Francisco Guerreiro: "As ideias do PAN só são extravagantes porque nunca foram debatidas"

Mudar a forma como produzimos e consumimos, discutir a atribuição de fundos à agricultura e pecuária, ajudar a construir um novo modelo de sustentabilidade. São algumas das tarefas ambiciosas que Francisco Guerreiro, o eurodeputado do PAN, vai tentar levar a cabo em Bruxelas e Estrasburgo e que já defendeu em Monsaraz, à margem de um debate sobre ecologia inserido no Summer CEmp, a escola de verão da Comissão Europeia.

O PAN [Pessoas-Animais-Natureza] foi o terceiro partido mais votado nas eleições europeias por eleitores abaixo dos 25 anos, segundo uma sondagem da Universidade Católica. A média de idades dos 40 alunos do Summer CEmp, aqui reunidos em Monsaraz, é de 23 anos. É muito importante para vocês agarrar este eleitorado?
Mais do que agarrar, é muito importante passar mensagens que nós acreditamos que sejam relevantes para a sociedade. E, pelo que percebemos, os jovens - e não apenas em termos de faixa etária mas também de mentalidades - são os que têm mais predisposição para mensagens novas que ecoam com os problemas da sociedade. Sentimos que isto também se manifesta em faixas etárias mais elevadas, até pelos resultados que tivemos nas eleições europeias, mas dos 25 para baixo tem sido mais fácil passar esta mensagem. É uma mensagem pragmática, muito realista e concisa. No fundo, mais do que agarrar eleitorado, queremos passar ideias e propostas e chamar a sociedade a debatê-las.

As redes sociais também ajudam a passar essa mensagem...
Sim. De um modo muito coerente, não entrando em discursos extremados de redes sociais, temos tido uma postura muito construtiva que tem sido correspondida de modo constante.

Foi uma surpresa para o PAN, essa constatação de que foi o terceiro partido com mais eleitores abaixo dos 25 anos? Ou já esperavam isso?
Não foi uma surpresa. Foi mais uma realização. Não ficámos surpreendidos quando fomos eleitos, porque tínhamos sentido ao longo dos anos e da campanha uma proximidade muito grande. Muitas pessoas vinham-nos dizer que iriam votar e iriam chamar outras a votar. Mesmo eleitores que diziam ser de outros partidos ou que nunca tinham votado ou já não acreditavam na política. O trabalho que temos vindo a fazer tem demonstrado isso: é possível fazer uma política diferente, não egocêntrica ao ponto de dizer que somos melhores. Nós somos diferentes e isso tem sido demonstrado pelos quatro anos de trabalho na assembleia.

"Às vezes sentimos que precisam de nos arrumar. Estes gajos não são de esquerda nem de direita. Têm de ser de qualquer coisa."


O PAN acredita que agarrou uma franja de eleitorado que não se revê na dicotomia esquerda/direita? O Francisco Guerreiro falou da "guerrilha político-partidária em que não embarcamos".
Nós achamos que sim. Grande parte da população já nem vota, está muito desacreditada da política tradicional. Do debate agressivo, da guerrilha político-partidária, do autocentrismo do "eu é que tenho razão". Seria um exercício curioso saber isto: se as propostas que entram no Parlamento nacional não tivessem nenhum tipo de identificação, será que os partidos as votavam da mesma maneira, sabendo que elas tinham um determinado rótulo ou cor política. Nós vemos que, muitas vezes, boas propostas são rejeitadas porque vêm da outra esfera político-partidária. E nós temos feito um caminho diferente, votamos proposta a proposta. Tendo a nossa matriz ideológica muito bem definida, como é óbvio, mas vemos caso a caso. Há boas matérias à direita, há boas propostas à esquerda. E, muitas vezes, somos nós sozinhos a votar e a apresentar propostas que são rejeitadas por ambos os lados.

O PAN vive bem com essa forma de estar na política, tão pouco tradicional por cá, de votar propostas de um lado ou do outro da esfera ideológica tradicional dos partidos?
Às vezes sentimos que precisam de nos arrumar. E nós viemos furar isso. "Estes gajos não são de esquerda nem de direita. Têm de ser de qualquer coisa." Mais do que estarmos nesta dicotomia, que tem a sua conceção histórica, que nós reconhecemos, e tem as suas especificidades, sobretudo na distribuição da riqueza e na presença, ou não, do estado em algumas áreas, depois nas grandes questões e na grande filosofia político-partidária que nos parece relevante para o século XXI, isso falha. Mais do que entrarmos na guerrilha político-partidária e ideológica de esquerda e de direita, temos a perceção que é importante falar dos grandes temas da sociedade e apresentar propostas muito concretas, que muitas vezes se distanciam desta visão dual.

