Cavalgar contra as diferenças até Tóquio 2020

Inês tem paralisia cerebral, Ana Luísa teve um AVC aos 7 anos. Para as duas jovens atletas, a equitação começou como terapia e acabou na competição. E treinam na Academia João Cardiga, para lutar por um lugar em Tóquio.

Apressada e muito animada, a chegada de Inês à Academia Equestre João Cardiga não deixa ninguém indiferente. A atleta de paradressage tem 25 anos e uma paixão enorme por este desporto, que começou como uma forma de terapia. Inês Alemão Teixeira tem uma paralisia cerebral, consequência da falta de oxigenação no cérebro após a nascença. "O meu tio é instrutor de equitação e levou-me um dia a experimentar. Entretanto, o meu médico disse que a hipoterapia era uma coisa muito boa para pessoas com paralisias cerebrais diversas e assim foi." Assim foi, experimentou e nasceu-lhe a paixão pelos cavalos e pela competição. "Já não é terapêutico", reconhece a atleta, que há um mês se estreou a representar Portugal no Campeonato do Mundo de Paradressage, nos EUA.

A ela junta-se a nova esperança que a academia quer lançar: Ana Luísa Berbari, uma jovem brasileira, recém-chegada a Portugal, que aos 19 anos sonha representar a equipa das quinas na alta competição. Ana Luísa Berbari também começou na hipoterapia, depois de ter sofrido um AVC com apenas 7 anos, mas depressa passou para o lado profissional deste desporto. "A partir da hipoterapia comecei a ver que adorava os cavalos, estar pertinho deles", recorda a estudante, que procura conseguir em breve a dupla nacionalidade para competir pelas cores lusas.

Inês e Lu (como é carinhosamente chamada na academia) representam o espírito da Academia Equestre João Cardiga, que procura levar uma equipa nacional aos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020. Para chegar lá, a campanha Cavalgar até Tóquio conta com o patrocínio dos Jogos Santa Casa, sem o qual, garante a presidente da direção, não teriam hipóteses. "Os patrocínios são o mais importante. Sem patrocinadores não conseguiríamos de forma nenhuma ter esta evolução, nem continuar a sonhar com novos atletas. Os Jogos Santa Casa têm uma importância de sustentabilidade e de continuidade para o projeto Cavalgar até Tóquio", explica Maria de Lurdes Cardiga.

Inês sonha levar o Giraldo até Tóquio

Inês tem uma irmã gémea, mas desde cedo os pais perceberam que ela era diferente. Falta de oxigenação no cérebro depois do nascimento fez que ficasse com paralisia cerebral. Mas a jovem nunca sentiu ser diferente. "Foi sempre muito fácil lidar com a doença", desde logo pela ajuda "incansável" da irmã, mas também porque os pais "nunca, mas nunca mesmo", a meteram "numa bolha" e a trataram como se fosse de cristal. Não fosse alguma dificuldade de locomoção, olhando para Inês ninguém daria por nada. Por isso, resume: "A vida desenrolou-se tal como noutra criança."

E como outras crianças, Inês encontrou a sua grande paixão: a equitação. A hipoterapia trouxe-lhe desenvolvimento muscular e físico e uma grande satisfação a nível psicológico.

Mais recentemente trouxe-lhe também os desafios da alta competição. "É muito desafiante psicologicamente, mas também é das melhores sensações e não largo o meu Giraldo por nada desta vida." O seu Giraldo - que descreve como "grande, preto, gordo, a maior paz de alma de sempre, não tem maldade nenhuma, tem uma cabeça que vale ouro" - é o seu cavalo, que encontrou há um ano.

Os cavalos para a paradressage têm de ser especiais, explica Maria de Lurdes Cardiga: "com um bom temperamento, como se diz na gíria, com uma boa cabeça, e depois com andamentos naturais (passo, trote e galope) acima da média". Ana Luísa, por exemplo, ainda está à procura do seu cavalo ideal.

Daí a felicidade de Inês por ter encontrado o seu Giraldo, que a acompanhou ao campeonato do mundo - uma estreia para os dois. "Foi uma experiência espetacular, nunca tinha vivido um evento com uma envergadura deste tamanho. O Giraldo era o mais novo em prova e parecia que fazia isto há anos."

Esperança do outro lado do Atlântico

Ana Luísa é mais recente na academia e por isso ainda não encontrou o seu Giraldo. É aliás um dos seus objetivos. Ela que veio da Hípica Paulista, em São Paulo, com indicação da Academia Equestre João Cardiga. E a dedicação é tanta, que Lu vem quatro dias por semana de Setúbal para Barcarena, onde é a academia. Um trajeto que demora quatro horas, entre ida e volta, feito de transportes públicos.

O esforço é feito enquanto não começa o curso superior de Ciências Sociais e Desenvolvimento Comunitário (Lu entrou na segunda fase), depois virá menos dias, e quando conseguir ter tempo para tirar a carta admite que o percurso ficará menos pesado, já que "muitas vezes nos transportes nem me cedem o lugar, porque não veem que tenho dificuldades".

O AVC que Ana Luísa sofreu ainda criança deixou-lhe marcas no braço e na perna esquerdos, mas que passam despercebidas ao primeiro olhar. Com um pai e tias ligados aos cavalos, Lu acabou por procurar na hipoterapia também um tratamento que melhorasse a sua condição física. Embora tenha notado verdadeiras melhorias no lado "psicológico".

"Tive um AVC aos 7 anos, é uma história bem impactante para as pessoas, porque tive muito nova. Os meus pais sempre procuraram médicos e alternativas para eu melhorar e aí eles encontraram a hipoterapia e eu percebi que adorava os cavalos." E embora só tenha competido duas vezes - ainda no Brasil -, Lu não vê a hora de o voltar a fazer, agora por Portugal. "Estou a preparar-me para o que vier, estou a trabalhar, vamos ver. Eu me dedico bastante e gosto bastante do que faço", diz, de forma modesta.

Levar todos juntos até aos Jogos

A Academia João Cardiga aposta forte na paradressage, até porque já tem tradição com a atleta Sara Duarte, que participou em dois Jogos Paralímpicos, mas nos próximos gostava de levar uma equipa que representasse o país, admite Maria de Lurdes Cardiga. Como? Marcando também presença nos Jogos Olímpicos. Porque, como Lurdes sublinha, a academia é "inclusiva" e treina todo o tipo de atletas.

De olhos postos em Tóquio, Inês pede apoio: "Vamos todos fazer força, Cardiga Paradressage Team. Queremos muito que nos abram a porta enquanto equipa."

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