Cinemas e Netflix continuam sem acordo em Portugal em 2020

Da supremacia da Netflix ao triunfo do cinema português de qualidade num ano que levou mais gente ao cinema e teve um impacto nas redes sociais invulgar. Uma revisão a 2019 num almanaque com curiosidades, vencedores, perdedores e injustiças.

Ficámos sem ver no grande ecrã dois dos melhores filmes do ano: Marriage Story, de Noah Baumbach, e O Irlandês, de Martin Scorsese. Ainda ninguém percebeu porque Portugal ficou de fora do acordo entre exibidores e a Netflix, mas já é certo que este mal-entendido continuará em 2020 logo em janeiro, com a chegada somente ao streaming do frenético Uncut Gems - Diamante Bruto, avalanche de cinema emocional dos manos Safdie. Num ano em que os portugueses foram para as redes sociais como críticos de bancada, sobretudo com os filmes mais mediáticos da Netflix e com o caso Joker, houve um aumento na venda dos bilhetes.

Mais bilhetes vendidos mas mais flops de filmes de autor. Um ano em que os grandes festivais tiveram filmes vencedores que não foram só "filmes de festivais". Em Toronto, Jojo Rabbit venceu o prémio Grolsch Award e está na calha para os Óscares; em Veneza já se sabe, o fenómeno Joker, enquanto em Cannes a glória foi para Parasitas, sucesso imenso de bilheteira à escala global. Isto quer dizer que os grandes festivais ainda são a rampa de lançamento para os melhores.

Em Portugal vimos o nosso cinema a vencer em Locarno com Pedro Costa, mas também um belo desfile de Roterdão a Toronto. Por cá, o mais visto foi Variações, com mais de 300 mil bilhetes e uma euforia nostálgica que pôs a banda do filme a dar concertos para muitos mais milhares. Um furacão que fez que A Herdade fosse também uma grande surpresa nas bilheteiras. Sucessos que logo a seguir trouxeram fracassos de obras de grande qualidade como Technoboss ou Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, este último precisamente do mesmo realizador de A Herdade, Tiago Guedes.

Em relação a tendências, o cinema de terror continua a ser moda forte. O segundo It, de Stephen King, atraiu a miudagem à grande e é raro o filme de terror que não chame público. Mas, como não poderia deixar de ser, os filmes da Marvel foram os grandes campeões de bilheteira, apenas ultrapassados por dois fenómenos previsíveis: Joker e O Rei Leão. Joker está quase nas 900 mil entradas e provocou um bonito caso de boca-a-boca, enquanto a versão fotorrealista do clássico da Disney foi mesmo o maior êxito de sempre em Portugal, tendo ultrapassado um milhão e duzentos mil espectadores, muitos deles em busca da nostalgia de reviver o musical leonino.

Na América, a Disney, com a ajuda dos filmes Marvel, é a campeã suprema do lucro. Avengers - Endgame, dos irmãos Russo, foi o líder supremo com vantagem confortável para O Rei Leão, enquanto em terceiro lugar Toy Story 4 venceu por margem menor Captain Marvel, mas ainda é preciso esperar pela capacidade deste novo Star Wars, que no começo da sua carreira tinha números inferiores aos dois episódios anteriores mas que depois do Natal espantou tudo e todos com resultados fortíssimos.

2019 foi também o ano em que Serralves inaugurou a Casa de Cinema Manoel de Oliveira, um espaço com cinema e duas salas de exposição. O Porto tem finalmente um templo de cinema gerido por António Preto e com arquitetura de Siza Vieira. É mais do que deslumbrante, apaixona.

Por fim, foi ainda um ano de ausentes. Portugal não viu Candidato Perfeito (apenas chegou nos clubes de vídeo virtuais), de Jason Reitman, lição política sobre o caso Gary Hart, nem tão-pouco A Mentira Perfeita, thriller de Bill Condon, com a Ian McKellen e uma insuperável Helen Mirren, mas o mais grave é ficarem de fora os tão badalados Monos, de Alejandro Lanes; The Souvenir, de Joanna Hogg; ou The Last Black Man in San Francisco, de Joe Talbot. Cada vez estreiam mais filmes, cada vez estreia mais lixo para fazer número...

Almanaque de momentos do ano

O cameo do ano: Lídia Franco em 6 Underground

A atriz portuguesa tem uma surpreendente participação em 6 Underground como uma idosa ternurenta que é visitada por Manuel Garcia-Rulfo, um dos protagonistas desta obra de Michael Bay. O filme está a ser a visto por milhões na Netflix e não deixa de ser um feito para Franco, que nas duas pequenas cenas está num tom certíssimo. A anterior experiência internacional da atriz tinha sido no ainda inédito The Man Who Killed D. Quixote, de Terry Gilliam, no qual contracenava com Adam Driver. Nas redes sociais, a atriz já veio criticar a postura do vilão de Star Wars.

