Premium Zimbabwe vai a votos sem Mugabe pela primeira vez em 38 anos

Zimbabwe realiza nesta segunda-feira, dia 30, eleições presidenciais, legislativas e locais. Robert Mugabe, que no ano passado foi forçado a abandonar o poder, é o grande ausente. Pela primeira vez em 38 anos o seu rosto não está entre os dos 23 candidatos à presidência zimbabwiana.

Durante muitos anos, mais precisamente 38, Zimbabwe foi sinónimo de Robert Mugabe. Mas há oito meses isso mudou. O homem que governou com mão de ferro o país da África Austral desde que este conquistou a sua independência do Reino Unido descobriu que, afinal, passado tanto tempo, só contava consigo próprio. E após forte pressão, incluindo dos militares, deixou o poder e foi obrigado a ceder o lugar ao vice-presidente Emmerson Mnangagwa, conhecido pela alcunha de Crocodilo.

Atual chefe do Estado e líder do partido no poder, a União Nacional Africana do Zimbabwe - Frente Patriótica (Zanu-PF), Mnangagwa, de 75 anos, é um dos 23 candidatos às eleições presidenciais desta segunda-feira dia 30. Um número recorde. E quatro delas são mulheres. O seu principal rival é o líder do Movimento Democrático para a Mudança (MDM), Nelson Chamisa, de apenas 40 anos. A luta entre os dois políticos adivinha-se muito renhida e, a avaliar pelas sondagens, nenhum candidato deverá conseguir uma maioria clara nas presidenciais. O que obrigará a uma segunda volta. A 8 de setembro.

Segundo uma sondagem do Afrobarometer, divulgada no dia 20 e citada pela Reuters, o sucessor de Robert Mugabe no Zanu-PF surge com 40% das intenções de voto e o de Morgan Tsvangirai no MDM com 37%. O inquérito foi realizado entre os dias 25 de junho e 6 de julho, junto de uma amostra de 2400 pessoas adultas, visto que 20% dos inquiridos não quiseram revelar em que candidato iriam votar nas presidenciais desta segunda-feira. A sondagem revelou ainda que Mnangagwa tem um maior número de apoiantes nas zonas rurais e que, nas zonas urbanas do país, os eleitores preferem Chamisa.

Hiperinflação chegou até aos 231.000.000%

O facto de haver vários candidatos da oposição poderá, em última análise, favorecer Mnangagwa. "Isso poderá jogar a favor dele pois o voto da oposição ficará repartido por vários candidatos. Mas o facto de haver 23 candidatos também indica que se abriu espaço político a seguir à queda do autocrata Robert Mugabe", disse, citado pela CNBC, William Atwell, consultor para os mercados emergentes da África Subsariana na empresa norte-americana Frontier Strategy Group.

Os investidores internacionais, tanto como os observadores e as organizações internacionais, estão atentos a estas eleições. Muitos esperam que o vencedor desta votação possa abrir caminho à revitalização económica no Zimbabwe pós-Mugabe. Após anos de má gestão, corrupção, o desemprego afeta 90% da população ativa, segundo a Federação de Sindicatos do Zimbabwe e, desde 1999, o país não tem acesso aos mercados internacionais devido ao não pagamento dos juros da dívida.

A hiperinflação, que em 2008 chegou a chegar aos 231.000.000%, obrigou o país a usar outras moedas. Para fazer face à situação, em 2015, o governo mandou trocar os dólares zimbabwuianos por dólares americanos. 175 quatrilhões de dólares zimbabwianos (175.000.000.000.000.000), quando trocados, davam 5 USD. O colapso da moeda afetou o rendimento de vários oficiais, que se queixaram de não receber há anos, tal como muitos funcionários públicos. Algo que terá feito alastrar o descontentamento aos militares e contribuído para a remoção do poder de Mugabe.

No Zimbabwe, 40% dos eleitores têm menos de 35 anos. Muitos esperam que, depois destas eleições, comece a ser possível pelo menos encontrar um emprego. "Neste momento não há aqui nada para os jovens. Nem em termos de emprego nem em termos de educação. O que nós, jovens, ganhamos é nada", afirmou, à Reuters, Tendai Chipangwa, um jovem que vende sumos nas ruas de Harare. E a saída de Mugabe do poder? Que impacto tem? "Eu acho que é muito importante a nível simbólico, para o psicológico nacional, porque vemos definitivamente coisas a acontecer de forma diferente e há cada vez mais pessoas comprometidas", declarou, por seu lado, Fadzayi Mahere. Candidata independente a um lugar de deputada no Parlamento do Zimbabwe nestas eleições garante: "Definitivamente, os jovens estão prontos para assumir as rédeas e envolver-se mais na política."

