A nova oposição brasileira na crista da onda política

Deixou o 'surf' pelos corredores da política, a pedido do avô Tancredo Neves.  Foi seu assessor especial  na corrida presidencial, em 1985. O ex-governador de Minas Gerais galga terreno dentro do PSDB como homem forte da oposição.

De todas as vezes que entrava de prancha de surf no mar do Rio de Janeiro, onde morou na juventude, Aécio Neves, o senador recém-eleito, por Minas Gerais, do Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, sentia aquilo que a fisiologia chama de adrenalina. Um certo nervosismo, palpitações, até que depois da prova superada vem a sensação de serenidade. Foi o avô Tancredo Neves quem lhe mudou a adrenalina, quando resolveu primeiro candidatar-se ao governo de Minas. Tancredo foi o primeiro presidente eleito depois do fim da ditadura, em 1985, não chegando a assumir, morrendo pouco tempo depois.

Na noite de Natal, há 30 anos, o avô chamou-o: "Você não quer largar a vida de surfista e conhecer direito a sua terra?", lembrou Aécio à revista Isto É Gente, numa entrevista em 2002. Tancredo convidava-o para ser seu assessor. Quatro anos depois estaria ao lado dele na campanha presidencial.

Na época, Aécio, nascido no seio de políticos profissionais e que foi oito anos governador no maior colégio eleitoral depois de São Paulo, Minas Gerais, sua terra natal, teve as mesmas palpitações. Desde então, o economista que admira o trabalho de Lula da Silva e se dá bem com o Partido dos Trabalha-dores, PT, e com partidos da base aliada, ainda as sente sempre que enfrenta o palanque para discursar. Tom marcado pelo estilo informal. E o volume e a pujança do político promissor da oposição ao PT têm, na realidade, aumentado. O mediatismo segue por osmose. Depois da popularidade como governador de Minas, com 70% de aprovação, do pu- jante resultado para senador, nestas eleições, e cotado para ser candidato à presidência este ano, hipótese descartada quando José Serra reuniu apoio dentro do partido, Aécio Neves reforça a fibra política. O governador reeleito pelo Ceará, Cid Gomes, do Partido Socialis-ta Brasileiro, defendeu que ele deveria ser presidente do Senado. A afirmação afina o tom das relações do Governo e da oposição para os próximos quatro anos. Enquanto Aécio lavra terreno para a liderança no PSDB.

Na leitura científico-política, ele é a grande novidade na forma e no conteúdo: imagem carismática, diplomata e homem de ideias. Salto quântico: é o possível candidato pelos tucanos às presidenciais em 2014. Mas o experiente político, conhecido pela criação do Pacote Ético, que pôs fim à imunidade parlamentar para crimes comuns, precisa provar que consegue unir o partido, desgastado com o desempenho de Serra nas presidenciais. A grande disputa no PSDB será, precisamente, com o ex-presidenciável.

Aécio, que foi eleito em 2009, pela Época, uma das personalidades brasileiras mais influentes, descartou ser vice-presidente de Serra, conforme foi aliciado. Desmarcando--se, a estratégia era a de um líder sereno. Para arriscar a corrida presidencial precisaria galgar terreno sozinho. Num discurso em época de pré-campanha eleitoral, em Abril deste ano, usando o característico tom populista, cadenciado pelo sotaque mineiro, e voz ligeiramente rouca, o político posicionou-se. "Em Dezembro do ano passado, declarei-me não mais pré-candidato do PSDB. E dava o claro sinal de que estaria a seu lado o governador Serra, porque acima de projectos pessoais, legítimos que sejam, está o interesse maior de construirmos um Brasil diferente." Em Outubro, a Veja adiantou três cenários para Aécio: presidência no Senado, ser presidente do partido ou abandoná-lo. Tendência: até construir o seu Brasil diferente, Aécio quererá surfar sozinho outras ondas políticas.

Exclusivos