Nova vida à beira-Sado

A pouco mais de meia hora de Lisboa, Setúbal afirma-se como um destino por direito próprio. Emoldurada pela serra, o mar e um imenso estuário, é hoje uma cidade vibrante e renovada, com muito para oferecer e ainda tanto por descobrir.

É fim da tarde e, desde a varanda panorâmica do Roof 61, o imen­so espelho de água do estuário do Sado apresenta-se numa ex­plosão de cores rara nesta altu­ra do ano, com as tonalidades laranjas do sol-posto a misturarem-se com o azul do mar e o verde-vivo das encostas da Arrábida.

Aberto há pouco mais de um mês, no to­po do edifício do Fórum Luísa Todi, este bar é o perfeito exemplo de como, em Setúbal, o velho se tem tornado novo, aproveitando o que de melhor a cidade tem para oferecer, seja isso a praia, a natureza, a história ou as tradições - em especial as da mesa.

«Fazia falta um local assim na cidade, para se beber um copo depois do trabalho ou a se­guir ao jantar, onde dê para estar à conversa e relaxar», explica Pedro Gaiveu, um dos sócios, que transformou a velha cafetaria ali existen­te num dos símbolos da renovada cidade de Setúbal - como já havia feito antes na Taber­na do Largo. Uma taberna, como o nome indi­ca, situada num largo, neste caso no da Ribei­ra Velha, em pleno centro histórico da cidade.

«Nesta casa de taberneiros bebe-se vi­nho, joga-se à sueca e torce-se pelo Vitória», se em jeito de aviso, logo à entrada. O Vi­tória é o clube da terra, que por aqui é assim simplesmente chamado, apenas pelo pri­meiro nome.

Presa a uma das paredes, como se fosse um quadro, uma velha mesa de matraquilhos re­corda a quem chega um dos momentos mais altos da história do clube, a conquista da Ta­ça de Portugal frente à Académica, em 1967. «Adoro este largo. Quando um dia abrisse um negócio meu, teria de ser aqui», afirma Pedro, que depois de mais de uma década a traba­lhar na noite sadina concretizou há dois anos o «sonho antigo» de abrir uma casa de comi­das com uma «nova interpretação» das anti­gas tabernas da cidade.

Entre as especialidades da casa destacam-se, por exemplo, o chouriço de porco preto as­sado e salteado com picles, as cavalas em es­cabeche de pimentos e redução de balsâmi­co (num homenagem ao passado conserveiro de Setúbal), a posta à taberna ou o tradicional choco frito à setubalense, aqui servido em ti­ras fininhas, num cartuxo de papel.


Tradição e modernidade

Um dos melhores locais para partir à desco­berta da nova cidade de Setúbal é a Casa da Baía, um projeto da câmara local, que trans­formou este edifício histórico do século XVIII, originalmente uma casa de recolhimento pa­ra freiras da ordem de Nossa Senhora da So­ledade, num centro de promoção da região. Além de informação sobre os mais variados promotores turísticos, o espaço conta com uma galeria de exposições, uma loja de vi­nhos onde estão representados mais de três dezenas de produtores da região e uma loja-cafetaria na qual podem ser saboreados os queijos e a doçaria tradicional do concelho.

A autarquia tem sido, aliás, uma das grandes impulsionadoras da renovação dos espaços históricos do concelho. É o caso do renovado Convento de Jesus, um dos primeiros exemplos do estilo manuelino, constru­ído no século xvi por iniciativa de Justa Ro­drigues Pereira, ama-de-leite do rei D. Ma­nuel. Monumento Nacional desde 1910, aqui funciona também, desde o início dos anos 1960, o Museu de Setúbal, também ele re­centemente renovado, num arrojado proje­to do arquiteto Carrilho da Graça.

Também de visita obrigatória é o anti­go edifício do Banco de Portugal, onde hoje está instalada a Galeria Municipal e está ex­posto um dos maiores tesouros da cidade: os 14 painéis do Retábulo da Igreja de Jesus, co­nhecidos por «Primitivos de Setúbal» e con­siderados um dos conjuntos mais represen­tativos do período renascentista português.

Outro exemplo desta política é o Moinho da Mourisca, um centro de interpretação da natureza situado em plano coração da Rerva Natural do Estuário do Sado. Original­mente construído no século xviii, na Herda­de da Mourisca, é um dos quatro moinhos de maré existentes no estuário. Foi recuperado, aberto ao público e, hoje, funciona como por­ta de entrada para este imenso e para muitos quase desconhecido território, que por esta altura do ano se revela um verdadeiro para­íso para os observadores de aves.

O património natural é outra das rique­zas do concelho de Setúbal, que conta ainda no seu território com o Parque Natural da Ar­rábida. É aqui, entre as serras da Arrábida e de São Luís, que fica situada a Casa Palmela, uma casa senhorial do século XVIII recente­mente transformada num luxuoso hotel de charme. Ao todo são 20 quartos, distribuídos por três edifícios - Palácio, Casa da Piscina e Casa no Campo - que permitem usufruir de uma propriedade de cerca de 70 hecta­res, num conceito que alia «natureza, con­forto e luxo», como explica o diretor, Salva­dor Holstein.

Há, no entanto, coisas que nunca mudam. Basta entrar manhã bem cedo no Mercado do Livramento, recentemente considera­do pelo jornal americano USA Today «um dos melhores mercados do mundo», para o perceber. Os jornalistas terão certamen­te ficado impressionados pelas bancas de peixe, cuja frescura continua a atrair ver­dadeiras multidões aos muitos restauran­tes da cidade. Uma tradição iniciada há 42 anos por João Belezas, no restaurante Verde e Branco, cujo nome é, claro está, uma ho­menagem ao Vitória.

«Antes só havia as tabernas, onde os pes­cadores assavam o peixe em fogueiras. Foi o meu sogro que decidiu abrir um restaurante de peixe. Inicialmente as pessoas estranha­ram, mas hoje é uma tradição da terra», re­corda Alberto Jorge, que com a mulher, São, e a cunhada Dina está hoje à frente da casa. A receita é simples: só se serve peixe, sempre do dia, apenas acompanhado de salada e ba­tatas. É o próprio Alberto, que também já foi pescador, bem como jogador profissional de futebol (do Vitória, claro está), quem o compra todos os dias bem cedo, na lota ou a amigos.


Evasões recomenda

Dormir

Casa Palmela
Quinta do Esteval, EN 10, km 33,5
Tel.: 265249650
Web: www.ouh.pt
Preço: quarto duplo a partir de 180 euros, com pequeno-almoço.

Comer

Restaurante Verde e Branco
Rua Maria Baptista, 33
Tel: 265526546
Das 12h às 15h30. Encerra à segunda.
Preço médio: 17,5 euros.

Pérola da Mourisca
Rua Baía do Sado, 9, Mourisca do Sado Tel.: 265793689
Das 12h30 às 15h30 e das 19h às 22h30. Encerra à terça-feira.
Preço médio: 20 euros.

Taberna do Largo da Ribeira Velha
Largo Dr. Francisco Soveral, 25 Tel: 265526113
Web: www.tabernadolargo.pt
Das 10h00 às 02h00 de segunda a sexta e das 16h00 às 02h00 ao sábado. Encerra ao domingo.
Preço médio: 15 euros.

Casa do Mar
Avenida José Mourinho, 74 Tel.: 265409477
Web: Facebook: Casa do Mar
Das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30. Encerra à segunda.
Preço médio: 25 eur

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