Notas do Japão (I)

Os próximos três textos não são textos, são notas, curtas notas de viagem. E notas de viagem verdadeiras, não com o pretensiosismo de quem discorre sobre os seus périplos de fim de dia em tom de romance, mas chama notas ou cadernos para parecer mais aventureiro. Estas vão ser notas até porque, e desde logo porque, são escritas na aplicação de notas do iPhone. Vim com três adolescentes para o Japão, numa intersecção cada vez mais curta de interesses mútuos, se excluirmos a América e funk brasileiro. Quatro já nadas e criadas, sobretudo uma delas, no mundo dessa coisa que invadiu o nosso quotidiano que é a manga. E não a manga fruta e a mousse de manga que são hoje mais portuguesas do que o pero e o leite-creme. A manga bonecada esbugalhada, anime que se diz animê.

Vim fazer de Peter Carey sem sequer ter lido o Peter Carey. Logo no avião, ao lado, um casal alemão faz honra a esta idade da gamificação e ele passa todo o tempo a jogar Candy Crush, compenetrado, sério. Isto depois de uma sessão de massagens nos pés dela ali mesmo no meu colo. E para evitar julgar um adulto que joga Candy Crush nem o xintoísmo dá ferramentas.

Andar de avião tem cada vez mais incómodos e menos cómodos, mas guarda sempre para o fim uma recompensa que é a de nos mostrar mais inteligentes do que os outros, quando a maralha se levanta assim que o bicho abranda; cada um de nós que fica sentado se pode sentir mais inteligente, de uma raça superior, mas sem culpa, porque a culpa é toda deles, dos que se levantam logo.

(O jet lag para leste é sempre mais forte, mas mais apropriado, o estado dissociativo muito adequado à realidade alternativa e ficcional do Oriente. Claro que depende sempre de quem olha e para onde olha, perdidos na tradução.)

Por falar em tradução, não foi fácil encontrar um romance japonês traduzido em português adequado para ler às minhas meninas durante a viagem. A mente, pelo menos literária, deste povo povoada por fetiche e taradice desadequada ao propósito. Veio, por sugestão amiga da I. o Kyoto do Kawabata, que parece não ter necrofilia nem incesto.

A viagem vai continuar para sul. Assim eram os planos, até ter ficado tudo inundado, linhas cortadas, populações retiradas. A senhora dos comboios disse que estava tudo bem, embora não me pareça que tenha percebido a pergunta. Melhor assim, ficam os leitores em suspense do que possa vir a contar este vosso Venceslau de Morais digital às voltas no Império do Cosplay.

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