Vieira, o presidente que aguenta os treinadores contra tudo e contra todos

Nos 15 anos de presidência de Luís Filipe Vieira, o Benfica teve oito treinadores, mas só um foi despedido - Fernando Santos, logo após a primeira jornada da época 2007-08. Um erro, como reconheceu mais tarde, que o levou a ter mais ponderação, como agora no caso de Rui Vitória.

Luís Filipe Vieira foi eleito presidente do Benfica em novembro de 2003, ou seja, está há 15 anos no cargo. Desde que chegou à presidência passaram pelo clube oito treinadores (contando com as duas passagens do espanhol José Antonio Camacho), mas só um foi despedido. Por isso, Vieira é conhecido por ser um líder que aguenta ao máximo os treinadores, mesmo em situações de aperto e de insucesso desportivo, e muitas vezes contra vozes discordantes dentro da própria direção.

O caso de Rui Vitória é mais um exemplo. Pelo segundo ano consecutivo, o Benfica não passou da fase de grupos da Champions e há pouco mais de um mês entrou numa espiral negativa de resultados que motivou a contestação de sócios e adeptos - nos últimos sete jogos, o clube apenas venceu dois e a equipa sofreu 14 golos. Além disso, mesmo nas duas únicas vitórias, as exibições não convenceram - no campeonato, a equipa está no quarto lugar a quatro pontos do líder FC Porto. E, por isso, Vitória esteve mesmo na porta de saída.

Nesta quinta-feira, em conferência de imprensa, Vieira confirmou que, após uma reunião na SAD, na quarta-feira à noite, o futuro de Rui Vitória esteve mesmo em equação e que a solução caminhava nesse sentido. Mas que, depois de ponderar muito durante a noite - dormiu no centro de estágio do Seixal -, resolveu manter o treinador. "Havia uma decisão tomada mas discuto e ouço. Dormi no Seixal e meditei bastante. Dormi muito pouco e a pessoa que primeiro soube da decisão foi o Tiago Pinto, logo às 07.30 da manhã. Depois falei com o Rui Vitória", referiu, admitindo que a decisão não foi consensual entre os elementos da SAD: "Apesar de ontem [quarta-feira] um grupo de pessoas ter estado reunido, depois de fazer uma reflexão entendi que ele devia continuar. É o homem certo no lugar certo e vamos ver se o tempo dirá se tenho razão ou não. Nem todos na SAD alinhamos no mesmo sentido, mas depois da decisão tomada somos solidários uns com os outros. Mas não vou esconder que ainda ontem [quarta-feira] falámos na possibilidade de ele sair." Ou seja, mais uma vez, apesar de vozes discordantes, a palavra do presidente acabou por prevalecer.

Até hoje, o único treinador que não resistiu na Luz sob a presidência de Luís Filipe Vieira foi Fernando Santos, o atual selecionador nacional, que foi despedido logo após o empate fora com o Leixões (1-1), depois de quatro dias antes ter ganho por 2-1 ao FC Copenhaga na pré-eliminatória da Champions, numa exibição que não agradou à SAD. Na altura, a decisão deixou o técnico agastado: "Nenhum treinador que tenha ganho o torneio do Guadiana há 15 dias, um jogo para a Liga dos Campeões e que fez o 22.º jogo sem derrotas para o campeonato nacional está à espera de sair. Não posso dizer que saio magoado, nestes momentos é difícil expressar sentimentos. Surpreendido, talvez."

Em várias entrevistas que foi dando ao longo dos últimos anos, Luís Filipe Vieira nunca escondeu o seu arrependimento pela decisão que tomou naquele dia 29 de agosto de 2007 ao despedir Fernando Santos. "Não podemos escolher o caminho mais fácil, que é o que nos conduz a mais problemas. Devemos recordar o que aconteceu com Fernando Santos. Foi um erro que cometi ao dizer-lhe que não iria continuar no Benfica. Tenho de aprender com os meus erros. Ao despedi-lo não se melhorou nada", referiu numa entrevista à BTV, em dezembro de 2010.

Numa outra entrevista mais recente à televisão do clube, em novembro de 2017, Vieira voltou a falar do tema, mais uma vez a fazer mea culpa. "Até pela relação que tinha, e tenho com ele, uma coisa que me custou muito foi ter de falar com o Fernando Santos e dizer-lhe que no dia seguinte ele já não seria o treinador do Benfica. Foi muito difícil, posso dizer-lhe que quando saí de casa para ir ter com ele passou-me tanta coisa pela cabeça... Pensei voltar para trás... Não conseguia... Mas, pronto, estava tomada a decisão, estava tomada. Essa foi uma decisão muito, muito complicada para mim."

Em agosto de 2014, numa entrevista ao jornal i, o próprio Fernando Santos reconheceu que o seu despedimento do Benfica ajudou Luís Filipe Vieira "a crescer como presidente" e desde aí a não tomar decisões a quente relativamente ao futuro dos treinadores, dando mesmo um exemplo: "Tive o prazer de trabalhar com o Luís [Filipe Vieira], penso que de certa forma o ajudei a crescer como presidente. Se isso não tivesse acontecido comigo [despedido à 1.ª jornada de 2007-08], provavelmente o Jorge Jesus teria saído no ano passado e o Benfica não tinha ganho quatro títulos."

