As muitas camadas da terra de Viriato

A capital do Dão é uma terra cheia de camadas e dela se tira mais partido se lá formos com a disposição de as desfrutar. Dentro e fora do centro histórico, há histórias e lugares a descobrir e pessoas que procuram criar ali uma experiência em jeito de degustação.

Chega-se a Viseu e sobem-se as ruelas empredradas até à Praça Dom Duarte e ao Adro da Sé, dá-se ali um par de voltas e almo­ça-se, porque se há algo que sa­bemos é que ali se come bem. E está visto. Estará? É provável que deste modo descomprometido não alcance muito daqui­lo que se pode viver em Viseu. Ela merece ser saboreada em jeito de degustação, e é isso que pessoas como Pedro Sobral e Fátima Costa têm procurado demonstrar, criando outras formas de conhecer, sentir e estar na terra de Viriato.

Ao fim de alguns anos a colecionar his­tórias dos lugares de Viseu, o casal, ele ar­queólogo e ela historiadora, entendeu ser altura de criar uma oferta de turismo cul­tural à medida. E são eles mesmos, na em­presa NEVERENDING, que conduzem os visitantes por seis city breaks cuja du­ração - duas horas - encaixa bem num dia de passeio. Uma das visitas chama--se «De Vissaium a Viseu» e percorre quin­ze lugares, entre eles tesouros arqueológicos, que mostram como Viseu foi mudando desde o século iii a.C. Mas há também uma ronda pe­las igrejas e pela arte sacra, pela Sé Catedral e ainda uma viagem ao tempo dos muçulma­nos. Fátima e Pedro abriram também uma lo­ja de recordações e um apartamento turístico.

E se chegar ao centro para fazer estes pas­seios é fácil, já saber onde fica Silgueiros re­quer usar o GPS. Contudo, o trânsito na estra­da que serpenteia até àquela freguesia tem si­do em grande parte feito de forasteiros que vão ali, de propósito, jantar ao MESA DE LEMOS. Tra­ta-se de uma aposta do empresário Celso de Lemos, criador de uma marca têxtil de luxo e fama mundial, que investiu em vinhos e gas­tronomia de alta gama na sua terra natal. Co­manda a cozinha o jovem chef Diogo Rocha, natural de Canas de Senhorim, que escolheu construir carreira no lugar onde nasceu.

É um homem de sorriso aberto, que enca­ra com humildade o sucesso da sua cozinha de autor, na qual mistura as origens com algumas paixões, como a horticultura tradicional da re­gião e a gastronomia açoriana. «Sempre se dis­se que se comia muito bem em Viseu, mas ha­via alguma dificuldade em personalizar isso. Não se fala dos chefs de cozinha», declara Dio­go, que há alguns meses começou também a abrir o Mesa de Lemos de terça a sábado, quan­do antes servia apenas ao fim de semana.

Para ele, a consagração é apenas consequência na­tural de se cuidar daquilo que já existe: «Sou um crente nesta região e nas suas pessoas.» É de es­perar que com ele concordem Arthur Ferreira, dono da TASQUINHA DA SÉ, e o casal que abriu o restaurante Dux Palace, o chef Luís Almeida e a mulher, chefe de sala, Vanessa Santos, junta­mente com o escanção Luís Moura. Nestas ca­sas, ambas ainda nos seus primeiros dois anos de existência, trata-se o vinho, com primazia para o Dão, com grande respeito.

Na primeira, no centro histórico, encontra-se um ambiente justo ao nome: sala pequena, onde ao almoço há pratos caseiros e, ao jantar, uma toada de petis­cos, pela mão de uma cozinheira que se profis­sionalizou na melhor das experiências - pre­encher durante muitos anos a mesa de filhos e netos até o genro Arthur a resgatar para sócia.

A cada prato de Isilda Costa, Arthur faz cor­responder um vinho, sabendo, além de o ca­sar com os sabores, contar a respetiva história - o que não é pouco, tratando-se de uma car­ta com cerca de duzentas referências. E pró­ximo do Rossio, o DUX PALACE, em estilo mais contemporâneo, assume-se como restauran­te vínico. Da cozinha saem os imperdíveis pe­tiscos de Luís que, na mesa, vão harmonizar com vinhos de uma carta que, ao longo do ano, vai representando todos os produtores do Dão.

E, embora de copos de vinho ali não se possa esperar muito, dada a singeleza do bar, pode-se contar no CARMO81 com algo que, até há pouco mais de um ano, não existia em Vi­seu. Assim como abrir-se a boca de espanto ao deparar, no pátio das traseiras, com uma das mais impressionantes intervenções artísticas da cidade: o focinho de um lince feito de pe­ças de automóveis, obra do artista Bordalo II.

De resto, só é de esperar passar-se bem o tempo naquela antiga oficina de mo­tores de rega que passou a ser bar, galeria de artes invulgares, cinemateca alternativa, sa­la de concertos e espaço para conviver com gente de muitas origens, gostos e visões ar­tísticas, como são os seus fundadores. O Car­mo81 nasceu da cooperativa que organizou o festival de cinema Shortcutz e passou a ser a sua sede, mas há sempre alguma coisa para fa­zer, ver ou apreciar naquele espaço que man­teve os seus genes oficinais.

