A última mercearia da Baixa

Na esquina da Rua da Prata com a de S. Nicolau, aguentou-se mais de cem anos para dar agora lugar à recepção de um hotel. Derradeira do seu género, era "um trabalho de amor". Morre de pé mas com muita mágoa.

Mariana Alves tem 75 anos e não sai de casa há muito tempo. Culpa o quarto andar sem elevador e a "falta de paciência para se arranjar". Uma eremita que depende assim da empregada doméstica e das "meninas da mercearia" para manter o contacto com o mundo. Se tem uma dor, se precisava de um medicamento ou de qualquer outra coisa, é para a Nova Açoreana que liga. Praticamente todos os dias - "Mesmo se às vezes não precisasse tentava arranjar alguma coisa para elas virem trazer as compras. Costumava falar com elas, até lhes contei a minha vida toda".

Avisada no início de Maio de que "as meninas" iam, com o fim da mercearia, deixar de ser o seu apoio domiciliário, esta ex-funcionária dos Correios conta agora receber os mantimentos através de um minimercado da zona, que foi contactado pelas empregadas da mercearia. "Foram lá pedir para me virem trazer as coisas". Habituada a pagar mensalmente, aquando da recepção da pensão, não quer falar do assunto. Mas Helena Catarino Duarte, a mais antiga funcionária da Nova Açoreana e também residente da Baixa, confidencia que assumiu a responsabilidade perante o estabelecimento , para que a antiga cliente possa continuar a fazer as contas ao mês. "Sei que é uma senhora muito certa nesse aspecto, e como eles não queriam correr o risco, disse-lhes que se houvesse algum problema eu resolvia."

O mesmo fez em relações a outras clientes certas da mercearia, como Mónica e Conceição Almas, duas irmãs de 85 e 91 anos que moram num quarto andar também na rua da Prata. "Tenho saudades das meninas - fazem-me falta, tenho muita pena delas, de se irem embora", lamenta a mais nova. "Faz de conta que era uma pessoa da família, precisava de uma coisa qualquer, telefonava, faziam assim uns jeitinhos, uns recados." A morar na Baixa há 26 anos, esta ex-modista sai, assim como a irmã, mas para carregar com pesos contava com o serviço da mercearia. "Eu passo lá e trago uma coisa ou outra mas quando é mais coisas elas não me deixam trazer."

Não, não é todos os dias que se depara com um negócio assim. A equipa da Nova Açoreana, que conta com três funcionária mais a dona, Cristina Maneira -47 anos com o curso de Direito incompleto, toda a experiência profissional na área da informática e das novas tecnologias, há 10 feita merceeira - vai deixar saudades e não só nas clientes idosas dos últimos andares. Limpa, bonita (foi reabilitada quando Cristina tomou conta dela), arrumada e bem fornecida, com produtos regionais e uma garrafeira aprimorada, esta loja fazia parte dos roteiros obrigatórios de turistas e residentes, mantendo a respiração de bairro numa zona em que o comércio de proximidade foi desaparecendo. Testemunha disso é Maria Helena Catarino Duarte, que aos 69 anos acumula quase 52 (completar-se-iam em Julho) na N.A. "Foi o meu primeiro e único emprego. Vim trabalhar aqui porque os patrões moravam em frente da casa dos meus pais, em Belém. Eram o Sr. Lourenço e a D. Rosa, que tinham como sócio o Sr. João da Costa [cujo nome se lê numa bela tabuleta anos 30 afixada na parede em frente à porta do estabelecimento]. Vim trabalhar na caixa, ainda hoje há clientes que me chamam 'a menina da caixa'." Foi na N.A. que Helena Duarte conheceu o marido, contratado como motorista da carrinha que fazia as entregas. "Tínhamos imensa clientela, gente que vinha de longe para fazer encomendas. Faziam o rol e púnhamos aquilo tudo em cestos e ia-se fazer a entrega. Fornecíamos hotéis - o Eduardo VII, o Avenida Palace e até havia um em Cascais que nos gastava os presuntos. A casa tinha muita saída por termos produtos que nos distinguiam. Tínhamos fornecedores de queijos da Serra da Estrela, recebíamos pão de centeio de Moncorvo, Trás-os-Montes, três vezes por semana, até deixarem de fabricar, e o pão alentejano vinha, como até agora, de Casa Branca, de Évora."

