Premium 90% das urgências de obstetrícia têm falta de médicos

Como se nasce em Portugal? Já depois de denúncias de transferências de grávidas em trabalho de parto na MAC, o Amadora-Sintra teve problemas nas escalas na urgência de obstetrícia, que se estendem a alguns dos principais serviços do país, como mostra a Ordem dos Médicos.

Urgências de obstetrícia com apenas um médico e um interno; outras em que, em muitos períodos, os especialistas nem estão fisicamente e são chamados em caso de necessidade; ecografias que são encaminhadas para os centros de saúde por falta de profissionais nos hospitais; e escalas - muitas, de norte a sul - que são garantidas com o recurso a médicos tarefeiros, em muitos casos pagos a 50 euros à hora, mais do dobro do que ganha um profissional do quadro. Estas são as pinceladas largas que pintam os principais problemas de alguns dos maiores serviços do SNS encarregues pelos partos no país. Uma falta de recursos humanos que afeta 90% das urgências de obstetrícia e que pode fazer subir as taxas de cesarianas, alertam os peritos.

Obstetrícia é uma das especialidades que mais sofrem com o envelhecimento dos especialistas, reforçam os profissionais. O aviso recente em forma de carta de demissão dos chefes de equipa da Maternidade Alfredo da Costa (onde na semana passada foram abertas duas vagas para recém-especialistas) fazia o diagnóstico do que se passa em vários pontos do país: se na MAC, em 27 especialistas, um está de baixa e 20 têm mais de 50 anos - e, entre estes, sete têm mais de 55 e podem deixar de fazer urgências -, há hospitais em que essa percentagem é ainda maior.

Segundo fontes da área, na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, existem 17 obstetras, dos quais 80% têm idade superior a 55 anos. O elemento mais novo tem 42. A Daniel de Matos, do mesmo centro hospitalar, tem 27 obstetras, 17 dos quais com mais de 55 anos de idade. Cinco deles têm 50-54 e só cinco têm menos de 50 anos. No Algarve, situação idêntica:obstetrícia tem dez especialistas, dois deles de baixa, e apenas três têm menos de 55 anos; ginecologia tem também seis médicos acima dos 55 anos, num total de nove.

Mais de 50% dos especialistas de ginecologia e obstetrícia do SNS têm 55 ou mais anos.

A nível nacional, estima-se que mais de 50% dos especialistas de ginecologia e obstetrícia do SNS têm 55 ou mais anos, subindo esse valor para mais 60% se considerarmos os 50 ou mais anos de idade "O principal problema das urgências de obstetrícia é de recursos humanos. As equipas estão envelhecidas e frequentemente exaustas, designadamente em períodos de férias ou de doença de colegas", sublinha o presidente do colégio de ginecologia/obstetrícia da Ordem dos Médicos.

Serviços em pré-rutura

Uma falta de renovação de especialistas com consequências óbvias no número de profissionais a fazer urgências e a acompanhar grávidas. Se no início do mês a Ordem dos Médicos denunciou transferências da MAC para outros hospitais por falta de camas e profissionais, poucos dias depois, no sábado dia 14, o Amadora-Sintra terá tido apenas uma médica e um interno a trabalhar na urgência de obstetrícia, rácio muito abaixo do considerado seguro (os hospitais de apoio perinatal diferenciado com 1200 ou mais partos devem ter quatro elementos escalados, no mínimo com dois especialistas). Ao DN, o Hospital Prof. Dr. Fernando Fonseca reconhece que nem sempre consegue assegurar o normal funcionamento da urgência - "há uma enorme falta de obstetras a nível nacional" -, e nessas situações recorre aos serviços do São Francisco Xavier e de Santa Maria.

A questão é que também o maior hospital do país não vive dias de abundância nesta área. Profissionais do Santa Maria relatam ao DN situações em que não há obstetras presentes na urgência, sendo chamados em caso de necessidade. As mesmas fontes dizem ainda que a urgência de obstetrícia funciona apenas com um enfermeiro. O DN questionou o Centro Hospitalar Lisboa Norte, mas não obteve resposta.

Há muitos médicos velhos e muitos internos, não há a posta do meio, e não existe porque os especialistas não foram contratados.


Mas Luís Graça, antigo diretor de obstetrícia em Santa Maria e presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Maternofetal, adianta que o serviço teve de cortar uma equipa por falta de profissionais - "há dois anos, quando saí, eram oito, agora são sete"-, o que além de cansaço nos profissionais traz riscos para as grávidas. "Há muitos médicos velhos e muitos internos, não há a posta do meio, e não existe porque os especialistas não foram contratados, acabaram por ser absorvidos por PPP e privados, mas também por hospitais periféricos. A situação é má e só não é pior porque os especialistas com mais de 55 anos continuam a fazer urgências." No Santa Maria, segundo Luís Graça, faltam cinco ou seis especialistas. Só com a abertura do Beatriz Ângelo, há seis anos, saíram três, em cerca de 30, a que se terão juntado nos últimos meses sete enfermeiras que foram para centros de saúde.