Ministro foi preso, turismo cresceu 15%

O turismo no Zimbabwe aumentou 15% desde a saída de Mugabe do poder. De acordo com dados oficiais, o número de turistas a visitar o país aumentou para 554 417 no primeiro trimestre do ano.

Nos primeiros três meses do ano, o número de estrangeiros a visitar as cataratas de Victoria, uma das principais atrações turísticas do país, aumentou 48% em relação ao período homólogo de 2017.

O aumento do interesse foi recebido com alívio pelos responsáveis por safaris e cruzeiros, negócios atingidos pela crise económica e pelo frequente clima de violência política que marcaram a era de Mugabe.

"Estivemos isolados durante muito tempo, mas voltámos a ser nós mesmos", disse a ministra do Turismo, Prisca Mupfumira, em entrevista à agência noticiosa francesa AFP. "Há boas perspetivas na indústria do turismo", acrescentou a governante, numa altura em que o setor turístico contribui para 10% do PIB do país.

Mas não é só aqui que se assiste a uma mudança de paradigma. Na luta contra a corrupção, por exemplo, foi preso e condenado, no passado dia 20, a quatro anos de cadeia, o ex-ministro da Energia de Mugabe Samuel Undenge. O ex-governante, o primeiro da era Mugabe a ser preso, estava acusado de adjudicar, sem concurso, um contrato no valor de 12 650 dólares a uma empresa de um funcionário do partido do poder - o ZANU-PF.

Outro sinal é a aproximação do atual chefe do Estado Emmerson Mnangagwa aos cidadãos brancos do Zimbabwe, durante décadas perseguidos e desprezados pelo regime de Mugabe. Não restam muitos. São cerca de 30 mil. Viram as suas fazendas ir parar às mãos de militares ou de chefes locais. E normalmente votariam no MDM (oposição). "Eu sei de alguns desses chefes locais que foram de uma fazenda para outra. Depois ele arruinava-a. A seguir davam-lhe outra. E ele arruinava-a também. Esse tempo acabou", garantiu o sucessor de Mugabe.

Os fazendeiros brancos, pelo menos alguns, parecem ter gostado do que ouviram. "Ele reconhece todos como iguais. Somos todos um só, agora. Isso é bonito. Nunca aconteceu antes, por isso é bom", disse à Reuters o engenheiro de minas Cais Carstens.

Sem dinheiro sequer para comprar pensos higiénicos

No Zimbabwe falta muita coisa. Por exemplo, segundo uma reportagem da Thomson Reuters Foundation, coisas tão simples como pensos higiénicos para a menstruação. Para muitas raparigas isso significa não ir à escola nos dias do período. As alternativas são esperar que as professoras lhe deem pensos, usar pedaços de um pano qualquer, folhas de plantas ou até mesmo de jornal.

"Algumas raparigas usam ervas e folhas de árvores em vez de pensos higiénicos e isso está a comprometer a sua saúde. Queremos que haja distribuição gratuita nas escolas", disse Obert Masaraure, presidente da Confederação de Sindicatos de Professores Rurais do Zimbabwe.

"Este é um grande desafio, porque a maioria das famílias aqui vivem com apenas 1 dólar por dia", contou Catherine Mkwapati, diretora da Youth Dialogue Action Network, uma organização da sociedade civil que trabalha com as escolas.

No Zimbabwe, um pacote de pensos higiénicos, que em 2015 custava 1 dólar, custa hoje em dia 5 dólares. Tendo em conta que o salário médio mensal é de 253 dólares, muitas famílias dão prioridade a gastar 5 dólares numa saca de 20 kg de arroz.

Este é um problema que não afeta apenas as adolescentes. "Eu partilho uma toalha com a minha filha de 16 anos durante a menstruação porque comprar pensos nas lojas, para nós, é muito caro. Mas mesmo que fossem mais baratos, não teríamos dinheiro à mesma", explica Tracy Hungwe, uma mulher de 37 anos que vive no distrito rural de Makonde, na província de Maxonalândia Ocidental.

