Vizinho

Se não tivermos uma visão burocrática da amizade, daquela que pede papéis, e prazos, e requisitos detalhados, e formulários e períodos mínimos de permanência; se não tivermos uma visão de amizade fechada e elitista; se não tivermos tudo isso, considerava-me muito amigo do João Vasconcelos, que tinha conhecido há pouco, pouco mais de um par de anos. Conhecia há pouco mas já tinha ouvido falar há muito, do Vasconcelos, do João Vasconcelos, ou apenas do João - e tenho sempre muita inveja dos meus homónimos que conseguem fazer do nome mais usado em Portugal um nome verdadeiramente próprio, um nome substantivo. Era o Vasconcelos, das startups, da inovação, da tecnologia das empresas. Toda a gente conhecia o Vasconcelos. E falavam dele, com amizade, com admiração, tocados pelo sorriso de ação. Agradecidos por tê-los posto em contacto.

Recordo ouvi-lo contar com grande detalhe e graça um caso em que várias instituições públicas que tutelava atiravam entre si as culpas para um qualquer processo estar há anos parado, sempre com profundas e lapidares justificações burocráticas. Contava a cara deles quando, sem saberem, os convocou a todos para uma reunião, que não terminou enquanto não se resolvesse o passa-culpas, o processo, e já agora a vida das empresas em causa, ou melhor das pessoas, que as empresas são pessoas. E o João Vasconcelos era daquelas que sabiam e acreditavam nas empresas como formas de realização de ambições e necessidades da comunidade.

Aquilo que a ação pública de João Vasconcelos tinha de mais irrepetível era o genuíno entusiasmo e a força de fazer andar as coisas, de levar os temas em frente, de ter uma visão e de se pôr a caminho - João Vasconcelos não era um burocrata da política. A sua genuinidade e entusiasmo funcionavam como uma pedagogia evangélica que apenas é possível quando se acredita numa coisa. No caso do João Vasconcelos essa coisa era a inovação e a tecnologia, e o instinto muito certo que apenas isso pode fazer que Portugal não perca mais tempo nem mais nenhuma revolução económica, tornando-se digital e criando um enquadramento regulatório que permita e acelere a fixação e o desenvolvimento de novas empresas e novos produtos no retângulo situado no globo global. Inovando, arriscando.

Na esfera pública honrar o João Vasconcelos é continuar a dar espaço a quem tenha sobre um tema e um setor um entusiasmo contagiante, independentemente de agendas ou partidos políticos e das baias burocráticas. São pessoas como o João que fazem falta em tantas áreas (imagina um João Vasconcelos na Justiça ou na Educação, dizia um amigo comum), em todos os partidos, em todos os governos.

Falávamos muito sobre Marvila, o bairro que nos tinha acolhido mais ou menos ao mesmo tempo, antes de nos conhecermos, tornando-nos vizinhos, vocativo pelo qual nos tratávamos. O João Vasconcelos era um verdadeiro vizinho, sabia tudo sobre o bairro, o que estava a acontecer, as mudanças, quem vinha para aqui morar, de quem era e o que ia ser este e aquele armazém, o andamento das obras. No sábado no WhatsApp tinha-me enviado a notícia de uma loja de marcas de luxo de moda que ia abrir aqui na rua. Vai ser só top models, foi o que lhe respondi. Espero que tenha dado uma gargalhada. E que lá no Céu, que é para onde vão os vizinhos, seja mesmo só top models e as gargalhadas do João.

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