E se Trump tiver de mostrar?

Stormy Daniels, uma atriz porno americana com quem o presidente Donald Trump teria tido um caso em 2006 e a quem, dez anos depois, ele mandou pagar 130 mil dólares para que ela não atrapalhasse sua corrida para a Casa Branca, acaba de publicar um livro de memórias. Este é o problema. As namoradas dos políticos americanos costumam ter tudo, menos amnésia. O livro se intitula Full Disclosure (Revelação Total) e ainda não foi lançado entre nós. Nele, Stormy recorda o que aconteceu entre ela e Trump e ainda descreve em minúcias a anatomia do homem. Segundo ela, Trump tem um pénis de tamanho abaixo da média, exceto pela cabeça - "enorme, como a de um cogumelo".

Bem, vejamos. Durante mais de 200 anos, os americanos foram ensinados a acreditar que seus presidentes eram homens não só justos, corretos e incapazes de mentir como também solidamente casados, fiéis às suas esposas e portadores de um pénis para fins exclusivamente urinários e reprodutivos. Eles viam essa castidade presidencial como uma prova da superioridade moral dos Estados Unidos em relação a nós, o resto do mundo - um bando de bandalhos comandados por governantes idem. De repente, a nudez desse presidente é exposta em público. E, o que é pior, nos menores - sem trocadilho - e maiores detalhes.

Não que os americanos já não tivessem, no passado, presidentes bandalhos. Tinham, claro, e os historiadores bem que sabiam, mas não contavam para ninguém. A diferença é que, agora, contam. Foi assim, por exemplo, que ficámos sabendo que George Washington (1789-1797) e Thomas Jefferson (1801-1809) iam para o catre com suas escravas negras e, de vez em quando, elas os premiavam com filhos - filhos estes que, apesar dos olhinhos azuis, eles não reconheciam como seus. Washington e Jefferson podiam ser os pais da pátria, mas não de toda a pátria.

Franklin Roosevelt (1933-1945), Dwight Eisenhower (1953-1960) e Lyndon Johnson (1963-1969) são outros que pareciam santos. Afinal, em seus mandatos como presidentes, os Estados Unidos estavam envolvidos em guerras gravíssimas - respetivamente, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e a Guerra do Vietname. Mas isso não os impediu de manter relações duradouras, estáveis e pacíficas, fora do casamento, com algumas de suas governadas.

Já com o maior conquistador de todos, John Kennedy (1961-1963), especialista nas estrelas de Hollywood, era exatamente o contrário. Suas relações com elas eram literalmente a jato, curtíssimas, rapidíssimas. Uma delas, com a atriz Angie Dickinson, foi definida pela própria Angie: "Os 20 segundos mais excitantes da minha vida." E dizem que com todas era assim - Janet Leigh, Judy Garland, Jean Simmons, Lee Remick, Kim Novak, Jayne Mansfield, Marlene Dietrich, Audrey Hepburn, Marilyn Monroe. Parece que, tendo de atender a tantas mulheres maravilhosas e ainda governar os Estados Unidos, Kennedy não podia dedicar muito tempo a cada uma. Ou, então, era uma crónica ejaculação precoce.

E houve, naturalmente, o caso de Bill Clinton (1993-2001) com a bela Monica Lewinsky, estagiária da Casa Branca, que quase levou Clinton ao impeachment. Mas não por ele ter sido infiel à sua mulher, Hillary Clinton - já então ninguém gostava dela -, mas por ele ter mentido. Clinton tentou convencer o país de que receber sexo oral, como ele recebera de Monica, não significava que tivesse feito sexo com ela. E os americanos, como sabemos, não toleram que seus presidentes mintam.

Este é o risco que Donald Trump está correndo. Ele fez sexo pago com várias mulheres há alguns anos e comprou o silêncio delas para chegar à presidência. Acontece que, como ele já é presidente, elas estão liberadas e, se quiserem, podem contar tudo. Trump continuará negando, mas, agora, há um dado mortal contra ele.

Daniels, a atriz porno, disse que ele tem o pénis em forma de cogumelo. E, se Trump alegar que não tem, a Suprema Corte americana poderá exigir que ele mostre.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha (Tinta-da-China).

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