No âmbito da campanha para estas eleições, a primeira-dama do Zimbabwe, Auxilia Mnangagwa, distribuiu pensos higiénicos grátis, fazendo aumentar a esperança de que a situação venha a melhorar. "Se votarmos na pessoa certa, talvez as coisas melhorem para nós, mulheres pobres, em dificuldades", declarou Maria Chaodza, de 17 anos, filha de agricultores também de Makonde.

As mulheres constituem 54% dos eleitores registados no Zimbabwe. Pela primeira vez há candidatas à presidência. Quatro. E entre os 1600 candidatos a lugares no Parlamento há 15% de mulheres. Fadzayi Mahere, uma delas, recusou já as críticas e os insultos dirigidos às mulheres no país e consideradas, pela ONU, como inaceitáveis.

"O casamento, embora seja uma coisa bonita, não é uma conquista. Não qualifica ninguém para um cargo público", disse a candidata na sua conta da rede social Twitter, numa resposta às pessoas que expressam preocupação em serem liderados por uma mulher solteira.

"Será necessário algo mais do que dizerem-me que não tenho filhos ou marido para me calarem", afirmou a advogada de 32 anos que procura ocupar um assento parlamentar em Harare, acrescentando que está casada com a sua campanha.

ONU e UE pedem eleições transparentes

Na reta final da campanha, várias organizações internacionais, como por exemplo a ONU e a UE, pediram que as eleições decorram num ambiente tranquilo, de forma livre, justa e democrática.

"Pedimos às autoridades, aos partidos políticos e seus associados que assegurem que estas eleições não sejam marcadas por esses atos, de modo a que todos os cidadãos do Zimbabwe possam participar livres de medo num processo eleitoral credível", apelou Liz Throssell, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, gabinete encabeçado pelo alto-comissário Zeid R'aad al Hussein.

A Amnistia Internacional defendeu que os candidatos e partidos políticos neste país da África Austral devem romper com o regime de Mugabe e promover o respeito e proteção dos direitos humanos. Num documento intitulado "Romper com o Passado", a organização não-governamental fez sete recomendações, nomeadamente o fim da pena de morte, das perseguições políticas que resultavam no desaparecimento, tortura e morte de opositores e o fim da impunidade das forças de segurança.

A União Europeia, por seu lado, lembrou que o escrutínio desta segunda-feira dia 30 é um teste determinante para o futuro do Zimbabwe. "Estas eleições constituem um teste determinante para o processo de reforma", disse Elmar Brok, o chefe da missão de observadores europeus nestas eleições.

"Dado o contexto das anteriores eleições, importantes esforços devem ser feitos para restabelecer a confiança da população", acrescentou o eurodeputado alemão, citando "a transparência e a inclusividade", "a integridade das listas eleitorais", "o segredo do voto" e "o calmo decorrer da votação".

As eleições da era Mugabe foram frequentemente marcadas por fraudes e por atos de violência atribuídos ao regime.

O seu sucessor, Emmerson Mnangagwa, prometeu que estas serão "livres, transparentes e verdadeiras", mas a oposição, liderada por Nelson Chamisa do MDM, ameaçou desvincular-se das eleições em caso de "manipulação de resultados".

A última missão eleitoral da UE no Zimbabwe remonta a 2002. Na altura, o chefe da missão, o diplomata sueco Jean-Pierre Olov Schori, foi expulso antes sequer de a votação ter lugar.

Mugabe critica os que o derrubaram e insinua que vai votar na oposição

O ex-presidente do Zimbabwe reapareceu neste domingo, para falar à imprensa, na sua casa em Harare. "Pela primeira vez, temos uma longa lista de aspirantes ao poder", disse o ex-presidente, de 94 anos, durante uma conferência de imprensa. "Não posso votar naqueles que me têm maltratado, farei a minha escolha entre os outros 22 candidatos", acrescentou.

"Eu não posso votar no Zanu-PF", disse Mugabe, sobre o seu próprio partido. "O que resta? [Nelson] Chamisa", declarou, referindo-se ao líder do MDC (oposição). "Ele parece estar bem nos seus comícios", declarou Mugabe sobre o principal rival de Emmerson Mnangagwa, seu sucessor no poder. "Quem vencer, desejamos-lhe bem (...) e vamos aceitar o resultado", garantiu.

Mugabe culpou "personagens malignos e maliciosos" pela sua retirada, após mais de três décadas e meia no poder no Zimbabwe, referindo ainda que renunciou para evitar um "derramamento de sangue".

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