Não temem com isso que o partido seja considerado pouco coerente? Ora vota para um lado ora vota para o outro...
Não incomoda nada. Quem lê o manifesto do partido ou as propostas ou o programa político - que vamos apresentar no dia 30 - claramente percebe o que nós defendemos. Muitas vezes esses argumentos vêm de quem nunca leu uma linha do nosso pensamento político. Temos feito um caminho de comunicação que se aproxima muito dessa matriz: independentemente de as pessoas concordarem ou não com as nossas propostas, temos de expô-las. Falamos com as pessoas na rua, abrimos as nossas concelhias, comunicamos nas redes sociais... E os meios de comunicação também estão a começar a abrir-se para a importância de a democracia ser reforçada através da apresentação de novas ideias de um modo não populista. Achamos que há mais-valias para a democracia se houver mais debate sobre ideias que às vezes até podem ser tidas como... extravagantes. Mas são extravagantes porque nunca foram debatidas. Só são ideias revolucionárias porque nunca foram debatidas na esfera comum.

"É prioritário fazermos a ponte entre os factos climáticos e a realidade. Não podemos continuar a produzir e a consumir como temos feito até aqui. Isto são factos científicos."


Como a ideia de um Serviço Nacional de Saúde para cães e gatos? Ou a entrada de animais de estimação em cafés e restaurantes?
Há uma grande diferença entre as ideias que comunicamos e as medidas que propomos e aquilo que é publicado nos meios de comunicação social. A entrevista à Visão foi muito clara: um trabalho extenso, em que o André Silva falou de muitas temáticas e, entre outras coisas, falou de um tipo de serviço público de ajuda a animais. E obviamente que, quando se puxa para o título uma interpretação errónea, o que se está a fazer é a vender o próprio artigo. E isto tem acontecido com muitas temáticas.

Mas o [deputado] André Silva disse aquilo. O jornalista da Visão não lhe colocou palavras na boca.
Falou de "um tipo de serviço nacional" e depois especificou, dizendo que podiam ser algumas clínicas. É um serviço público de apoio a animais de companhia. E no meio de uma entrevista com muita matéria, em que se fala de corrupção, transparência, melhoria de serviços públicos, etc., trazer ao título uma expressão daquelas é fazer clickbait. Até porque a medida não era nada de novo. E aconteceu o mesmo com a possível entrada de animais em estabelecimentos comerciais. Já se falava até de animais a entrar na cozinha, o que nunca esteve proposto. Por isso acho que às vezes há uma má interpretação jornalística daquilo que são conteúdos políticos. Nomeadamente em títulos para colher likes.

O resultado das últimas eleições europeias traça um panorama bastante diferente em Estrasburgo. O PPE, com 182 deputados, e os Socialistas & Democratas, com 152, perderam muita força. Os nacionalistas e os liberais cresceram, assim como a família de Os Verdes/Aliança Livre Europeia (da qual o PAN faz parte), que tem agora 74 deputados. Com quem é que o PAN se vê a fazer acordos?
Vamos ter de os fazer com as três grandes famílias que agora decidem o futuro da Europa: o PPE, os socialistas e os liberais. Temos de ter em consideração que, matematicamente, Os Verdes só contarão caso haja dissidências entre estes partidos ou caso uma destas grandes famílias não queira negociar. Mas o que vemos é que, mais uma vez, estas três famílias, que emanam de toda a Europa, têm muitas vezes uma visão muito antagónica dos problemas reais das pessoas e de como os solucionar. Nós temos uma visão completamente diferente de alguns movimentos que se dizem pró-Europa e não são, onde o Bloco de Esquerda e o PCP - que não conseguem acrescentar valor porque não o querem fazer - se incluem. O que queremos fazer é exatamente o contrário: tentar encontrar espaço de diálogo onde possamos (pese embora discordemos da generalidade do que é proposto) incrementar medidas para melhorar a União Europeia. Nós somos pró-Europa. É nesse sentido que vamos debater a PAC e vamos fazer que os contributos da Comissão de Ambiente sejam integrados na Política Agrícola Comum - o que não está ainda garantido. Queremos que a PAC tenha uma vertente de alterações climáticas. Tudo o que tem que ver com essas questões de fundo, trabalharemos para acrescentar valor. Não nos serve de nada estar em quarto lugar nas instituições europeias e depois não influenciar positivamente o resultado final.