Na época 2012-13, contra tudo e contra todos, Luís Filipe Vieira voltou a sair em defesa de um treinador - neste caso, Jorge Jesus, na célebre temporada em que o Benfica deitou tudo a perder nos últimos jogos da época. A derrota no Dragão com o FC Porto custou o campeonato, a final da Liga Europa foi perdida para o Chelsea com um golo de Ivanovic aos 90'+2 e, na Taça de Portugal, o Benfica foi derrotado pelo V. Guimarães de Rui Vitória por 2-1.

Nesta altura, a contestação ao treinador ia para além dos adeptos, com a quase generalidade dos elementos da SAD e da direção a defenderem a saída do treinador. A situação foi recordada pelo presidente benfiquista numa entrevista em 2017, na qual fez um balanço dos seus 14 anos de presidência.

"Contra tudo e contra todos, decidi pela permanência do Jorge Jesus. Essa foi uma decisão complicada, em 2013. Lembro-me perfeitamente de que toda a gente me criticava, de que estava sozinho... Foi outra decisão bastante complicada, mas tinha de ser tomada, estavam em causa os interesses do Benfica", justificou Vieira, que na mesma entrevista saiu também em defesa de Rui Vitória: "Não há resultado que tire o Rui deste projeto. Ele foi campeão duas vezes no Benfica e pode conquistar o penta [este objetivo, porém, foi falhado na época passada]."

Treinadores do Benfica na era de Vieira

José Antonio Camacho (2003-04). O treinador espanhol foi o primeiro da presidência de Luís Filipe Vieira, transitando na gerência anterior de Manuel Vilarinho, quando Vieira chefiava o futebol do Benfica. Camacho terminou o campeonato na segunda posição, ganhou a Taça de Portugal, e decidiu por iniciativa própria no final da época deixar o Benfica por ter recebido um convite irrecusável do Real Madrid.

Giovanni Trapattoni (2004-05). A velha raposa aterrou na Luz no verão de 2004, depois de ter estado quatro anos como selecionador italiano e treinado clubes como o AC Milan, Juventus, Inter Milão e Bayern Munique. Foi campeão nacional e finalista da Taça de Portugal. Acabou por invocar motivos pessoais para não renovar e regressar a Itália. Dias depois foi anunciado como treinador do Estugarda.

Ronald Koeman (2005-06). O treinador que tinha sido um dos melhores centrais holandeses de sempre, e que encantou no Barcelona, foi contratado para orientar o Benfica em 2005-06, depois de uma etapa de quatro anos no comando do Ajax. Nesse ano, conquistou a Supertaça, levou o Benfica aos quartos-de-final da Champions e terminou o campeonato na terceira posição. No final da época, anunciou a sua saída para o PSV e o Benfica não colocou entraves.

Fernando Santos (2006-07). Foi eleito para dirigir a equipa após a saída de Koeman. Santos já tinha dirigido o FC Porto e o Sporting, e antes de chegar à Luz tinha treinado o AEK de Atenas. Na sua primeira época terminou sem títulos conquistados e no terceiro lugar. Mas, logo na primeira jornada da época 2007-08, em pleno agosto, foi despedido por Luís Filipe Vieira após um empate com o Leixões.

José Antonio Camacho (2007-08). Regressou ao Benfica para pegar na equipa logo após a saída de Fernando Santos. Mas só durou até março de 2008, demitindo-se alegando que se sentia impotente para motivar os jogadores - "estamos a empatar, a empatar, a empatar, o Benfica necessita de algo mais". Na altura, Vieira ainda tentou demover o espanhol, que manteve a sua decisão. Fernando Chalana, na qualidade de interino, aguentou o barco até ao final da época.

Quique Flores (2008-2009). O treinador espanhol assinou por duas temporadas com o Benfica (foi uma aposta pessoal de Rui Costa), depois de ter treinado o Valência durante duas épocas. Mas ficou apenas um ano na Luz, depois de ter ficado no terceiro lugar e ganho a Taça da Liga. Acabou por sair por mútuo acordo.

Jorge Jesus (2009-2015). O treinador de maior duração no reinado de Luís Filipe Vieira. Esteve seis temporadas na Luz, onde conquistou três campeonatos nacionais, cinco Taças da Liga, uma Taça de Portugal e uma Supertaça. No verão de 2015, deixou o Benfica em final de contrato e assinou pelo rival Sporting.

Rui Vitória (2015-2018). Vai na quarta temporada à frente do Benfica, depois de ter chegado no verão 2015 para substituir Jesus depois de um bom trabalho no V. Guimarães. Foi campeão nacional logo nas duas primeiras épocas e juntou ainda ao título uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça. Na época passada, perdeu o título para o FC Porto e nesta época já foi eliminado da Champions e está no quarto lugar, a quatro pontos do líder FC Porto. O seu futuro esteve tremido, mas Vieira decidiu mantê-lo... apesar de a decisão não ter sido consensual entre os elementos da SAD.

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