Esta marcha é diferente mas também é linda

Pelo segundo consecutivo, utentes e funcionários da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vão descer a Avenida da Liberdade durante o desfile das marchas de Santo António

Todos os dias há ensaios para a marcha da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Durante dois meses, utentes e funcionários encontram-se no Pavilhão de Campolide para treinar ao pormenor os passos e a coreografia organizada por Paulo Jesus.

"Tenho uma vontade gigante de vir todos os dias de manhã trabalhar com estes meninos que vocês viram - são os meus meninos. De facto é um prazer gigante sentir que eles se levantam muito cedo para virem para aqui e às vezes muito cansados mas cheios de vontade. Isso para mim é uma alegria gigante", conta o ensaiador.

Para alguns é o primeiro ano a marchar. É o caso de Maria Aldora Quadrado de 79 anos que, depois de muito recusar, agora conta as horas para o ensaio da marcha. "Pediram-me para vir para as marchas mas eu dizia sempre que não porque eu nunca andei nisto. Mas depois como faltava gente e as pessoas amigas a convencerem-me e cá estou. E estou muito satisfeita, gosto muito", admite.

Na hora do ensaio, não há dores nem angustias, não se pensa em mais nada. "Fica tudo esquecido, de modo que nem dores nem nada disso", confirma Maria Aldora Quadrado.

Já Manuela Farinha vai descer a Avenida da Liberdade pela segunda vez. Aos 72 anos descobriu uma nova forma de fazer amigos. "É bom para as pessoas já com uma certa idade terem esta atividade, a camaradagem, a amizade, novos conhecimentos, é bom para o cérebro".

Cézar Freire tomou o gosto pelas marchas no ano passado. "Aquilo é uma coisa à parte. Aquilo é um mundo". Aos 59 anos, garante que para o ano voltará a repetir a brincadeira. "Para o ano estou cá outra vez. Quem está fora da marcha não sabe o que é".

Depois de a marcha passar o contacto com os colegas fica. "Nós continuamos a falar, por telefone, pelo Facebook. E quando os juntamos é uma alegria", confessa Cézar Freire.

ÀS 52 pessoas que vão descer a Avenida da Liberdade na noite de Santo António juntam-se o ator Ricardo Carriço e a apresentadora Maria Botelho Moniz, padrinhos da marcha da SCML.

O ensaiador Paulo Jesus quer promover o melhor ambiente durante os ensaios para que os marchantes se sintam bem integrados. "Eu estou sempre a pedir boa disposição e a pedir para mostrar os dentes para eles terem momentos de distração", explica. António juntam-se o ator Ricardo Carriço e a apresentadora Maria Botelho Moniz, padrinhos da marcha.

É o segundo ano que a SCML participa no desfile das Marchas Populares de Lisboa mas o nervosismo já começa a dar sinais. O ensaiador conta que "eles ficam elétricos" porque é a primeira vez que muitos dos utentes participam numa marcha de Santo António. Paulo Jesus explica que há muito contacto direto com o público durante a descida da avenida. "Aí saí mesmo das tripas, vem mesmo de dentro. Até cantam alguns que não sabem a letra".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)