Fé na América

Os portugueses são juntamente com os polacos os europeus que mais fortemente identificam os Estados Unidos como o grande ator geopolítico global, opinião partilhada por dois terços da população, segundo o relatório Transatlantic Trends 2022, agora divulgado. Portugal foi um dos 14 países inquiridos neste estudo do German Marshall Fund of the United States e da Bertelsmann Foundation, que contou com o apoio da FLAD. À pergunta sobre qual o mais influente ator nos assuntos internacionais, 67% dos inquiridos portugueses responderam os Estados Unidos, só abaixo dos inquiridos americanos (86%) e canadianos (68%) e em igualdade com os polacos. Nos restantes países europeus da NATO que participaram, esta identificação dos Estados Unidos como ator mais forte varia entre os 66% na Lituânia e os 56% em Itália.

Em termos médios, 64% dos inquiridos em 14 países (todos membros da NATO, incluindo fundadores, como o Reino Unido e a França, e até integrantes mais recentes da aliança, como a Roménia) consideram os Estados Unidos como dominantes na cena internacional, com 17% a apontarem a União Europeia, 13% a China e 6% a Rússia. Por comparação com o ano passado, há um reforço da posição americana (mais 2 pontos percentuais) e uma inversão das posições da União Europeia (mais 3 pontos percentuais) e da China (menos 7 pontos percentuais). A Rússia, por seu lado, ganha também um pouco de relevância (mais 2 pontos percentuais). Tendo em conta que o trabalho de campo deste ambicioso estudo decorreu entre finais de junho e inícios de julho, é evidente que a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro e a reação firme dos Estados Unidos e da União Europeia afetaram a perceção de poder. O decréscimo do número daqueles que identificam a China como o ator mais influente é explicável por causa das reticências do gigante asiático em tomar posição clara sobre a Ucrânia e também no próprio encerramento do país por causa da pandemia, com o presidente Xi Jinping a ter feito este mês a sua primeira viagem ao estrangeiro em mais de dois anos.

O relatório, que merece leitura ao pormenor, pois revela diferenças significativas de opinião entre países membros do mesmo bloco político-militar, confirma, no que diz respeito a Portugal, o tradicional atlantismo do país, um dos fundadores em 1949 da NATO, e a elevada percentagem daqueles que veem os Estados Unidos como a grande potência mundial é tanto mais relevante quando, entre os europeus, níveis semelhantes de identificação com os americanos, só entre os polacos e os lituanos, que olham para Washington como a proteção natural contra essa Moscovo que na era soviética (e antes) os tinha subjugados. Sermos também aqueles que menos valorizam o poderio russo (2%) explica-se pela distância, não havendo memória de guerras, ao contrário de polacos e lituanos, que além do longo historial de conflito com o gigante eurasiático, continuam a ser seus vizinhos.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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