Marcha da Santa Casa, porque os sonhos não têm idade

A marcha sénior da Santa Casa participa pela segunda vez nas Marchas de Santo António. O percurso de três quilómetros até pode ser extraconcurso, mas nenhum dos 51 marchantes quer desiludir quem com eles preparou o desfile durante mais de dois meses. Nessa noite não há dores, o orgulho fala mais alto

Velhos e novos, todos em fila com arquinhos e balões ainda imaginários, ainda a ensaiar a letra e o sorriso. Na terça-feira, tudo será a sério. Ao todo, são 51 os marchantes da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que voltam a ser apadrinhados por Ricardo Carriço e Maria Botelho Moniz. A marcha extraconcurso que se estreou no ano passado volta neste ano a descer a Avenida da Liberdade para alegria do público, mas sobretudo dos seus participantes. Para muitos, o entusiasmo não é só no dia das marchas populares, mas estende-se a toda a preparação, que é o momento alto do ano.

É o caso de César Freire, de 59 anos. Experimentou no ano passado e agora diz que não quer outra coisa. Quando recebeu o convite para participar ainda pensou que se tratava das já habituais marchas do centro de dia que frequenta. Só depois percebeu que era a sério - a marcha da Santa Casa desfila extraconcurso. Passou no casting e agora já é um dos repetentes na descida da Avenida.

"É outro mundo." É assim que César começa por descrever a noite das marchas, acrescentando que uma das coisas que mais o surpreendeu em 2017 foi ver público ao longo de todo o percurso. "Como foi a primeira vez que entrou uma marcha sénior, era toda a gente - turistas, malta de Lisboa -, toda a gente queria tirar fotografias."

Uma experiência que Maria Aldora Quadrado, de 79 anos, vai viver pela primeira vez na terça-feira. Conta que a "convenceram" a entrar, depois de muito insistirem, porque frequenta a Academia no Espaço Santa Casa, no Campo de Santa Clara. Mas se ao princípio se fez difícil, Aldora já está rendida. "As pessoas amigas convenceram-me e cá estou. E gosto. Estou satisfeita."

Maria Aldora chegou mais tarde à marcha - veio porque faltava gente já os outros tinham começado os ensaios, o que faz que ainda não saiba todos os passos. Confessa que tem algum receio de descer a Avenida, porque ainda não está "assim muito perfeita nas coisas". Resta-lhe a confiança de que no tempo que ainda falta (assistimos aos ensaios a meio de maio), ainda consiga aprender tudo, certinho.

Manuela Farinha vai neste ano ter um aniversário diferente. Quando estiver a descer a Avenida e soar a meia-noite, vai celebrar os seus 73 anos, cheios de energia. Já foi assim no ano passado: à música da marcha seguiram-se os Parabéns. A experiência foi tão boa que Manuela garante que se sentia com energia para fazer mais três quilómetros, para lá dos percorridos na Avenida da Liberdade durante o desfile.

A energia chega e sobra talvez porque seguem à risca as instruções do ensaiador Paulo Jesus. Fazendo saber que o stress nunca foi seu familiar, o responsável admite que "eles ficam um bocadinho nervosos".

Hora de esquecer as dores

Ocupar as manhãs a ensaiar durante dois meses podia ser uma dor de cabeça para qualquer um, mas para o grupo que integra a marcha sénior é uma ótima oportunidade para conhecer pessoas diferentes e fugir da rotina.

César Freire é testemunha disso mesmo: "Metade das pessoas que estão cá agora são do ano passado e continuamos a falar por telefone ou via Facebook. E quando nos juntamos é uma alegria."

Dentro do pavilhão de Campolide, onde ensaiam, ouvem os comandos do ensaiador Paulo Jesus, que dá ordens para que todos sorriam - mesmo quem já "não tem dentes", sublinha o comandante desta marcha. Embora façam as paragens técnicas "para tomarem os comprimidos", como brinca Paulo Jesus, os marchantes garantem que não há dores ou problemas físicos na hora de representar a Santa Casa. "Aqui esquece-se isso, a gente vem para aqui e é uma alegria", garante César Freire.

