Zé Pedro e Frederico, dois "irmãos" que alimentam a esperança de uma vida próxima do normal

O Centro de Capacitação D. Carlos I é a casa de seis (em breve sete) jovens com deficiência mental e tem por missão ajudá-los a ser autónomos e a encontrar um futuro. Abriu em março e desde então é aí que vivem Zé Pedro e Frederico, dois amigos-irmãos já inseparáveis.

No Parque de Campismo da Galé o sol está a pino, mas ninguém se queixa enquanto decorre o jogo de futebol que junta monitores e jovens apoiados nas diversas casas de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Este é um dos pontos altos do segundo de três dias de férias num acampamento que se realiza todos os anos. Entre os jogadores estão Frederico Vieira, de 17 anos, e José (ou Zé) Pedro Fortes, de 18. Os dois vivem desde março na casa do Centro de Capacitação D. Carlos I, em Lisboa, para jovens com doenças mentais. Frederico, mais desembaraçado, vem em socorro do irmão - como se tratam - para o ajudar a responder às questões. Abraçados, contam como está a ser o campismo e dormir na tenda que partilham. "Sou o primeiro a acordar para ir à casa de banho durante a noite", conta Zé. Frederico nunca tinha acampado e antes da partida revelou estar "ansioso e nervoso", mas depois de um dia e meio no meio da natureza já está rendido. A única queixa? Inclina uma mão sobre a outra para dar ideia da subida íngreme e explica: "A subida da praia que é mesmo a pique, tem uma montanha, depois outra e eu fico muito cansado. Já sou cansado de mim e depois ainda tenho a medicação."

Tanto Zé como Frederico chegaram ao Centro de Capacitação depois de terem passado por outras casas de acolhimento da Santa Casa. O jovem de 18 anos, que passou agora para o 10.º ano, vive desde os 8 em acolhimento. Sem a família biológica presente, os monitores são os tios e os colegas de casa os irmãos. A sua infância ficou marcada ainda por um internamento prolongado no Hospital Amadora-Sintra, que o faz estar ainda hoje muito atento a todas as referências a doenças e hospitais.
Confessa que gostava mais da casa onde estava antes, por estar "mais habituado", mas admite que já se sente mais confortável no novo espaço. Aguarda agora a definição do seu plano de futuro, que está a ser organizado pelo centro, tendo em conta também os desejos de cada um dos jovens que ali vive, refere o diretor, Ricardo Rodrigues.

Zé Pedro gostava de trabalhar na rádio, mas numa rádio muito específica - a Comercial -, que costuma ouvir. O seu sonho era "escolher as músicas" e nem se importava de fazer "as manhãs e a tarde" na antena. Mais calado do que Frederico, não se inibiu de mostrar o acampamento, onde gosta "do insuflável, da piscina e de fazer rapel".

Já Frederico, novato na arte de dormir no chão - "acordei com uma dor no ombro, nem sabia o que era, mas nunca tinha dormido no chão" -, gosta da praia, em particular do momento em que andou na mota de água dos nadadores salvadores com quem tiveram um curso de socorrista. "Subir para a prancha atrás da mota de água foi difícil porque o mar estava bravo, mas foi o que gostei mais."

O rapaz de 17 anos estava num colégio interno quando foi acolhido pela Santa Casa em situação de emergência. Dessa primeira instituição passou para uma casa de autonomia, antes de chegar ao centro de capacitação. Na nova casa já não tem de cozinhar como fazia na antiga. "Na outra casa fazia o meu comer e ia às compras todos os dias." Frederico ia também todos os dias sozinho para a escola (terminou o 9.º ano), por ter mais autonomia.

O jovem é um dos casos em que há contacto frequente com a família biológica. Visita a mãe, o pai e o irmão mais novo aos fins de semana, e aproveita para brincar com o irmão (que sofre de autismo) e fazer companhia à mãe enquanto esta prepara as refeições. "A cozinha não é muito grande e para não atrapalhar a minha mãe manda-me sentar. Gostava que ela me mostrasse mais como é que se faz a comida. Porque eu gosto muito de cozinhar arroz de cabidela, que o meu irmão gosta muito, e ela quer fazer as coisas em paz e nunca me mostrou como se faz." O sonho de Frederico é ser cozinheiro.

Apesar de saber que está longe dos pais para aprender a ser autónomo, Frederico confessa que preferia estar em casa. "Gosto de ir a casa da minha mãe porque é a minha família e gostava até de ficar sempre com a minha mãe."

Levar os jovens a assumir a sua vida de forma plena

A Casa da Capacitação é à vista de quem aqui entra uma casa como qualquer outra. Os espaços são os comuns a todas as casas: a sala, cozinha, casas de banho e os quartos, contando ainda com um pequeno terraço com vista para o rio. Cá dentro seis jovens (em breve sete) - todos retirados às famílias biológicas pelo tribunal - fazem a sua rotina do dia a dia, com o acompanhamento de quase o mesmo número de educadores. "Esta é a casa deles. E o nosso investimento é exatamente esse: dotar este espaço físico com a dimensão de uma casa à semelhança de qualquer casa das nossas famílias. Nesse sentido, o que se pretende é que os grupos sejam muito pequenos, em que o rácio técnico-criança seja muito próximo de um para um. É um trabalho que se pretende que tenha esta pequena escala para ser consequente na sua ação", descreve o diretor desta resposta social, Ricardo Rodrigues.

Sabendo que, pelo menos até aos 25 anos, estes jovens estão abrangidos pela lei que lhes permite ficar na casa, do lado dos técnicos não há "nenhuma pressa, nem nenhuma urgência" em que os jovens saiam da instituição. "A ideia é trabalhar de forma muito sólida e muito consistente em todos os degraus que estes jovens precisam de percorrer, até nós percebermos todos, eles próprios, as suas famílias, que eles estão capazes de assumir a sua vida de uma forma plena. Alguns serão capazes de o fazer, outros precisarão sempre de um serviço de retaguarda que os suporte nesse processo."

"É uma recompensa permanente"

Para chegar a essa fase, a equipa está agora a trabalhar na definição do futuro académico dos jovens, de acordo com as capacidades e limitações de cada um. "Os nossos jovens que aqui residem têm um perfil deficitário, ou seja, têm, do ponto de vista cognitivo, menos recursos comparativamente com a média." Ainda assim, os técnicos consideram que têm o potencial para poderem ser adultos autónomos, sublinha Ricardo Rodrigues.

Com uma carreira na pedopsiquiatria hospitalar antes de chegar à Santa Casa, o responsável do centro descreve ainda as maiores vitórias de quem trabalha com estes jovens. "A maior recompensa está muito associada ao nosso dia a dia e a nós percebermos que há diferenças que se vão verificando dia após dia. A maior recompensa será também poder pensar que estes jovens, tendo um percurso de vida tão difícil, tão marcado, tão pesado, comparativamente com a vida de qualquer um de nós, podem ainda alimentar a esperança, a expectativa de ter uma vida mais próxima do normal. Poder acompanhá-los em todo este percurso é uma recompensa permanente."

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