O momento "parou tudo": a discussão entre Adam Driver e Scarlett Johansson em Marriage Story

Será porventura a cena que poderá dar o Óscar a Adam Driver, um casal a despejar todo o ódio acumulado, mas em que se sente um amor profundo. É a prova viva do grande talento de Noah Baumbach, cineasta que filma os seus diálogos com uma precisão milimétrica.

O momento musical do ano: Sérgio Praia a cantar Anjo da Guarda em Variações

Está lá tudo. Um ator a passar para o "outro lado", uma versão esplendidamente produzida por Armando Teixeira e um cineasta a filmar um ídolo nacional com o coração (e o bom senso) nas mãos. Depois dos Humanos, foi bem bom ver este ressuscitar de António Variações.

O escândalo do ano: não ter havido tiroteios nas sessões de Joker nos EUA

Previa-se que um filme como Joker, de Todd Philips, pudesse ser "perigoso" nos cinemas americanos. Na semana da estreia, as autoridades montaram um plano de vigilância para evitar ataques. Na verdade, nada se passou. Ou melhor, algo se passou: as pessoas dançaram como Joaquin Phoenix e o filme só teve amor. Goste-se ou não, Joker foi a experiência de cinema nas salas.

A ovação emocional e monumental em Cannes a Especiais

O filme esteve para se estrear em Portugal neste outono mas só vai chegar no começo de 2020. Chama-se Especiais e é uma comédia dramática tão comovente como divertida feita pela equipa de Amigos Improváveis. Quem esteve na sessão de encerramento do último Festival de Cannes percebeu a força sentimental do filme. No final da sessão, foram milhares a aplaudir Vincent Cassel e Reda Ketab. Uma ovação daquelas impotentes e sentida. Demorou muitos minutos e no Palais de Cannes não havia vivalma sem uma lágrima no canto do olho.

A sequência do ano: uma família coreana à procura de rede em Parasitas

Imagine-se uma metrópole inundada. Imagine-se também um apartamento inundado de uma família de classe operária. A família, no meio do pânico, tem uma preocupação: encontrar rede nos seus telemóveis. É com este cinismo que Parasitas, do coreano Bong Joon-ho, se assume como a derradeira das fábulas satíricas da sociedade moderna. Parasitas está agora na calha para repetir o feito de Roma no ano passado: ser nomeado para melhor filme e melhor filme internacional nos Óscares. E vai ganhar a estatueta de melhor filme internacional, sem espinhas...

O regressado: o improvável Joe Pesci, em O Irlandês

O maior comeback do ano não foi Eddie Murphy em Chamem-Me Dolemite ou Ray Liotta em Marriage Story, mas sim Joe Pesci no último de Scorsese, O Irlandês. Pesci é o melhor entre os melhores numa obra que enterra em definitivo o filme de gangsters como o conhecemos. Consta que foi preciso De Niro para o convencer a sair da reforma. Um regresso tão glorioso que agora está na linha da frente para voltar a receber um Óscar.

A boa notícia: Daniela Melchior em The Suicide Squad e Joana Ribeiro em Infinite

Vai ser em 2020 e em 2021 que vamos ter continuação destas notícias. Primeiro soube-se que a jovem Daniela Melchior foi a escolhida por James Gunn para The Suicide Squad, a grande aposta da Warner para 2021, um regresso à galeria dos vilões da DC. Pode ser o papel mais importante de sempre de um português em Hollywood. Boa notícia também para Joana Ribeiro, que depois de ter feito par com Adam Driver em The Man Who Killed D. Quixote (continua por estrear entre nós) tem um pequeno papel em Infinite, filme sci-fi da Paramount com Mark Wahlberg. As coisas estão a acontecer e Cristiano Ronaldo já se candidatou também.

A surpresa: Na Fronteira

Ganhou em Cannes o Un Certain Regard quando poucos esperavam. Um filme de trolls sobre o mal humano numa Suécia de desumanismo e de intolerância. Border/Grans é ainda um objeto inqualificável, algo de uma beleza aterradora, capaz de colocar no mapa o seu realizador, Ali Abbasi. Em Portugal, foi lançado pela Bold, distribuidora que aposta em filmes de culto e que tem feito compras de imensa ousadia.

