"Perdemos a capacidade de nos encantar com o possível"

A cronista brasileira lançou recentemente um livro em Portugal com uma recolha das suas muito populares crónicas brasileiras. Uma entrevista sem papas na língua, como também são os seus textos.

"Há um meio certo de começar a crónica por uma trivialidade", escreveu Machado de Assis, e essa forma é mostrando. "É dizer que calor! Que desenfreado calor!, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca." No fundo, o escritor brasileiro reitera que na crónica servimos o trivial, mas com autenticidade.

A cronista e escritora Martha Medeiros segue a frase à risca: quando está cansada, os leitores acompanham-lhe a respiração ofegante; quando está alegre, ouvimos as gargalhadas; quando está perdida, não damos com a porta. Reconhecer o milagre da trivialidade é reconhecer que a vertigem e o espanto dependem tanto ou mais da direção do nosso olhar como do filme projetado.

Este é um dos ensinamentos que podemos retirar do livro O Melhor de Martha Medeiros, uma coletânea que reúne cem textos da cronista dos últimos 25 anos de carreira e alguns inéditos, agora editado em Portugal. Com mais de um milhão de livros vendidos, Martha Medeiros é uma das escritoras de referência do Brasil, soma dois prémios Açorianos de Literatura, tem mais de 20 obras publicadas, muitas das suas personagens ganharam corpo, saíram do papel e já chegaram à televisão, à música e ao cinema.

Numa das suas crónicas, cita o filósofo Alain de Botton. Segundo ele, a única pergunta que devemos fazer num primeiro encontro com alguém é "qual é a sua loucura?" Acho que este seria um bom começo para a nossa entrevista. Qual é a loucura da escritora e cronista Martha Medeiros?
"Qual é a minha loucura?" É a loucura de não ser certa. Não existe a pessoa certa. A gente anda sempre em busca da pessoa certa, essa pessoa não existe, é uma entidade desconhecida. Todos nós trilhamos caminhos que não são considerados corretos e a gente esconde isso e acaba se parecendo com um produto comercial de televisão que vai solucionar o problema dos outros, no contexto amoroso. Vou solucionar a vida do outro porque sou honesta, bacana, gentil. Se a gente começasse um relacionamento dizendo exatamente quais são as nossas fraquezas, quais são as nossas fragilidades, a gente economizaria tempo e teria muito mais tempo de sucesso com a outra pessoa. É muito mais fácil a gente se conectar com o lado frágil do outro do que com o lado de super-herói, que é inventado, que ninguém tem. A gente tem de começar a habituar-se a falar da nossa humanidade, coisa a que hoje, com as redes sociais, estamos a desacostumar-nos. A dor e o sofrimento que nos humanizam, que fazem da gente o que a gente é, não têm ganhado muito espaço para se manifestar. Eu defendo um pouco isso: a gente parar de se vender como um sabonete e passar a mostrar para o outro as nossas imperfeições, sou muito fã das imperfeições, é o que realmente me cativa no outro.

Como é que chegou à crónica?
Foi casual. Eu era uma publicitária, trabalhei 13 anos em agências de propaganda, e o meu marido foi convidado a morar em Santiago do Chile. Passei oito meses em Santiago, sem trabalhar pela primeira vez, e escrevia muito. Um amigo jornalista foi-nos visitar e sumiu com os meus textos. Quando voltei a morar no Brasil, o pessoal do jornal onde ele trabalhava me telefonou e perguntou se poderiam publicar um daqueles textos.

Recorda-se do tema do texto?
Estava havendo um movimento no Brasil de propaganda em torno da preservação da virgindade. Achei o fenómeno um retrocesso, ainda mais porque não era uma moda unissexo, era uma moda só para as mulheres. Muitas atrizes estavam dando entrevistas, dizendo que se estavam guardando. Fiz um texto condenando aquele movimento. Acabei ganhando uma coluna semanal e 25 anos depois estou aqui, dando uma entrevista em Portugal.

25 anos depois... No seu livro, a Martha considera que o caminho também é um lugar.
O percurso é o que há de mais importante.

Por quantos lugares é que passou nestes 25 anos?
Gente, tanta coisa! Estou com 58 anos, 25 anos de crónicas, 30 de literatura, porque comecei com poesia. Passei por toda a renovação do mundo feminista, toda essa revolução feminista que nós estamos agora resgatando. Passei por uma Martha assombrada ainda com o amor e com a paixão, passei por um casamento, passei pela maternidade, passei por tantos livros, por tantas músicas, por tanto teatro, passei por tantas dores, por tanto sofrimento de amor. Tudo isso faz parte do meu percurso, para chegar aqui a esse lugar, que se chama maturidade, mas que eu também chamo uma juventude parte II. Nunca fui tão jovem como agora aos 58 anos, porque a gente tem uma ideia de liberdade na juventude romantizada, quando na verdade a grande liberdade é essa agora. A liberdade de saber exatamente quem eu sou, o que eu quero, o que eu posso, o que eu não posso, e aprender a lidar com as minhas renúncias. Trata-se de um lugar de simplicidade, e a gente leva muito tempo para ser simples.

Manoel de Barros, um grande poeta brasileiro, garantia que 90% do que escrevia era inventado e apenas 10% era mentira. Podemos aplicar o mesmo princípio aos textos da Martha? As suas crónicas são pessoais ou dão-nos a ilusão de serem pessoais?
Elas são pessoais no sentido em que são exatamente o que eu penso sobre a vida, mas muitos dos exemplos que eu dou para ilustrar esses pensamentos são inventados. Nós, que trabalhamos com literatura, temos total liberdade de fazer isso e acho que a coisa mais inútil é um leitor perguntar "isso aconteceu mesmo ou não aconteceu?". É irrelevante. Quando eu vejo a foto de um autor, com aquele ar intelectual, na badana do livro, fico pensando: "O que é que importa se aquela ruiva da página 74 foi uma amante dele mesmo ou não foi?"

