Andam a invocar o nome de Passos em vão?

Nos bastidores do partido fala-se de um possível regresso do ex-líder. Há quem garanta que anda por aí a fazer contactos. Mas Passos está embrenhado nas aulas e a escrever as memórias no governo.

Nos bastidores do PSD há já algum tempo que se ouve dizer que Pedro Passos Coelho "quer voltar". Alguns descontentes com a liderança de Rui Rio têm feito passar essa mensagem. E a recente carta aberta que o ex-primeiro-ministro escreveu no Observador a elogiar a cessante procuradora-geral da República e a condenar António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa pela não recondução de Joana Marques Vidal veio dar lastro aos que querem e defendem que Passos tem condições para entrar de novo no combate político no PSD. O comentador político Pedro Marques Lopes garantiu na TSF, na sequência dessa carta, que o ex-líder do PSD até já anda por aí a fazer contactos. Mas será mesmo assim?

Fontes próximas de Passos Coelho garantem ao DN que o ex-primeiro-ministro tem acompanhado a atualidade política e a vida do partido, mas está longe de andar a fazer contactos para um qualquer projeto futuro no PSD. Passos tem estado embrenhado na preparação das aulas que dá em duas universidades - no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), onde é docente da cadeira de Administração Pública no mestrado e doutoramento, e na Universidade Lusíada - e a escrever o livro que já prometeu para o final de 2018 sobre os anos em que liderou o governo num país sob resgate da troika.

É certo que deixou no partido vários "órfãos", nomeadamente na bancada social-democrata. Deputados que nunca alinharam com Rui Rio nem escondem o descontentamento com a atual liderança, como é o caso de Miguel Morgado, ex-adjunto político de Passos, que na última reunião do grupo parlamentar defendeu que não podem ser só os deputados a atacar a credibilidade de António Costa, quando o esse papel cabe em primeiro lugar ao líder do PSD.

Ainda não passou o tempo necessário para ser reconhecido a Pedro Passos Coelho a difícil liderança que tirou o país da falência com grande sofrimento para os portugueses.

Deputados como Morgado, Carlos Abreu Amorim ou até Marco António Costa, ex-vice-presidente de Passos, entre outros, sabem que Rio não contará com eles para as listas às próximas eleições e gostariam de ver o rumo do PSD mudar antes das legislativas.

No partido há também figuras como Miguel Relvas, que foi durante muito tempo braço direito do ex-primeiro-ministro na liderança do PSD e no governo - até à sua saída, após a polémica da licenciatura - ou de Carlos Carreiras, ex-coordenador autárquico do PSD e antigo vice de Passos, com quem o ex-primeiro-ministro poderá contar se decidir, em algum momento futuro, andar por aí a fazer contactos. Para já, vai intervindo cirurgicamente e em assuntos-chave. Foi o caso da PGR, mas também na discussão da eutanásia, para se manifestar contra, ao invés de Rio que era defensor da despenalização da morte assistida.

Carlos Carreiras, que fez críticas públicas e duras a Rui Rio, reconhece ao DN que "ainda não passou o tempo necessário para ser reconhecido a Pedro Passos Coelho a difícil liderança que tirou o país da falência com grande sofrimento para os portugueses provocado pelo anterior governo socialista". E enquanto esse tempo não passar, diz autarca de Cascais, "Pedro Passos Coelho só tem condições para liderar de novo o governo se a situação de Portugal passar por uma nova crise, que seria ainda mais dura e que eu, enquanto português, não desejo". Os fatores internos e externos de que poderá acontecer, no entanto, garante, já "se anunciam".

Qualquer alteração de fundo no PSD nesta altura não faz sentido.

Miguel Poiares Maduro, que foi ministro adjunto de Passos, defende que a carta sobre a PGR se enquadra nos "temas que sempre o preocuparam" e daí não extrai mais nenhuma intenção. E frisa ainda sobre as guerras no partido que já se adivinham: "Qualquer alteração de fundo no PSD nesta altura não faz sentido. Há que dar a oportunidade a Rui Rio de se afirmar na liderança. Não faz sentido tentar tomar o poder numa altura destas."

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