Sódio, quando a alternativa ao lítio está à porta de casa

O VG Colab, em conjunto com a Simoldes, desenvolveu a primeira célula de ião de sódio made in Portugal, no que é o primeiro passo para o futuro das baterias.

DN

"É preciso pensar além do óbvio e tomar as rédeas do próprio destino". Foi com esta ideia que Adélio Mendes, professor da Faculdade de Engenharia do Porto (FEUP) e presidente do laboratório colaborativo Vasco da Gama Colab (VG Colab), iniciou e terminou a sua participação no Portugal Mobi Summit. Em vez de seguir rumos já trilhados ou modas ditadas por outros, melhor será criar as próprias soluções e olhar para os recursos que temos à porta quando investimos na procura de soluções mais sustentáveis e eficazes para armazenamento de energia.

"Há cerca de 120 anos Henry Ford disse: usemos a gasolina, que é líquida. Hoje discutimos como nos podemos livrar da gasolina. E daqui a uns anos estaremos a discutir a melhor forma de nos livrarmos do lítio, do cobalto e do níquel", vaticinou o investigador, sublinhando o grande impacto ambiental destes metais. Menos poluente, mais barato, mais seguro e com maior longevidade, o sódio apresenta-se cada vez mais como uma alternativa ao lítio no que toca à produção de baterias. E com a vantagem extra de existir em abundância na natureza.

O VG Colab e a Simoldes desenvolveram a que é a primeira célula de ião de sódio made in Portugal. "As baterias de sódio têm uma longevidade de 15 anos", lembrou Adélio Mendes para quem a combinação do lítio e do sódio poderá vir a criar baterias mais eficientes e mais sustentáveis, tanto em termos ambientais como de custo, com o sódio a funcionar como elemento protetor. Uma possibilidade que está a despertar interesse um pouco por todo o mundo. "Elon Musk quer ser o número 1 nas baterias de sódio e a CATL, a maior empresa chinesa de baterias, já anunciou ter interesse no sódio", recordou o presidente do VG Colab.

Ao abordar a questão do carregamento, Adélio Mendes sugeriu uma solução semelhante à dos trolleys e dos carros elétricos, que poderia ser aplicada a transportes públicos e permitiria aos veículos fazer o carregamento das baterias durante o percurso pela cidade. "Em vez de um autocarro que passeia pilhas e transporta alguns passageiros, teríamos um autocarro com pilhas que vai carregando ao longo do percurso", explicou.

Com o princípio de funcionamento semelhante às baterias de lítio, as baterias de sódio têm mais intensidade de potência. "Em termos absolutos, as baterias de lítio têm maior capacidade de armazenamento, mas a capacidade real depende das evoluções que foram feitas", lembrou o investigador.

Ao olhar para o futuro, além do recurso ao sódio, o presidente do VG Colab apontou ainda a possibilidade de se criarem baterias líquidas de ferro e enxofre e sublinhou a importância do metanol verde, como uma solução mais sustentável e mais rentável. "A discussão tem de ser feita sobre a energia e não sobre o substrato que a transporta", frisou o investigador para quem é importante pensar 'fora da caixa'. "O mundo é bem maior do que o imaginamos. Por vezes olhamos para soluções que outros já criaram em vez de criarmos as nossas próprias soluções", frisou, fazendo a analogia entre a exploração da rota das Índias, criada por Vasco da Gama, como alternativa mais rentável à antiga rota da seda. Mas para que a mudança aconteça, garante, "cidadãos visionários e corajosos são necessários".

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