Maria Nazaré zela pela comida que todos os dias alimenta quem menos tem

O refeitório dos Anjos serve centenas de refeições todos os dias para a população mais carenciada de Lisboa. Mas o trabalho ali desenvolvido vai além desse serviço público.

Faltam mais de 60 minutos para o refeitório dos Anjos abrir e já há pessoas à porta. É hora de ponta na cozinha. A equipa está a ultimar o bacalhau cozido com batatas e grão para este ser encaminhado para o piso superior, enquanto se trabalha já no jantar. A páginas tantas, Maria Nazaré Valoroso sai da cozinha com um prato para uma sala anexa. Não resistiu à iguaria? Nada disso. Em cada refeição há que guardar durante 72 horas uma amostragem para análise em caso de alguma contaminação. O que nunca aconteceu, garante.

Maria Nazaré é cozinheira de profissão, mas há muito que os tachos e as panelas são só para mexer em casa. No Centro de Apoio Social dos Anjos (CASA) há mais de dez anos, desempenha as funções de supervisora da cozinha, cujo serviço de refeições é gerido por uma empresa externa à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. "Quando chego vou à cozinha ver qual é a ementa do dia, as capitações, isto é se os pratos têm o peso considerável para aquilo que vem no caderno de encargos, ver se a alimentação está a ser bem confecionada, se a carne ou o peixe estão frescos, se as saladas estão temperadas, quantas pessoas estão na cozinha. Anoto tudo para depois participar", explica.

Aos 65 anos, Maria Nazaré está ciente da importância do seu trabalho de controlo de qualidade, bem como do serviço que o CASA proporciona. "Se não gostasse já me tinha reformado, este trabalho com os utentes é gratificante", garante.

No refeitório, o pão e os copos de plástico (desde o início da pandemia que o serviço de mesa é descartável) são arrumados no lugar próprio pelas ajudantes de cozinha. Maria Nazaré também dá uma mão. "Faço de tudo um bocadinho." A supervisora começou a trabalhar na Santa Casa como ajudante de cozinheira numa creche há 40 anos. "Quando a diretora nasceu já eu trabalhava na Santa Casa", nota. A diretora é Marta Oliveira, que já conhecia parte dos utentes enquanto assistente social a trabalhar no terreno.

"A maioria reside em albergues, alguns estão em quartos, em habitações sem condições suficientes, muitos não sabem cozinhar e precisam de vir comer porque esta comida está confecionada. Temos também pessoas que estão a dormir na rua e estamos a trabalhar no sentido de aceitarem respostas alternativas e que sejam de melhoria para as suas vidas. Mas todos são encaminhados após uma avaliação técnica que atesta a necessidade para poderem estar cá", diz Marta Oliveira. Essas avaliações são feitas pelo atendimento social numa unidade de emergência ou numa unidade de desenvolvimento e intervenção de proximidade da Santa Casa.

"Todos os dias do ano damos refeições - almoços e jantares - à população mais carenciada de Lisboa", diz a diretora, lembrando que nem o dever de recolhimento do estado de emergência parou a atividade do centro. Houve, sim, adaptações. A capacidade do refeitório foi reduzida para um terço, os utentes têm de guardar distâncias nas filas, usar máscaras, desinfetar as mãos com álcool gel e só entrar se não estiverem febris - procedimentos de segurança adotados como em tantos outros locais. E os 15 utentes do centro de acolhimento, pessoas que estão em situação mais frágil, deixaram de se juntar a quem vem da rua, e tomam as refeições numa outra sala.

O refeitório dos Anjos, como agora é mais conhecido, abre portas. Um agente da PSP e funcionários do CASA estão à porta para garantir que tudo corra pelo melhor. "Como todos nós, têm dias", comenta Maria Nazaré. "Mas é agradável falar com eles, há uma boa relação entre funcionários e utentes", conclui. Marta Oliveira lembra que não são poucos os casos de utentes com doenças do foro psiquiátrico ou com dependências, o que torna "mais reativo" este grupo de utentes. "O que pretendemos é irmos criando uma relação de proximidade e de empatia em que eles se deixem ajudar e que nós os possamos ajudar de alguma forma", afirma a diretora do CASA.

Na história daquele edifício muitos foram os nomes pelos quais o CASA foi conhecido: Cozinha Económica dos Anjos, Sopa do Sidónio [Pais], Sopa dos Pobres ou Sopa do Barroso. Mas se ocasionalmente recebeu uma secção de voto (nas eleições presidenciais de 1958) e esteve para albergar uma companhia de teatro (o Teatro do Mundo, no início dos anos 1980), o número 47 da Avenida Almirante Reis é mais do que um refeitório. Como já se referiu, há um centro de acolhimento e, além disso, um balneário, serviço de lavandaria, um ateliê com atividades ocupacionais e o acompanhamento psiquiátrico.

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