O mesmo assegura Manuela Farinha: "Quando andamos ali não nos lembramos de mais nada, vamos só concentrados no que estamos a fazer." Rendida ao ambiente e às pessoas está também a estreante Aldora Quadrado. "Gosto do convívio e do ambiente. Gosto de tudo", acrescenta. Vir aos ensaios é, para a marchante, "um bocadinho bem passado", onde não entram "dores nem nada disso".

É essa boa disposição que Paulo Jesus nota no trabalho que faz nesta marcha. Como ensaiador da Santa Casa desde o primeiro ano, decidiu desta vez trabalhar em exclusivo, depois de uma década de experiência no concurso. Nos primeiros oito foi o responsável pela coreografia da Madragoa e no ano passado pela de Marvila, tarefa que conciliou com a Santa Casa.

Neste ano, Paulo Jesus quis apenas trabalhar com a Santa Casa, que lhe "dá uma vontade gigante de vir todos os dias de manhã trabalhar com estes meninos". E não esconde o orgulho de ver o esforço que os seus meninos fazem para estar presentes nos ensaios. "É um prazer gigante sentir que eles se levantam muito cedo para vir para aqui, às vezes muito cansados, mas cheios de vontade e isso para mim é uma alegria gigante."

Com uma vasta experiência neste mundo das marchas, Paulo Jesus não se surpreende por ver que eles não se queixam. "As marchas são uma questão de grupo, é a envolvência de todos."

Dos nervos ao espetáculo final

Em março, quando os futuros marchantes chegam para preparar a coreografia, Paulo Jesus encontra os seus bailarinos "um bocadinho nervosos". "Chegam a dizer: "Ai, não sei se vou conseguir", e têm imensa dificuldade durante o processo."

Um cenário bem diferente do que encontra no final, perto da véspera de Santo António. "Na Avenida da Liberdade, com o público ali a puxar por eles, sai-lhes das tripas. Vem mesmo de dentro tudo o que fazem. Até cantam alguns que não sabem a letra", elogia.

Era com essa ideia que Manuela Farinha vinha quando chegou à Marcha da Santa Casa. "Nunca pensei marchar, nunca pensei decorar as letras e as danças e não tinha muito jeito para cantar, mas lá vou fazendo o melhor que posso." Agora, diz que lá vai fazendo, embora sem garantias de qualidade: "Se é bem ou mal, não se percebe no meio da confusão", brinca. Mas não se pense que a boa disposição do ensaiador o impede de ser exigente. "Eles respeitam-me muito, mas às vezes, quando é preciso, sou um bocadinho ríspido." Embora a maior parte do tempo seja de "brincadeira", já que estes marchantes "são uma delícia".

Pelo menos são verdadeiros aficionados, mesmo que tenham chegado mais tarde ao sonho das marchas. César é um desses fãs, que na juventude já tinha pensado em ser marchante, sem que isso se tivesse concretizado. Até que a Santa Casa lhe realizou esse sonho: "Adorei."

"São quatro paragens e fazemos aquilo com uma perna às costas, como se costuma dizer." Apesar de até ter um problema no pé, garante que não há dores que apareçam nesse momento. Paixão tardia também descoberta por Manuela Farinha, que só espera que a Santa Casa continue com esta iniciativa que "ajuda as pessoas".

Iniciativa para realizar sonhos dos utentes

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entrou nas Marchas Populares no ano passado. Não estão a concurso, mas é uma oportunidade para os seus utentes realizarem o sonho de desfilar na Avenida da Liberdade. Todos os participantes sublinham o espírito de união e camaradagem que se vive, não só nos dias de desfile (no pavilhão e na Avenida da Liberdade), mas também durante os dois meses de ensaios. É mais uma das iniciativas da Santa Casa da Misericórdia para manter os seus utentes ativos e para que estes interajam. A propósito dos 520 anos da Santa Casa, o DN e a TSF publicam uma série de reportagens que dão a conhecer o trabalho da instituição nas suas diferentes vertentes: saúde, investigação, educação, reabilitação ou ação social. A série Pessoas e Causas começou em abril e termina em outubro.

Ler mais

Exclusivos