A celebrar o vinil desde 1998

O proprietário da Discolecção, Vítor Nunes, é, há quase 13 anos de actividade constante, o rosto de uma das lojas de referência do coleccionismo do vinil em Portugal.

De amante da música a comerciante de discos de colecção foi um salto. Vítor Nunes, que nascido nos anos 60 em Campo de Ourique (Lisboa) e criado na década de 70 a ouvir o então emergente hard rock de uma era antes do heavy metal, é hoje o rosto de uma das lojas de referência do coleccionismo de discos lisboeta (e quiçá português), a Discolecção (na Calçada do Duque, em Lisboa), que se estende da música popular às áreas do jazz e da clássica.

"Os discos custavam um balúrdio", começa Vítor Nunes, a propósito da forma como viveu o gosto de ouvir a música enquanto jovem: "Por causa dos preços (os discos custavam cerca de 200 escudos), a partir dos 14 anos passei a juntar- -me com amigos, da minha idade ou pouco mais velhos do que eu, para ouvir música e comentar os discos que iam aparecendo."

Num tempo em que, principalmente antes do 25 de Abril, o mercado discográfico em Portugal era algo parco em edições, principalmente em relação aos mercados estrangeiros, estas "tertúlias" serviram-lhe, para além de passatempo, também de educação musical.

"Na altura não fazia a mínima ideia de que ia fazer da venda de discos a minha vida", declara o lojista que, apesar de ser dono de um estabelecimento emblemático no mercado de coleccionismo musical português, não se considera a si próprio "um verdadeiro coleccionador".

"O coleccionador à séria é aquele que colecciona discografias de bandas ou de artistas", explica, "é alguém que para além de ter, por exemplo, as primeiras edições de todos os álbuns dos Pink Floyd vai também à procura de edições com capas alternativas e de edições regionais", conclui.

E Vítor Nunes, o melómano e comerciante, é o quê? "Sou só alguém que gosta de discos", responde, dizendo que o seu interesse se dirige mais para o conteúdo dos discos do que propriamente para o artefacto físico, embora a edição em vinil (objecto em que se centra a actividade da Discolecção) tenha para si um apelo em especial.

"O vinil tem uma vantagem que mais nenhuma forma de ouvir música tem, que é o apelo visual da capa", começa, apontando para um dos discos expostos, "a capa do vinil dá mais espaço para o artista gráfico trabalhar a edição, para que o ouvinte possa ver o disco, para além de o ouvir. Num CD, por exemplo, não há esse espaço, por defeito do próprio tamanho do objecto."

O interesse pelo coleccionismo surgiu- -lhe em meados dos anos 90. "A vida de um vendedor é como a de um jogador de futebol. Mais dez anos menos dez anos e o negócio começa a desaparecer", brinca.

Foi para estudar outras possibilidades então que Vítor Nunes começou, meio por brincadeira, a vender discos, uma vez por semana, na Feira da Ladra (Lisboa): "Já comprava discos há muitos anos, obviamente, mas foi quando comecei a vender discos que comecei a perceber o que as pessoas procuravam, e os valores regulares que se praticavam no mercado. Não era propriamente com o objectivo de um dia ter uma loja, era mais por divertimento, até porque aos sábados se juntava lá uma tertúlia de pessoas que compravam discos e falavam de música."

A entrada oficial no mundo do coleccionismo dá-se em 1998, com a fundação da Discolecção por José Gamito, que dividiu a propriedade da loja com Vítor Nunes até à sua morte.

"O dr. Gamito, que era advogado, é que fundou a Discolecção", conta Vítor Nunes, "na altura, nos anos 90, era muito difícil encontrar discos raros. Havia a Carbono, mais um ou outro sítio, mas era muito difícil. Um dia, um amigo meu falou- -me na Discolecção e eu comecei a ir lá comprar discos."

No entanto, isso foi só o começo da história: "O dr. Gamito, a dada altura, propôs-me uma sociedade, que eu aceitei meio a brincar", continua, "mas como ele era advogado e a actividade dele não lhe deixava muito tempo para gerir a loja, acabei por ser eu a gerir o dia-a-dia do estabelecimento."

Desde então, Vítor Nunes tem exercido uma actividade contínua, tanto a adquirir discos de coleccionadores privados como a frequentar feiras de coleccionismo internacionais, num mercado onde, por definição, há um conjunto finito de comodidades.

"Um coleccionador nunca pára", diz Vítor Nunes, "se alguém já tem todos os principais álbuns, imagine-se, do rock italiano dos anos 70, então vai começar à procura de discos portugueses da mesma era."

Com um ênfase claro na música dos anos 60 e 70, ou não fosse essa a música que o proprietário melhor conhece, a Discolecção, na pessoa de Vítor Nunes, continua há mais de dez anos a escavar diamantes perdidos no mercado do vinil.

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