Já o escritor Eça de Queiroz resume a crónica a "uma conversa íntima que se espalha indolente pela vida". A crónica parte de uma trivialidade e é-lhe dada outra dimensão?
Eu acho que é isso. As pessoas perguntam "qual é a chave de conexão que tu tens com o teu leitor?" Não sei como é que eu faço isso, não é uma coisa pensada, mas talvez tenha que ver com um interesse pessoal na vida, de nunca me contentar com o que estou vendo, mas querer saber o que há na entrelinha, no subtexto de cada pessoa. Quando escrevo, estou escrevendo para mim. Hoje, o meu objetivo é fazer uma autoterapia, é entender o que eu penso, organizar o meu pensamento. Conseguir clarear um pouquinho o que é naturalmente confuso e poluído dentro de nós e depois compartilhar com o leitor. Poder viver disso é um privilégio.

Numa das crónicas, a Martha escreve: "Vida é o que existe entre o nascimento e a morte, o que acontece no meio é que importa." Deduzo, por esta frase, que não seja crente, ou é?
Não, não sou não.

Mas, no entanto, encontramos alguma espiritualidade nos textos.
Sou de formação católica, mas a partir dos meus 10 anos passei a questionar palavras como pecado, culpa e comecei a ver o quanto tudo isso era aprisionante. A religião é um conforto para quem tem problemas em relação à morte, quase todo o mundo tem, mas nunca achei que ela propiciasse uma vida plena. A morte não é uma coisa que me assuste, eu reverencio a morte, acho que a morte é um dos grandes fatores que fazem que a gente possa viver bem. Então, a religião nunca foi uma necessidade para mim de apaziguar a minha alma em relação a essa finitude. Antes, não existíamos e, depois, voltaremos a ficar mortos. Tivemos a honra de nascer e temos de viver o melhor possível nesse pequeno espaço de tempo. Isso não é assustador, isso é só um privilégio.

Nas suas crónicas, faz o elogio do espanto. Porquê esta importância dada à vertigem do espanto no dia-a-dia, de nos sentirmos arrebatados pelo quotidiano?
O espanto pode estar na simples gratidão de estar vivo, na capacidade de se encantar. As pessoas perdem muito rapidamente a capacidade de se encantar, de se encantar com o possível, de se encantar com o que está sendo vivido naquele instante, com a pessoa possível que está do seu lado agora e não com aquele príncipe encantado que talvez a gente um dia encontre. A vida é o que está acontecendo, não é o que vai acontecer nem o que aconteceu.

É verdade que os seus textos são utilizados por psicólogos?
Psicólogos têm-me dito isso. Fico muito honrada. As pessoas têm muita dificuldade em se narrar e a terapia é narração. Então, se uma coluna minha pode ajudar alguém a se narrar para o seu profissional, para o seu terapeuta, isso amplia o alcance do meu trabalho.

Como vê os últimos acontecimentos políticos no Brasil? Nomeadamente, o recente caso da apreensão de livros numa feira do livro e a resposta dada pela atriz Fernanda Montenegro contra a censura.
Estou muito envergonhada por metade da população do Brasil ter elegido uma pessoa claramente despreparada, não só despreparada politicamente, é uma pessoa atrasada. Temos um novo presidente que não valoriza a cultura, não valoriza a educação e tem preconceitos e ele é o representante da nação. Aquelas pessoas que se estavam educando para serem mais tolerantes encontram um representante que as autoriza a voltar a esse estado das cavernas. À idade das cavernas que está acontecendo no Brasil. Estamos vivendo um atraso que talvez leve muitos, muitos anos para a gente conseguir se recuperar e voltar a ser um país minimamente civilizado e alinhado com as nações mais desenvolvidas. Não só é uma vergonha o que está acontecendo, é também assustador. Por enquanto, ainda não existe uma censura, eu posso escrever o que eu quiser escrever, eu posso opinar, eu posso dizer o que eu estou dizendo aqui, inclusive lá no Brasil. Mas a gente se pergunta o que irá acontecer mais adiante. Eu ainda sou otimista, eu acho que não vai ser pior do que está, mas já está muito ruim.

A imagem da polícia a entrar por uma feira do livro para apreender livros é...
É completamente absurdo! Mas o mais assustador é o apoio da população a isso. Nós temos 200 milhões de habitantes no Brasil e, grosso modo, metade da população está apoiando isso.

O país está bipolarizado?
Muito bipolarizado, tem famílias brigadas e isso estimula uma violência muito grande, ataques verbais, morte. As pessoas estão achando mais fácil matar, nós temos um governo que acha que segurança pública é sinónimo de andar armado, as pessoas estão valorizando muito pouco a vida e os índices de criminalidade estão a aumentar. Eu não imaginei que a gente fosse andar para trás desta maneira.

Como vê os novos movimentos feministas? O movimento #Me Too, por exemplo.
Eu sou mais alinhada com a Catherine Deneuve do que com a Oprah Winfrey. É óbvio que esse movimento é necessário porque a gente tem de regular, começar a ter a igualdade total entre homens e mulheres. Mas quando envolve erotismo, quando envolve sexo, quando envolve o jogo de poder entre homens e mulheres, eu acho que isso está sendo pouco debatido. Não se desenvolve muito as questões do jogo erótico, que é uma coisa muito íntima que acontece entre quatro paredes.

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