Lembra uma rua da Prata "cheia de mercearias e manteigarias", e com clientela para todas. "Depois, foram fechando. Apareceram os supermercados e o negócio foi decaindo." Em 1989, o patrão Lourenço morreu e a loja entrou em auto-gestão. Os três empregados - Helena, o marido Alfredo e o colega Santos - mantiveram o negócio à custa de muito trabalho e dedicação, fazendo tudo, das compras às contas. Foi assim até que Cristina Maneira, cujo marido advogado era detentor de parte da sociedade, comprou o resto e assumiu a direcção da mercearia. Fechou-a para obras, fez uma garrafeira na cave e resolveu especializar-se em produtos gourmet e regionais. "Pensei: 'Não percebo nada disto, mas vou aprender' - e vim para aqui aprender com os empregados. E aprendi muito, até sobre a vida em si, sobre o que é o atendimento, o tratar o cliente. Porque há um grande problema no país com o prestar serviço, e acho que é com toda a honra que servimos. Ao princípio ainda pensei fazer tudo com produtos biológicos mas quando me deparei com a realidade que era a Baixa, tive um choque. E virei-me então para os produtos regionais, para representar o que temos de bom e a pensar também nos turistas. Os estrangeiros vinham, às vezes voltavam ano após ano, e elogiavam muito. Chegavam a perguntar 'Vocês são subsidiados, não?'" Ri. "Hoje em dia sinto que o objectivo a que me propus estava conseguido. Mas tenho muita pena que este espaço, com esta história toda, feche. É uma mercearia com 100 e tal anos e com este carisma é a última da Baixa. Ainda há bocado um senhor que vinha sempre comprar aqui uns queijos perguntava: 'E agora onde é que vou conseguir comprar?'"

A decisão é recente, de finais de Março. "O prédio foi comprado. Estava no processo de se transformar num hostal e era suposto podermos coexistir, tanto que o ano passado tivemos de suportar as obras. Mas entretanto o snack bar do lado fechou e aí mudou o projecto, quiseram passar isto a hotel e usar o espaço da mercearia, dizem que a entrada vai ser por aqui e na cave farão a sala de refeições." Referindo que o quarteirão que fica por trás da loja vai ser outro hotel, Cristina manifesta estranheza com a ideia de uma Baixa monotemática. "Se isto é para ser um centro comercial devia ter várias ofertas diferentes. Que graça tem hotéis no centro se depois as lojas tradicionais desapareceram todas?"

Frisando que "nunca tirou um tostão da loja e que o conceito da sociedade não era distribuir dividendos", Cristina diz sair "de cabeça levantada e com as contas fechadas". "Com muita pena, até porque senti sempre muito o peso da responsabilidade de ter pessoas a trabalhar para mim." Quanto à tristeza, fala dela com um sorriso. "Acho que ainda estou acelerada, a tratar de tudo. Triste vou ficar depois. Aí vem o down, porque era uma carolice, um trabalho de amor. Isto tem tanto de mim, que horror. Mas só sei fazer assim."

É também com sorrisos, tanto mais corajosos quanto ficam as duas no desemprego, que Elizabete Santos e Carla Rigueira, "as meninas", 39 anos ambas, falam do fim. "Algumas pessoas estão muito dependentes de nós e isso causa-me angústia", diz Carla, que partilha com a patroa o curso de Direito inacabado e há três anos respondeu a um anúncio para trabalhar como merceeira. "Havia clientes que ligavam a pedir para irmos lá a casa trocar uma lâmpada. Gostei especialmente dessa proximidade. E é difícil pensar que acabou. Não tenciono cortar laços, de todo, com algumas pessoas vou continuar em contacto, mais que não seja um telefonema de vez em quando." Elizabete, que só estudou até ao 6º ano devido à morte do pai e à necessidade de "ajudar a mãe a sustentar a casa", começou a trabalhar com 13 "a fazer companhia a pessoas de idade" e esteve ao todo 13 anos e sete meses na Nova Açoreana. "Gosto deste tipo de trabalho, acho que é o que mais gosto de fazer. Está-se em contacto com todo o nível de pessoas, e dá-se assistência. A Baixa está cheia de pessoas de idade sem ninguém e damos um pouco de nós e ouvimos um pouco delas." Suspira. "E esta é um bocado a minha segunda casa, a minha filha foi criada aqui, trazia-a no carrinho porque não tinha quem ficasse com ela. Tenho tanta pena que se vier à Baixa pedir emprego não quero passar nem perto."

Helena Duarte, que viu correr a história pela montra do 116/118 da Rua da Prata, elegendo "como auge, apoteose", o 25 de Abril e como pior as cargas policiais sobre os estudantes e os bancários durante a ditadura, vai para casa fazer companhia ao marido, que apesar de reformado ainda fazia as compras para a loja. E, como a colega Elizabete, teme defrontar-se com a destruição da memória. "Logo que isto comece a ser desmanchado nem quero passar aqui, dói-me muito."

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