A vitória dos plebeus

Daniel Westling, um antigo professor de Ginástica,  casa-se hoje em Estocolmo com a herdeira do trono sueco,  a princesa Vitória. Foram precisos oito anos, muitos estudos e determinação, para o plebeu ser aceite na família real.

O plebeu que em 2001 conheceu a princesa Vitória, quando esta frequentava o seu ginásio pri-vado em Estocolmo, não é o mesmo plebeu que hoje se casará com a futura rainha da Suécia. Para merecer a aceitação da família real, Daniel Westling aprendeu a falar inglês, francês e alemão, teve aulas de História e de Ciência Política e a assessoria das melhores agências de imagem e comunicação. No final, o amor venceu todas as barreiras, e hoje a Suécia está em festa.

Há vários dias que as ruas da capital estão enfeitadas para a cerimónia e nas lojas multiplicam-se os artigos de comemoração, desde a típica caneca ou T-shirt até aos chocolates com o rosto da noiva, de 32 anos, e do noivo, de 36. Mas o casamento real, com os seus mais de dois mil convidados - incluindo D. Duarte de Bragança, ausente por estar em Viseu no Congresso da Causa Real - serve também para fazer ouvir as vozes contra a monarquia. Afinal, em plena crise económica, a festa custará mais de dois milhões de euros, metade dos quais pagos pelo Estado, que é como quem diz, pelos cidadãos.

Apesar de a monarquia ter vindo a perder apoios na última década, com cerca de 28% da população a defender agora a sua abolição, Vitória é o mais popular membro da família real. E o seu casamento com um plebeu poderá até beneficiar a mais velha dinastia reinante sem interrupção na Europa. Há até quem lembre que a casa Bernadotte começou com um simples militar de origem modesta. O soldado da Revolução Francesa que Napoleão promoveu a marechal do Império, e nomeando-o príncipe de Portecorvo (Sul de Itália), foi chamado pelos suecos a ser rei, em 1818, após a morte de Carlos XIII.

Longe vão os tempos em que os herdeiros só se casavam com alguém de sangue azul, fomentando as alianças entre reinos. Há muito que o Almanaque de Gotha, o antigo directório da nobreza, não serve de "catálogo" quando se trata de casamentos. Que o digam os herdeiros de Espanha, Noruega, Dinamarca e Holanda (ver outros textos), que se casaram com plebeias.

No caso de Daniel e Vitória, a maioria dizia que a relação não iria dar certo, tal era a diferença de origens. Ela, a filha mais velha do Rei Carlos Gustavo XVI e de Sílvia, por quem as leis foram alteradas após o nascimento do irmão para garantir o seu direito de sucessão. Ele, nascido no dia em que o futuro sogro foi coroado, mas a 190 km a norte de Estocolmo, em Ockelbo, numa região de florestas no centro da Suécia (terra de ursos e alces). É filho de uma empregada dos correios e de um funcionário da segurança social, que já fez capa dos jornais depois de ter doado um rim ao filho - que sofria de uma insuficiência renal congénita (não hereditária, acrescentaram).

Vitória foi desde cedo preparada para ser rainha, estudando na Universidade de Yale (EUA), fazendo estágios na ONU, na representação sueca da União Europeia, no Exército e no Governo sueco. Além disso, fez um curso de francês na Universidade Católica de Ouest d'Angers e fala inglês e alemão. Ele teve de aprender tudo nos últimos anos, de forma a saber "comportar-se" durante os compromissos oficiais. Os dois conheceram-se em 2001 num dos seus ginásios, que ela começou a frequentar, anos depois de ter sido confirmado que sofria de bulimia.

O primeiro beijo foi captado pelos media em 2002, mas só em 2006 Daniel surgiu num evento oficial. O anúncio do noivado foi efectuado em 2009. Hoje, no dia do casamento, e quebrando toda a tradição na Suécia que diz que os noivos devem caminhar juntos até ao altar, Vitória será levada pelo pai. E à meia-noite, o casal deverá abrir o baile que culminará as festas de casamento. E Westling será para sempre sua majestade real o príncipe Daniel, duque de Västergötland.

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