Chambristas da Nazaré convertidas em alojamento local: "A gente agora tá legal!"

Dezenas de nazarenas continuam a ser cartão-de-visita na praia, mas já estão registadas nas plataformas online. Vivem também no Booking e no Airbnb e integram os 750 alojamentos registados na Nazaré.

Emília Robalo ajeita o lenço no alto da cabeça, atado à moda da Nazaré. Depois conserta o avental bordado, alisa a blusa de seda e ouve a conversa da amiga (e patroa) Nazaré Amada, com uma veraneante que anda à procura de casa: "Se quiser ainda tenho para a última quinzena. Mas são 1200 euros." A mulher diz que vai pensar, que é caro, que só estava a pensar gastar 600 euros na casa de férias. "Isso é uma semana!", sustenta Nazaré, enquanto procura na algibeira um cartão-de-visita para nos entregar.

Está ali tudo aquilo que representa: uma vista da praia da Nazaré a partir do Sítio, os números de telefone, a morada da casa pronta a alugar e o chavão publicitário que tornou célebres as chambristas como ela, que no entanto suprimiu a palavra em francês. O cartão indica "quartos-rooms- zimmer-habitaciones", além de apartamentos. "Os franceses agora são menos e também percebem o inglês. E a gente agora tá legal, eles já sabem!" Natália Amada carrega essa responsabilidade toda no nome há 68 anos, mais de 40 passados assim, em cada verão, como as outras mulheres da praia: sentada numa cadeira de plástico, à cata de turistas estrangeiros (e nacionais) que queiram alugar uma casa de férias na Nazaré. Os quartos que aluga, na Rua Adrião Batalha, que desemboca na marginal, "ficam a 120 euros o dia, com tudo: cozinha, sala, toalhas, é como se fosse no hotel", conta ao DN, num curto intervalo dessa tarefa que lhe consome o dia, entre as nove da manhã e as sete da tarde. Por perto está sempre Emília Robalo, companheira da vida toda nestas lides. Nazaré paga-lhe para que lhe faça companhia, naquelas jornadas de sol abrasador ou nevoeiro cerrado, como tantas vezes acontece neste verão atípico. "Neste mês não ganho para a empregada", queixa-se ao DN. Ela e todas as nazarenas que maldizem os dias frios, o tempo nublado que dominou junho e julho. "Ainda hoje choveu, menina. O que vale, mesmo assim, é que muita gente já tinha alugado alguma coisa, mas para o negócio de ocasião. Isto está muito mau", conclui.

Apesar do retrato assim pintado, por estes dias a Nazaré está à pinha. Que o digam os restaurantes, bares e geladarias, desde a praia ao Sítio. Nas ruas ouve-se falar muito espanhol e francês, a mostrar que afinal continuam a ser uma das nacionalidades que mais contribuem para os números crescentes do turismo na Nazaré. Na verdade, foram os franceses quem a descobriu primeiro, muito por contra do fotógrafo Paul Girol, que em finais dos anos 1960 se apaixonou pela vila, e da qual viria a ser, através das suas fotografias, um dos seus mais famosos embaixadores no estrangeiro.

De turistas a moradores, foi um passo. Muitos compraram casas nas redondezas, apartamentos na praia. E alugam também. As mulheres dos chambres denunciam essa concorrência, mas não baixam a guarda. Às vezes juntam-se em grupos de três e quatro, outras preferem fazê-lo sozinhas, exibindo a pequena placa de "alojamento particular". Foi um longo caminho percorrido até à transformação do negócio nesse registo legal, embora muitas continuem fora da lei. Não é o caso de Maria das Flores, 62 anos. Vende peixe o ano inteiro, e nos meses de julho e agosto aluga o rés-do-chão da sua casa de primeiro andar, para ajudar nas despesas do resto do ano. "Depois em setembro dou baixa da atividade", conta ao DN, enquanto desfaz a curva da rua da feira, à procura de clientes na avenida principal. Conforme a freguesia, os preços por quarto variam entre os 45 e os 50 euros por dia. É assim também na casa de Maria Gisélia, 72 anos. Vendeu peixe, foi proprietária de um restaurante e, já na reforma, esta é a ocupação que lhe resta.

Entre as centenas de nazarenas que alugam quartos e casas na praia há quem sempre tenha feito as coisas dentro da legalidade, como Rosa Poupada, 64 anos, que desde os 20 se dedica a esta função nos meses de julho e agosto. Foi emigrante no Canadá (onde reside uma parte importante da população nazarena emigrada), mas quando voltou à terra retomou esse hábito dos tempos de juventude. Na casa, junto ao cinema, aluga quartos a 40 euros por dia. Viver lá fora ajudou-a a saber falar inglês, ao contrário da maioria das companheiras. E também por isso recusa fazer "aquilo que muitas aqui já fazem, com a ajuda dos filhos, que é pôr as casas a alugar na internet".

Uma vez enquadradas no alojamento local, é comum encontrar os chambres-rooms-zimmer e habitaciones nas plataformas online. Muitas estão já no Booking ou registadas no Airbnb. Natália Estrelinha, 65 anos, não quer saber dessa modernice. Aluga os dois quartos que tem à moda antiga, como complemento da venda do peixe. Na Avenida Manuel Remígio, que atravessa a praia e a vila, é uma das presenças habituais no passeio.

Legalizar para rentabilizar

"Neste processo todo da requalificação urbana e do trabalho de comunicação da Nazaré lá fora foi muito importante a legalização. As chambristas perceberam que esse era o caminho mais fácil para faturar mais, para tornar o negócio mais rentável", diz ao DN Walter Chicharro, presidente da câmara municipal, orgulhosamente filho de chambrista. Acredita que "já não são tantas assim", embora reconheça que mesmo as que continuam a abordar os turistas na rua o fazem "de forma diferente em relação ao passado".

O autarca acredita que a presença de algumas delas na marginal pode funcionar como parte do cartão-de-visita da Nazaré, longe dos tempos em que abordavam os veraneantes em modo de venda agressiva. E ressalva que, com a transformação das casas em alojamento local, muitas alugam através da internet. Porém, não deixam de marcar presença na avenida. De acordo com o Registo Nacional de Turismo, atualmente a Nazaré conta com mais de 750 alojamentos locais, "parte deles provenientes das chambristas", acredita Walter Chicharro.

Desde que chegou à câmara, em 2013, o autarca tem incentivado essa transformação. Antes, porém, em 2008, as nazarenas viram o negócio ameaçado, quando a autarquia pretendia "conferir dignidade ao alojamento particular, acabando com as tabuletas de beira de estrada". A transformação acabaria por chegar, pela via do alojamento local, que cresce por todo o país, especialmente na Nazaré.

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