Dona Maria

Ao contrário do poema de Daniel Faria que abre o livro homónimo Homens Que São como Lugares Mal Situados, existem homens e mulheres que são como lugares bem situados, autênticos cruzamentos ou praças que todos conhecem e onde se concentra o "espírito do lugar" ou, se preferirmos, o seu caráter.

Todas as aldeias, todos os bairros e até os prédios têm alguém assim. Sabem sempre o que se passa, conhecem toda a gente e vão gerindo os fluxos de informação, com mais ou menos maledicência. Estes homens e mulheres bem situados guardam as histórias tristes, os atos de heroísmo e as vergonhas alheias, mas só as contam a quem lhes apetece, muitas vezes a troco de um café ou um bagacinho.

Aqui no bairro é a Dona Maria, uma velhota irrequieta que vejo sempre a sorrir. Dela não sei quase nada, mas desconfio que sabe tudo sobre mim.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.