A desilusão: It Capítulo 2

Numa altura em que parece haver uma recuperação do estado qualitativo do cinema de terror, surgiu uma deceção de todo o tamanho: a sequela de It. Custou acreditar que depois de um potente e criativoIt, o mesmo realizador, o promissor Andy Muschietti, tenha feito uma sequela tão sensaborona e industrial. Nem o palhaço Pennywise redime a coisa... Felizmente, Stephen King na televisão foi muito mais bem adaptado em The Outsider, série já na HBO Portugal.

A sequência de sexo: Midsommar - O Ritual

Restam poucas dúvidas: o novo filme de Ari Lester (presente em Lisboa no MOTELx) foi o acontecimento no que toca a cinema de terror, tendo em Martin Scorsese um dos seus mais ativos defensores. Obra que redefine a ideia de trip total, Midsommar ficará também marcado por uma cena de sexo durante um festival pagão na província sueca. Florence Pugh num momento quente em plena celebração religiosa com dezenas de mulheres nuas à sua volta. Ainda hoje são muitos que não sabem se haverá licença para rir ou tremer nessa sequência...

Melhor diálogo: Na Sombra da Lei

Dois agentes policiais interpretados por Mel Gibson e Vince Vaughn têm os melhores diálogos do ano, algures entre uma subversão de Tarantino e um desejo à Seinfeld. É a arte de S. Craig Zahler. Fica um exemplo de uma das conversas durante uma vigilância:

"- O que é que estamos a fazer aqui!?"

"- Estás a fazer-me essa pergunta como civil!? Porque neste momento somos civis. Neste momento, não somos diferentes de um professor do infantário ou daquele vagabundo que apanha latas na rua."

"- Eu sei onde atirei o meu distintivo ontem... O que é que estamos aqui a fazer?"

"- Estamos a monotorizar um indivíduo suspeito e perceber se ele tem dinheiro de que não precisa."

"- Anchovas!"

Momento de maior embaraço: os filmes portugueses que quiseram ser popularuchos

Obras como Tiro e Queda, produção de Leonor Vieira, Quero-Te Tanto, de Vincent Alves do Ó, Ladrões de Tuta e Meia, de Hugo Diogo, e Portugal não Está à Venda, de André Badalo, foram a prova de que não compensa tratar por estúpido o espectador. Todas elas tiveram confrangedores resultados de bilheteira. Humor pacóvio para público que não gosta de cinema. Miséria total que mostra que o cinema comercial português continua a ser a nossa vergonha. Curiosamente, no mesmo ano, obras como Variações, Snu ou A Herdade tiveram resultados nas bilheteiras infinitamente superiores...

Revelação do ano: Jonah Hill em Mid90's

Mais um filme que só chegou via aluguer no circuito home cinema. A estreia do ator Jonah Hill na realização com Mid90's, carta de amor aos anos 1990 e a toda uma subcultura da juventude skater de Los Angeles. Cinema de ambientes e de reciclagem de nostalgias, Mid90's impôs Hill como uma das novas vozes singulares do cinema americano...

Município omnipresente: Sintra em Frankie e Colour out of Space

Dois filmes de grande atração internacional rodados em Sintra e na sua majestosa serra. Primeiro chegou na seleção oficial de Cannes, Frankie, intricada teia melodramática de Ira Sachs, filmada com a luz suprema (mas sempre subtil) de Rui Poças. Comercialmente, por cá, foi uma catástrofe. Depois, em Toronto, no TIFF, Colour Out of Space, de Richard Stanley, a partir de Lovecraft. Nicolas Cage, em modo doidão numa Sintra a fingir da América profunda. Um senhor filme de género que ainda não tem estreia marcada em Portugal. Dê por onde der, cada vez mais Portugal vai receber produções internacionais. O cash rebate a mostrar que é importante e Sintra a provar todo o seu esplendor cinematográfico.

Birra do ano: Tarantino em Cannes

Foi durante a conferência de imprensa de Era Uma Vez... em Hollywood. Logo depois da pergunta do DN a Leonardo DiCaprio, a repórter Farah Nayeri do The New York Times perguntava a Tarantino por que razão deu tão poucas linhas de diálogo à personagem Sharon Tate. "Eu rejeito essa sua hipótese", disse furioso e recusou responder. Tarantino irritou-se com a insinuação de falta de igualdade de género no seu filme. A arte deste génio não pode mesmo estar presa aos meandros da brigada do "politicamente correto"...

Filme mais esquecido: Coração Negro, de Rosa Coutinho Cabral

Passou despercebido numa estreia comercial reduzida e sem distribuidora. Coração Negro merecia muito mais: uma história sobre um casal em crise de um trauma em elipse na beleza negra e luminosa do Pico. Coração Negro é um filme que nos obriga a olhar para a obra de Rosa Coutinho Cabral, cineasta que aos 60 anos é um símbolo de resistência de um cinema português feminino e lamentavelmente invisível.

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