À flor do povo

Acontecem "quando o povo quer", "são idealizadas pelo povo" e tudo é feito com trabalho voluntário. "Não há outra festa assim no mundo." Em calhando, não.

Sei muito bem forrar arames. E fazer rosas também sei. Mas gosto muito é de forrar o arame." Mariana, sete anos, solta frases entre risos. Desde Março que acompanha a mãe, Vitória Cambiais, 39 anos, auxiliar de acção médica, na manufactura de flores de papel crepe e de seda para enfeite das ruas da terra na festa que hoje se inicia. É apontada como a mais nova das voluntárias, entre mais de quatro mil pessoas que, de acordo com a estimativa da Associação das Festas do Povo de Campo Maior, participam neste esforço: mais de metade da população da vila (oito mil). "Foi desde 23 de Março até esta semana - acabámos na quarta dia 24 de Agosto. Eu fiz todas as noites serão das 21.30 à uma da manhã." Vitória fez umas "25 a 30" flores por noite, Mariana "umas três ou quatro".

Filha da "cabeça da rua" - cada uma das artérias que entra na decoração tem um responsável pela organização, que recebe os materiais, os distribui e combina com os vizinhos a decoração a fazer, Mariana iniciou-se este ano no mister e, garante a mãe, "aprendeu mesmo muito rápido". As últimas festas foram em 2004: não se pode lembrar. Mas acha que "vai ser muito divertido, vou andar na rua com os meus amigos". Vitória também conta com isso: "Cantamos as nossas saias, as nossas quadras, fazemos um baile. A minha rua vai à rua ao lado..."

Cada rua tem o seu desenho, em segredo até ao dia da inauguração. No Baluarte de Santa Rosa, a sua, Vitória, filha de campomaiorenses que emigraram para a Bélgica e lá nascida (só veio viver para Portugal aos 11, mas aos 12 já trabalhava para as festas) idealizou "janelas típicas alentejanas e uns portões como numa quinta". As cores escolhidas foram rosa, roxo, lilás e creme mais "os vários verdes" dos caules e folhas das flores que são a imagem de marca da festa e que "de festa para festa evoluem, de cada vez os trabalhos são mais minuciosos, os materiais melhores. As primeiras franjas que me lembro de colar era com água e farinha, agora é com cola, também não havia os agrafos. E os primeiros anos trabalhávamos com papel de seda, agora temos também o papel de crepe, que se molda muito melhor."

Porquê flores como motivo? José Baptista Mourato Celestino, 83 anos, nado e criado em Campo Maior, um dos mais antigos entusiastas disto e fundador da associação de festas entre mil um outros ofícios e carolices, incluindo músico, fotógrafo, ourives, membro do clube columbófilo, da direcção do rancho folclórico, da orquestra, etc, e, agora, agente da rede nacional de expressos, encolhe os ombros. "As festas começaram em 1893 e desde esse ano até 1898 aconteceram todos os anos. Eram feitas em honra de São João Baptista. Mas nessa altura não havia ainda flores de papel, não era com esta grandeza. Era mais verduras. Depois foram evoluindo, porque a imaginação do povo não tem limites." Nascido em 1928, não se lembra de ver flores de papel quando era pequenino. Ou, se havia, eram muito poucas. "Os meus pais não faziam flores, faziam umas bandeirolas, umas franjas, não havia disto. As festas tiveram uma grande transição a partir de 1964-65. Até aí eram quatro dias e só para nós. Dos campo-maiorenses para os campomaiorenses. A partir daí passou a ser oito dias e a vir gente de fora." Uma das piores recordações que tem é a do ano de 1972, "quando veio uma trovoada e arrasou tudo. Foi terrível, até me custa a pensar nisso." Certo é que, segundo outro membro da associação, Nuno Travassos, "é raro o ano que não chove, andamos sempre com o coração pequenino".

Tanto mais pequeno quanto o investimento não é só em trabalho - e que trabalheira: só na rua de Vitória fizeram-se seis mil flores entre sete ou oito pessoas. Vinte e três toneladas de papel, três toneladas de cartão, cola, arame, fita cola, pregos, parafusos. Entre 350 e 400 mil euros empatados em flores e ramos coloridos que uma tromba de água pode destruir em cinco minutos, deitando a perder também a perspectiva dos comerciantes vindos para a feira que em parte - a outra parte vem da autarquia e de mecenas como a Delta Cafés de Rui Nabeiro - financia o evento em que se aguarda a participação de um milhão de pessoas. "Só no primeiro dia esperamos 200 mil", assegura José Celestino, que só à sua conta já tem 180 autocarros alugados.

Outro mistério destas festas é a da sua ocorrência. Nos últimos 20 anos acontecem em 1995, 1998, 2000, 2004 e agora em 2011. Quem decide quando têm lugar? "É quando o povo quer porque dá muito trabalho", certifica Nuno Travassos, designado pela associação para o trabalho de comunicação. Mas como é que se descobre se o povo quer? Este ano, diz José Celestino, aconteceu por causa dele. "Vou-lhe contar como foi. O Presidente da Câmara, Rui Pinheiro, chamou-me em Agosto do ano passado para perguntar se eu achava que se podiam fazer festas em 2011 e eu disse que achava que sim mas que era preciso fazer uma máquina para cortar as resmas de papel, é que não tá bem o ver o que é cortar seis mil resmas de papel. E lá arranjaram a máquina. É que antigamente fazia-se tudo à mão mas só se fazia uma quarta parte das flores. E cada vez menos gente quer trabalhar de graça, querem receber, está a ver? Há muita gente ainda a trabalhar voluntariamente, mas é nada do que era antigamente."

Admite que grande parte do trabalho é feito por mulheres, mas orgulha-se de também fazer flores. "Nem sei quando fiz a primeira, já não me lembro. Estou aqui na loja e nos tempos mortos vou fazendo, embora a maioria dos homens só faça aquele trabalho mais pesado de pôr os paus que suportam os tectos das ruas." Chamam a isso "enramar" as ruas, um trabalho iniciado ontem de manhã e que se prolonga um dia inteiro, depois de a autarquia determinar a proibição de circulação automóvel para que a terra acorde florida, linda e colorida como a imaginaram, imagem de "toda a alma de um povo", diz Celestino, arrebatado. "Quem não gosta não tem gosto. Ninguém faz festas destas."

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