Mas o presidente do colégio de ginecologia/obstetrícia garante, em entrevista ao DN, que as carências são generalizadas e que ​​​"as urgências de obstetrícia têm estado de uma forma geral em pré-rutura, com períodos de rutura, por falta de recursos humanos, designadamente nos últimos dois anos". João Bernardes detalha que cerca de 90% das equipas de urgência apresentam um défice permanente de recursos médicos, que se pode considerar ligeiro a moderado em 80% dos casos e grave nos restantes 10%, que equivale a uma redução de 30% a 40% do número recomendado.

50 euros por hora a tarefeiros

A solução para a pressão nas escalas das urgências em algumas zonas carenciadas passa pela prestação de serviços. Em muitos casos bastante acima do que preveem as regras. O Centro Hospitalar do Algarve contratou, só em quatro regularizações publicadas neste mês no portal Base, 5516 horas para trabalho nas urgências, que equivalem a um custo de cerca de 300 mil euros. O valor/hora é de 50 euros.

Mas não é caso único. Já neste ano, a Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano (Portalegre) assinou mais de uma dezena de prestações de serviços apenas na área da ginecologia/obstetrícia (35 euros à hora) e o recurso a tarefeiros estende-se de norte a sul, do Médio Ave ao Lisboa Central.

Outro problema identificado pela Ordem é o da excessiva dependência do trabalho de sistemas informáticos, muitas vezes desajustados, que obrigam os médicos a despender mais tempo com eles do que com as tarefas clínicas. "Igualmente desgastante é a pressão cada vez maior para atendimentos mais rápidos, com explicações mais longas a familiares e acompanhantes de grávidas e doentes, que se tornam muito difíceis de cumprir em cenários com equipas de urgências carenciadas", aponta João Bernardes.

Ecografias pedidas para o privado

Em Coimbra, relatam-se problemas no seguimento das grávidas. Numa decisão já deste ano, as terceiras ecografias de acompanhamento estão a ser encaminhadas para os centros de saúde, para serem depois feitas no setor convencionado, porque as maternidades não têm médicos suficientes. "As ecografias devem ser sempre feitas por médicos obstetras e não por radiologistas, e não se consegue garantir a qualidade dos exames feitos nas clínicas", critica Carla Silva, médica de família e dirigente sindical do Sindicato dos Médicos da Zona Centro (FNAM).

As terceiras ecografias de acompanhamento em Coimbra estão a ser encaminhadas para os centros de saúde.


Ainda no final da semana, a Ordem dos Médicos criticou a escassez de vagas para recém-especialistas em várias especialidades na região centro, entre as quais ginecologia/obstetrícia. Também neste caso, o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (que inclui a Bissaya Barreto e a Daniel de Matos) não respondeu às questões do DN.
Para Luís Graça, estes casos ilustram a incapacidade dos hospitais para assegurar a capacidade ecográfica. "Se forem executadas no setor convencionado por médicos obstetras, tudo bem, mas se forem feitas por radiologistas não pode ser, porque não se consegue assegurar a qualidade."

Cesarianas podem aumentar

Mas tudo dado e somado, coloca-se a questão: o país pode ver os seus indicadores nesta área afetados? "Sim", responde João Bernardes, "a taxa de cesarianas aumentará necessariamente se as equipas não estiverem dimensionadas para dar resposta em 15 minutos aos casos emergentes e em três horas aos casos urgentes, como recomenda a Direção-Geral da Saúde". Hospitais que apresentem valores de taxas de cesariana em trabalho de parto da ordem dos 20% poderão passar a ter valores entre 25 a 30%.

A Direção-Geral da Saúde não quis abordar o assunto, mas o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Maternofetal alerta para um maior risco de cesarianas. "A taxa está a aumentar paulatinamente nos hospitais do SNS porque os serviços têm menos meios para acompanhar as mulheres e a seguir a uma vem logo outra. Nós conseguimos reduzir a taxa de cesarianas no SNS - no privado, é outra conversa - nos últimos dez anos porque conseguimos ter uma assistência direta às grávidas durante todo o trabalho de parto."

No Santa Maria, por exemplo, a taxa de cesarianas nos primeiros quatro meses de 2018 ultrapassou os 30%, quando tinha terminado 2017 nos 25%. O Amadora-Sintra também está próximo dessa percentagem de partos cirúrgicos (29,3%), mas garante que até a reduziu em relação ao mesmo período do ano passado (tinha 34,6% nesta altura).

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