E quem ficar de barriga cheia de tudo isto, mas ainda lhe couber mais um bocadinho de Viseu na alma, não deve sair sem ir dar os pa­rabéns ao MUSEU NACIONAL GRÃO VASCO, que está ainda a celebrar o seu centenário. Além de conhecer a obra e a história de Vasco Fer­nandes (1475-1542), considerado o principal pintor quinhentista português, pode-se apre­ciar uma exposição que revela a sua influên­cia noutros artistas.

Chama-se Além de Grão Vasco. Do Douro ao Mondego: A Pintura entre o Renascimen­to e a Contra-Reforma e está patente até 5 de março. E ainda fica a saber, na visita a este im­prescindível museu para todos os curiosos, co­mo Viseu foi um autêntico caldeirão artístico renascentista. Mais uma faceta para degustar nesta cidade cheia de surpresas.


FICAR, COM AMOR

Esta guesthouse é um dos mais recentes lugares para ficar em Viseu, tendo surgi­do para criar uma alternativa à hotelaria tradicional, como investimento do casal Maria João Melo e Joel Faria. Engenhei­ros civis ligados à decoração de interiores, viram na casa senhorial devoluta, bem central, no Jardim das Mães, uma opor­tunidade de render as suas artes, mas o interior estava tão degradado que a me­lhor opção seria demolir.

Diante do re­sultado, aprecia-se que tenham seguido o caminho mais difícil de aproveitar tudo quanto podiam, mesmo quando isso im­plicou muita luta. É por isso que se pode subir por uma bonita escadaria de madei­ra, ver paredes forradas com tijolo de bur­ro e partes do antigos tabiques e alguma pedra. Neste prédio encantador, há ago­ra sete apartamentos para turistas, que funcionam de forma independente, deco­rados para agradar à vista e proporcionar conforto, com cozinhas modernas, aque­cimento e muita luz natural.

LOFT GUESTHOUSE JARDIM DAS MÃES
Rua Soar de Cima, 41
Tel: 919664126/966144878
Web: bemyguest.com.pt
Apartamentos a partir de 50 euros por noite

VENTURAS EM DUAS RODAS

É talvez um lado menos conhecido de Vi­seu, mas esta é uma excelente região pa­ra andar de bicicleta, tendo sido mesmo ali, na freguesia de Santos Evos, que foi inau­gurado em 2013 o primeiro circuito oficial de BTT - e esses Trilhos de Santo Ivo são uma espécie de Meca para os pratican­tes de BTT. São mais de 30 quilómetros de trilhos, em seis rotas, mais de metade de­las em floresta e com vista para a ribeira de Dornelas ou para o rio Sátão. O circuito está equipado com postos de lavagem, balneá­rios e parques de lazer. Ainda em Viseu, co­meçam (ou acabam) os 49 quilómetros da Ecopista do Dão, a mais comprida de Por­tugal, também bastante acessível para ca­minhantes ou ciclistas. E no concelho vizi­nho, Vouzela, está instalado um dos sete centros de BTT homologados pela Fede­ração Portuguesa de Ciclismo. A partir da vila, que fica a cerca de 30 quilómetros de Viseu, também se podem explorar 200 quilómetros de trilhos sinalizados, em se­te percursos, numa zona de montanhas em redor do vale de Lafões.

EVASÕES

COMER
MESA DE LEMOS
Silgueiros, Viseu
Tel: 961158503.
Web: celsodelemos.com
Das 20h00 às 00h00. Sábado, também das 12h00 às 15h00. Encerra ao domingo e à segunda.
Preço: menus desde 35 euros

DUX PALACE
Rua Paulo Emílio, 12
Tel: 963004817
Web: duxrestaurante.com
Das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00; sexta e sábado até às 00h00. Não encerra.
Preço médio: 25 euros

TASQUINHA DA SÉ
Rua Augusto Hilário, 60
Tel: 232463138
Web: facebook.com/tasquinhadase.
Das 12h00 às 16h00 e das 18h00 às 23h00; sexta e sábado até às 02h00. Encerra ao domingo.
Preço médio: 15 euros

VISITAR

MUSEU NACIONAL GRÃO VASCO
Adro da Sé. Tel.: 232422049
Das 10h00 às 18h00; terça a partir das 14h00. Encerra à segunda.
Entrada: 4 euros (gratuito ao domingo)
Neverending, turismo temático
Rua D. Duarte, 55-57. Tel: 232488594.
Web: neverending.pt
Visitas guiadas a partir de 8 euros.

SAIR

CARMO81
Rua do Carmo, 81.
Tel.: 232094366
Web: facebook.com/carmo81
Das 17h00 às 00h00; sábado das 15h00 às 02h00. Encerra ao domingo e à segunda.

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