Recandidatura. O tabu de Marcelo é para levar a sério?

Quatro vozes: dois comentadores políticos e dois cientistas políticos. Da esquerda ao centro-direita. Todos acreditam que o PR não decidiu mesmo o que fará nas presidenciais de 2021.

"Depois da operação à hérnia já não sou o mesmo. Foi de urgência... Isto é muito solitário. Com os meus netos cá não faria isto. Em 2020 decido... Dois anos, hei de cumpri-los bem. Mas mais cinco anos? Não sei..."

Foi isto, sem tirar nem pôr, que o Presidente da República disse ao diretor do DN, Ferreira Fernandes, na reportagem publicada na edição de comemoração dos 154 anos com que o jornal chegou ontem às bancas.

Os comentadores políticos Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes (parceiros de longa data no Bloco Central, da TSF, sendo Marques Lopes também cronista no DN) e os cientistas políticos António Costa Pinto e André Freire, ouvidos pelo DN, concordam todos num ponto: para eles de facto Marcelo Rebelo de Sousa ainda não decidiu se será ou não recandidato.

Mas concordam também com outro ponto da declaração - naquilo que ela tem de novo: o inquilino de Belém parece ter atirado para segundo plano os argumentos políticos que norteavam a sua decisão (chegou a dizer que não se recandidataria se a tragédia dos incêndios de 2017 se repetisse) e passou a explicar-se com argumentos exclusivamente pessoais (saúde, família).

Nas quatro vozes ouvidas pelo DN estes são os pontos comuns - e depois há as divergências. Os comentadores políticos acreditam nas razões pessoais mas também continuam a valorizar as questões políticas - na verdade uma única questão política: o mapa político que resultar das eleições legislativas do próximo ano (que o próprio Marcelo já anunciou que serão em 6 de outubro).

Segundo Pedro Adão e Silva, um fator importante na ponderação presidencial deverá ser o facto de o PS obter ou não nessas eleições maioria absoluta. Se o conseguir, "as funções do Presidente irão ficar um bocado esvaziadas" porque o centro de todo o poder estará em São Bento e não, como agora, dividido entra a residência oficial do primeiro-ministro, a Assembleia da República e o Palácio de Belém.

Além disso, as legislativas poderão ter um efeito de ciclone eleitoral à direita - "uma verdadeira refundação", com a possibilidade até do surgimento de novos movimentos na direita mais radical - e aí Marcelo terá de decidir que papel quererá ter.

No seu entender, as razões pessoais em que agora o PR centra o seu processo de decisão têm também uma virtualidade eleitoral: "despolitizam" o processo, ou seja, "colocam-no acima das clivagens esquerda-direita, o que favorece a obtenção de apoios mais transversais". Marcelo, recorde-se, foi eleito em janeiro de 2016 com 52% dos votos (cerca de 2,4 milhões de votos, em números absolutos ) .

Já para Pedro Marques Lopes, em última instância as decisões dos políticos são sempre, nos momentos finais, ditadas exclusivamente por razões pessoais. "Um político quando chega à altura de decidir não pensa senão em si mesmo."

Contudo, Marques Lopes também acha que uma parte importante da equação presidencial residirá nas eleições legislativas - e na possibilidade de estas ditarem uma derrocada do espaço do centro-direita. "O cenário político ficará completamente desequilibrado, com grande vantagem para a esquerda. E acho que Marcelo Rebelo de Sousa tem a noção de que se se for embora de Belém ficará ainda mais desequilibrado."

Quanto a António Costa Pinto e André Freire, ambos valorizam os argumentos pessoais usados pelo PR.

Costa Pinto afirma, por exemplo, que o Presidente da República "tem mostrado um enorme carisma no exercício das suas funções", e, além do mais, até as exerce de forma "muito física". Ora - acrescenta -, se quiser continuar em Belém, "a continuidade do seu carisma será essencial, só que isso exige muita disponibilidade pessoal". Dito de outra forma: sem vontade, Marcelo poderia até ser reeleito mas seria um outro Marcelo a ocupar o lugar.

André Freire, por seu turno, começa por afirmou que "leu a sério" a declaração do Presidente, isto é, "interpreta-a pelo seu valor facial". Marcelo - afirma o politólogo - "tem consciência de que tem 70 anos e 70 anos são 70 anos. Há imponderáveis, como se viu com a operação à hérnia". Enfim: "Está a dizer que não decidiu e isso é inteiramente legítimo e compreensível." Em 2020 se perceberá.

O que diz a história?

A memória, nestes casos, diz que nenhum PR anunciou a recandidatura com mais de três meses de antecedência em relação à data das eleições. A notoriedade conquistada no exercício do mandato dispensa campanhas prolongadas. Que, aliás, precisamente por serem prolongadas, desgastam mais do que beneficiam.

Ramalho Eanes, o primeiro PR eleito após o 25 de Abril, afirmou que tentaria um segundo mandato em setembro de 1980 e foi reeleito em 7 de dezembro do mesmo ano. Mário Soares avançou em outubro de 1990 e as eleições foram em 13 de janeiro do ano seguinte; Jorge Sampaio confirmou em outubro de 2000 e foi reeleito em 14 de janeiro de 2001. Em 27 de outubro de 2010, Cavaco anunciou estar disponível para um segundo mandato. Foi reeleito em 23 de janeiro de 2011.

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