Correia de transmissão de inspiração e talento

Cátia Correia é um exemplo de perseverança e de inclusão no mercado de trabalho. Hoje é peça essencial na Valor T, uma iniciativa da Santa Casa que vai promover oportunidades de emprego aos cidadãos deficientes.

Quando concluiu o curso de assistente social, Cátia Correia passou um ano e meio à procura de trabalho. Não fosse a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e quem sabe se não estaria a engrossar os números do desemprego entre os jovens e os deficientes. É precisamente para fazer face às dificuldades de integração no mercado laboral das pessoas com deficiência que nasceu a Valor T, projeto em fase de materialização.

Há seis meses na Valor T, depois de ano e meio noutro projeto da SCML, Cátia é o exemplo acabado de quem pode fazer a diferença, apesar ou exatamente pelos obstáculos que tem de passar todos os dias.

A chegada ao mundo, através de um parto provocado, não correu bem: o cordão umbilical enrolado ao pescoço causou-lhe danos para o resto da vida. A paralisia cerebral manifesta-se ao nível da coordenação motora. "Claro que há dificuldades. Por exemplo, quando estou num sítio pela primeira vez não tenho controlo nas mãos e a refeição na escola ou no trabalho é complicada. De resto sempre me adaptei muito bem. Andei na escola regular com as adaptações devidas. Trabalho essencialmente ao computador, sempre tive tudo igual aos colegas sem ser o computador", explica.

Embora neste momento esteja em regime de teletrabalho a partir de casa em Sobral do Monte Agraço, quando Cátia Correia tem de se deslocar ao escritório em Lisboa tem pela frente uma viagem de mais de uma hora entre autocarro e metro.

"A Cátia é uma mais-valia ao estar nesta equipa, pela sua própria experiência de vida traz um conhecimento acrescido à equipa", comenta a diretora da Valor T, Vanda Nunes. "No caso é um projeto à empregabilidade às pessoas com deficiência, pelo que o seu próprio percurso, as suas próprias dificuldades e a forma como as tem ultrapassado são para nós verdadeiramente cada dia uma inspiração, uma força maior."

Em casa ou quando voltar ao escritório, Cátia Correia está a ajudar ao desenvolvimento da metodologia do projeto Valor T. "O que estamos a fazer neste momento é desenvolver uma plataforma que vai ser aberta ao público para congregar candidatos e empresas para conseguirmos proporcionar emprego às pessoas com deficiência", diz. No seu caso, o seu trabalho passa pelo levantamento do que já existe em Portugal sobre o assunto, conhecer o que está a ser feito e "ter essa visão global do país".

"É mais difícil entrar no mercado de trabalho também por algum desconhecimento do que é a deficiência e o que se pode fazer para adaptar, e é isso também que a Valor T quer transmitir aos empregadores", diz.

Dados de 2018 apontam para um número de desempregados com deficiência superior a 12 mil pessoas, número esse que deve ser superior graças à crise provocada pela pandemia, já para não falar das pessoas que não se inscrevem no centro de emprego.

"Nós somos pessoas que têm que viver como as outras, têm de comer, têm de trabalhar. Sim, há uma grande dependência de familiares, mas também porque para muitos não há essas oportunidades", diz Cátia Correia.

T de talento

Sobre o projeto em que Cátia está a trabalhar, a coordenadora da unidade de missão da Valor T levanta um pouco o véu. Vanda Nunes diz que acima de tudo a iniciativa tem como finalidade ser "uma agência de empregabilidade focada e dirigida para a pessoa com deficiência", no qual o "T" do nome se traduz "em talento e transformação".

No entanto, adverte, "não é um projeto focado na deficiência, é focado na oportunidade de todos termos um emprego". Ou, dito ainda de outra forma, não é proporcionar um emprego a uma pessoa por esta ser deficiente, é antes proporcionar a oportunidade para que a pessoa com deficiência "não deixe de ter emprego por ser deficiente".

Nesta fase de arranque, dificultada pela pandemia, a Valor T está em processo de contacto com empresas de dimensão maior, embora se dirijam a todas. "Nós podemos dar às diferentes empresas um acompanhamento que sabemos que é fundamental, não só para lhes podermos apresentar um perfil correspondente às suas necessidades e trabalhar esse perfil, mas também procurar perceber a linguagem e as necessidades que as empresas têm", o que inclui aconselhamento sobre benefícios fiscais.

"A deficiência é um mundo. Há diversas áreas de deficiência que exigem diferentes respostas. E o facto de a Santa Casa ter partido para este projeto é um contributo que queremos dar para que possamos olhar cada pessoa com as suas particularidades, não do ponto de vista assistencialista ou da deficiência, mas do talento e da capacidade que cada um tem", conclui.

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