Robles provou o veneno ao fim de 303 dias e renunciou ao cargo

"Uma opção privada, forçada por constrangimentos familiares" do vereador do BE complicou a vida política ao Bloco. Só os eleitos da moção R se opuseram à defesa de Robles pela direção

O sonho acabou ao fim de 303 dias: Ricardo Robles demitiu-se nesta segunda-feira, depois de ter conseguido ser eleito como vereador em Lisboa a 1 de outubro do ano passado, dez anos depois de José Sá Fernandes ter sido eleito pela última vez pelo partido. Para Ricardo Robles, aquele " grande resultado" significava a oportunidade de mudar as políticas da cidade, tanto mais que os socialistas com Fernando Medina tinham perdido a maioria absoluta na Câmara de Lisboa.

"Uma opção privada, forçada por constrangimentos familiares", como se defendeu Ricardo Robles, obrigou-o a renunciar ao cargo, depois de sexta-feira ter estalado a polémica da tentativa de venda por Robles e a sua irmã de um prédio, que adquiriram num leilão da Segurança Social por 347 mil euros, por 5,7 milhões de euros. Caía por terra todo o discurso que o vereador tinha sobre política de habitação para a cidade. E Robles deixava desarmado um partido que tem feito da luta contra os despejos, a especulação imobiliária e a gentrificação da cidade uma luta permanente.

Não há quem não se cruze, por estes dias, com cartazes do BE a proclamar "contra os despejos" e a defender outra política de habitação para as cidades. Robles tinha apostado forte neste tema na campanha e também quando negociou o acordo que acabou por assinar com os socialistas. Em 6 de outubro passado, o BE lisboeta (dirigido então pelo vereador eleito) dizia em comunicado que queria uma outra política de habitação, defendendo "a concretização de programas de habitação que protejam as famílias contra despejos abusivos e substituam a PPP [parceria público-privada] prevista por um programa de habitação integralmente público".

Estava apontada a linha de combate que iria fazer cair Robles com estrondo. Depois de o BE ter ensaiado uma primeira defesa do seu vereador, ao fim do dia de sexta-feira, com a comissão política do partido a dizer que "a conduta do vereador Ricardo Robles em nada diminui a sua legitimidade na defesa das políticas públicas que tem proposto e continuará a propor", depois de Catarina Martins ter defendido no sábado de manhã com unhas e dentes o comportamento de Robles e as suas justificações, preferindo justificar-se com o aparente incómodo de interesses imobiliários que estariam a ser postos em causa e com "notícias falsas", o bloquista lisboeta veio traçar o seu destino: a renúncia, decidida no domingo, quando a história continuava a alimentar novos episódios e ângulos, e o anúncio dessa renúncia nesta segunda-feira.

Só dois se opuseram à defesa de Robles e nenhum foi Fazenda

Aquele primeiro comunicado da Comissão Política do BE a defender Ricardo Robles só mereceu a contestação interna dos "eleitos da moção R", de acordo com um comunicado divulgado no Facebook e a minuta da reunião, como avançou o DN. Apenas Samuel Cardoso e Carlos Carujo (que substituiu Catarina Príncipe nessa reunião) votaram contra a posição da direção, apurou o DN.

Luís Fazenda, que surgiu nas páginas do jornal ia dizer que o Bloco tinha de "tirar conclusões" com este caso, não se opôs à defesa de Robles definida pela direção na sexta-feira à noite.

Aos negócios privados, somam-se as dores de cabeça públicas. Reunido nesta segunda-feira à noite para decidir o que fazer (quem substituía Robles e em que moldes), o BE escolheu Manuel Grilo, professor, sindicalista, que encaixa no perfil para vereador de Educação e Direitos Sociais, os pelouros que Robles detinha.

Fernando Medina já disse que o acordo em Lisboa é para manter e que o BE lhe demonstrou idêntica vontade.

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