Premium Dos 11 aos 70. O estranho fenómeno da multiplicação de votos na AR

Tem sido um corrupio de votos: de condenação, pesar, louvor, congratulação, repúdio. Sobre temas internacionais, futebol, ovelhas. Poucas semanas após o início da legislatura, os deputados já apreciaram 70 votos, sete vezes mais do que em igual período da anterior.

Os guias das votações parlamentares não deixam margem para dúvidas: os deputados da atual legislatura congratulam-se, louvam, condenam, saúdam ou repudiam a um ritmo nunca visto na Assembleia da República. Em comparação com 2015, os números quase se multiplicam por sete. Há quatro anos, nas primeiras quatro sessões parlamentares em que houve votações, estiveram em cima da mesa 11 textos. Na legislatura anterior, em 2011, foram submetidos à apreciação dos deputados oito votos. Ora, nesta sexta-feira, no quarto plenário em que houve votações, os parlamentares votaram o 70.º voto dos 78 apresentados nas últimas semanas. A manter o ritmo, os 886 textos entregues nos últimos quatro anos ameaçam transformar-se em quase seis mil nos próximos quatro.

Votos para todos os gostos

Ler mais

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...