Aconteceu em 1904 - Um mandarim entregue ao governo chinês

Num edição que dava grande destaque à guerra que se intensificava entre Japão e Rússia - com um longo texto enumerando três grandes perigos e explicando a razão de o serem: o Japão, as estradas públicas e os caminhos-de-ferro -, outra notícia curiosa merece menção.

Umas linhas abaixo e sem grande alarde, mas destaque suficiente para provar a sua importância, lia-se na edição deste dia 31 de gosto de 1904, no espaço destinado a noticiário variado: "Entrega de um mandarim ao governo chinês".

O DN explicava então, dando seguimento a uma notícia prévia, que "o governo chinês requerera ao nosso a entrega de um mandarim que, exercendo um importante cargo naquele império, abusara da sua posição". O seu crime? Ter-se apropriado de "fabulosas quantias" e que "para se subtrair a um justo castigo" fugira para Macau.

Agora, o jornal anunciava que o governo mandara instaurar um processo, tendo ficado provada a culpa "do mandarim, em virtude do que se resolveu pedir a sua interdição". Na notícia esclarecia-se ainda que o homem já fora entregue ao governo chinês, "sob a condição de não lhe ser aplicada a pena de morte".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

As miúdas têm notas melhores. E depois, o que acontece?

Nos rankings das escolas há um número que chama especialmente a atenção: as raparigas são melhores do que os rapazes em 13 das 16 disciplinas avaliadas. Ou seja, não há nenhum problema com as raparigas. O que é um alívio - porque a avaliar pelo percurso de vida das mulheres portuguesas, poder-se-ia pensar que sim, elas têm um problema. Apenas 7% atingem lugares de topo, executivos. Apenas 12% estão em conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa - o número cresce para uns míseros 14% em empresas do PSI20. Apenas 7,5% das presidências de câmara são mulheres.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Quando não podemos usar o argumento das trincheiras

A discussão pública das questões fraturantes (uso a expressão por comodidade; noutra oportunidade explicarei porque me parece equívoca) tende não só a ser apresentada como uma questão de progresso, como se de um lado estivesse o futuro e do outro o passado, mas também como uma questão de civilização, de ética, como se de um lado estivesse a razão e do outro a degenerescência, de tal forma que elas são analisadas quase em pacote, como se fosse inevitável ser a favor ou contra todas de uma vez. Nesse sentido, na discussão pública, elas aparecem como questões de fácil tomada de posição, por mais complexo que seja o assunto: em questões éticas, civilizacionais, quem pode ter dúvidas? Os termos dessa discussão vão ao ponto de se fazer juízos de valor sobre quem está do outro lado, ou sobre as pessoas com quem nos damos: como pode alguém dar-se com pessoas que não defendem aquilo, ou que estão contra isto? Isto vale para os dois lados e eu sou testemunha delas em várias ocasiões.