A rebelde das mãos pequenas

Iniciou a carreira internacional em 1970 com a vitória num concurso. Construiu uma imagem de inconformista, de visionária bucólica para quem os grandes concertos são sacrifício e prefere uma vida simples, longe dos holofotes. Mas aprecia a reverência.

Uma pesquisa apressada no Google com o nome dela diz-nos que renunciou à nacionalidade portuguesa. Não faria sentido, então, tê-la aqui, entre os portugueses com sucesso "lá fora". Mas não é verdade - e talvez nunca se saiba se alguma vez pensou mesmo fazê-lo e depois mudou de ideias. Certo é que, apesar de ter anunciado a mudança de residência para o Brasil, após uma operação ao coração, em 2006, a levar a cancelar vários concertos e a abandonar a direcção do Centro de Belgais (fundado em 1999, com o objectivo de criar um espaço de aprendizagem artística com ligação à natureza) - entre acusações de "incompreensão" e "falta de apoio" do Governo português (que este desmentiu, revelando as verbas entregues ao centro pelos ministérios da Cultura e, sobretudo, da Educação), limitou-se a pedir a dupla nacionalidade. E a decidir, até nova ordem, não mais falar com jornalistas portugueses.

Descrita como um prodígio do piano, começou a tocar aos três no da irmã mais velha e deu o seu primeiro recital em 1948, aos quatro anos. "Foram só 15 minutos... Aos cinco é que já foi um recital inteiro, mas eu estava habituada a tocar, nada me foi imposto. Nessa altura claro que apareceram empresários a quererem levar-me pelo mundo fora, mas a minha mãe não deixou. Tinha muito medo que eu fosse explorada. Tive muita sorte." (entrevista de 1987 ao Jornal de Letras). O primeiro de uma longa carreira, apesar de dizer várias vezes que preferiria só gravar e nunca dar concertos (não, explicava, por não sentir o público, mas por o "sentir demasiado") e numa entrevista em 1997 ao Expresso apresentasse Sviatoslav Richter, o pianista ucraniano que morrera nesse ano, como modelo - no fim da vida ele viajava de carro no Sul da Europa, de piano atrás, e ia parando aqui e ali para fazer recitais inesperados, numa igreja bonita, por exemplo. "Há uma magia que surge quando se toca em sítios inesperados, onde as pessoas não estão intelectualmente complexadas em saber ouvir", explica Maria João Pires. Este discurso, o de uma espécie de regresso à natureza e à simplicidade, de recusa explícita do elitismo e do vedetismo, do circuito da beautiful people, perpassa na sua contradição essencial - que é um pianista clássico senão um produto da crítica especializada, das grandes salas e dos consumidores eruditos? - e no seu desejo de "pureza" todas as entrevistas de fundo da pianista das mãos minúsculas (no início duvidava-se da sua "grandeza" como executante devido a esse facto) que iniciou a sua carreira internacional em 1970 com a vitória no concurso comemorativo do segundo centenário do nascimento de Beethoven e que em 1989 integrou, em exclusividade, o catálogo da Deutsche Grammophon, a mais prestigiada das editoras de música clássica e erudita. E que a Inês Pedrosa, dois anos antes, na citada entrevista para o JL, certificou que jamais estaria oito horas por dia ao piano a treinar; três no máximo, geralmente menos. "Sou capaz de arranjar mil desculpas para não estar ao piano." Receosa, no entanto, de que a leiam pretensa ungida, adensa a impressão: "Não me sinto com mais talento que os outros. Desenrasquei-me com pouco tempo. Isso também porque trabalho muito mentalmente, estudo as peças de cor, de noite, quando durmo. É que sou muito rebelde. E as pessoas que estão oito horas por dia ao piano aceitam. Eu sou uma impaciente, uma nervosa. Olhe, pronto, sempre toquei assim, continuo a tocar assim. Se não gostarem da minha maneira de tocar, que se mudem." Ou muda-se ela, se achar que não gostam o suficiente. Pelos vistos.

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