que se vive no PCP, onde os protagonistas do Comité Central e da direcção decidem muito da linha política inspirados em Cunhal. O ex-secretário-geral continua a existir numa dimensão paralela, determinando a formação de novas gerações e a seduzir dissidentes.

A pergunta era simples e directa. Cinco anos após a morte do mítico secretário-geral do Partido Comunista Português, a sua influência deixou de ser determinante na orientação da vida do partido?

A resposta, no entanto, não é fácil de encontrar mesmo quando se questionam os militantes mais novos ou até os críticos que abandonaram o partido, em oposição a Cunhal.

Todos os dirigentes e militantes com responsabilidades sentem a mão ainda tutelar de Álvaro Cunhal, que emana dos gabinetes da sede na Rua Soeiro Pereira Gomes - a Soeiro, como lhe chamam - e continua a orientar a vida do maior partido comunista dos países que vivem em democracia. Mesmo que a presença iconográfica do camarada Álvaro passe quase despercebida no piso térreo da sede, a não ser nas capas dos livros aí à venda.

Mas o comunista que entrou frequentemente na Soeiro nas últimas décadas, e que vá até ao bar, não consegue ainda deixar de imaginar que Álvaro Cunhal poderá atravessar a qualquer momento a porta sempre fechada que dá acesso ao interior do edifício e encostar-se ao balcão para lanchar ou tomar um Sumol. Era, aliás, o momento ansiado pelos muitos que não eram recebidos com tanta urgência como desejavam para falar com ele.

Seria de pensar que ao morrer a influência de Álvaro Cunhal na linha política do PCP diminuísse consideravelmente. Que a velha guarda que manteve o partido vivo durante décadas de repressão política no Estado Novo perdesse o pé. Que as vozes menos ortodoxas se fizessem ouvir fora da Soeiro. Que o poder dos cargos cedidos pelos históricos a dirigentes mais novos alterasse o rumo da oposição. Que os dois secretários-gerais impusessem novas dinâmicas. Que o rejuvenescimento dos militantes em curso se reflectisse doutro modo. Ou que as visões dos mais jovens, alguns nascidos após o 25 de Abril de 1974, divergissem.

Não, Álvaro Cunhal reina em teoria e na prática qual Lenine dos comunistas portugueses. Ele, que fez questão de deixar os princípios identitários do PCP bem registados, mantém-se como o grande controleiro dos comportamentos comunistas e vê reconhecida aquela atitude de "caldear velhas e novas gerações" numa acção politíca em que a diferença de percursos e crenças se torna bastante imperceptível para quem olha de fora.

Parece que a capacidade intelectual de Álvaro Cunhal vai continuar a inspirar o PCP e que as novas gerações de comunistas lerão os seus textos clássicos à luz da actualidade, sendo uma das poucas comunidades na Terra onde o passado serve de lição. O que se conclui após ouvir o "colectivo" é que a presença de Álvaro Cunhal continua real.

E muito pouco clandestina.

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