Ainda agora era ontem

Nuno Camarneiro

Durante os anos de faculdade fui um grande frequentador de cafés. Como todos os profissionais da arte, tinha um café e uma mesa preferida, onde me instalava a meio da tarde e ia folheando jornais, livros e cadernos. Estava a treinar para intelectual, pensava eu por outras palavras, e, se dúvidas houvesse, bastaria conferir os kafkas e os dostoievskis empilhados com criterioso desleixo.

Os cafés de agora não têm jovens como eu fui, os livros e os jornais foram trocados por portáteis e iPads, os putativos escritores são agora programadores e designers, trocaram as cervejas por cappuccini e até os cigarros têm bateria e luzinhas.

Não sei se estou antigo ou eles demasiado modernos, mas estes vinte anos parecem um século.