"Falta coragem política para falar dos temas como devem ser falados. Nomeadamente o facto de a agricultura e a pecuária em Portugal serem o maior consumidor de recursos hídricos."


Vê-se, pontualmente, a votar contra algumas iniciativas de deputados da família política europeia do PAN?
Claro. Isso faz parte da nossa forma de estar. Foi, aliás, um pré-acordo que fizemos e tivemos de garantir. Independentemente de, na generalidade, votarmos favoravelmente nas propostas que nos parecem razoáveis, se houver alguma matéria que esteja contra o nosso ideário votaremos contra. Essa liberdade é dada pelos Verdes europeus, e por isso é que nós integrámos essa família. Independentemente de estarmos em consenso nas grandes temáticas, haverá uma ou outra em que pontualmente estaremos contra. Ou votaremos a favor e o grupo contra.

Entretanto, o Francisco será o primeiro vice-presidente da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Parlamento Europeu. É uma função relevante, logo no primeiro mandato. E uma conquista para o PAN.
Foi uma negociação dentro de Os Verdes europeus. A possibilidade de terem o cargo de primeiro vice-presidente vem na sequência do resultado das eleições e da aplicação do método D'Hondt. É uma posição relevantíssima, porque não só é a primeira vez que Os Verdes têm um partido grande que representa o movimento ambientalista europeu como acrescentamos muito valor a esta comissão. O que estava em discussão é quem é que iria ser nomeado para exercer o cargo. Podemos inserir o tema das alterações climáticas, que é super-relevante, dentro da Comissão de Agricultura, mas também a questão dos direitos dos animais. Poderemos, por exemplo, propor visitas a setores que estão a ser desconsiderados. E podemos chamar à discussão uma série de matérias. E, claro, é também uma questão de imagem.

Os Verdes europeus têm 74 eurodeputados. Foi uma discussão difícil?
O PAN teve um statement. Não foi difícil porque fomos bastante persuasivos. E Os Verdes europeus percebem a importância de finalmente terem um partido ambientalista português na sua família política.

Houve muitos candidatos ao cargo?
Houve um candidato francês forte. Pelas especificidades que a França tem, ao nível da PAC, foi um competidor à altura. Mas mediante as vantagens para o PAN e para Os Verdes europeus, conseguimos o cargo e isso foi bem aceite pelo meu congénere francês. E estamos a trabalhar em equipa.

"O que nos distingue de Os Verdes é o facto de irmos a eleições sozinhos. Não sabemos se o PEV vale mil votos ou se só valem cem."


Que temas, entre as prioridades do PAN, gostava de levar para esta comissão? Bem-estar animal? O impacto da pecuária na gestão dos recursos hídricos?
Sim. Uma das coisas que falta acrescentar nesta comissão é a questão da transnacionalidade do bem-estar animal. A interligação com o bem-estar e proteção de todos os animais. A Comissão de Agricultura está intrinsecamente ligada a essa temática. De um modo bastante racional, bastante moderado, vamos acrescentar isso. Queremos garantir que a União Europeia pode ser um baluarte na evolução de matéria legislativa neste campo. Eu, estando na comissão, não estou a representar o meu partido nem Os Verdes europeus, mas é sempre possível, dentro das nossas funções, abrirmos o caminho para o debate de novas ideias.

A agricultura e a pecuária representam nove por cento das empresas em Portugal. São 35 mil empresas, cerca de 15% do volume total de negócios no país. Sendo vice-presidente de uma comissão como agricultura e desenvolvimento rural e tendo entre as vossas prioridades o bem-estar animal e a gestão de recursos hídricos neste setor da economia, que peso poderá ter na discussão de questões como os fundos comunitários para estas áreas?
O prioritário é fazermos a ponte entre os factos climáticos e a realidade atual. Não podemos continuar a consumir como temos feito até aqui. Isto são factos científicos. Não tem nada que ver com o PAN, com Os Verdes europeus ou com a União Europeia. Tem que ver com os factos e os dados que nos são mostrados pelo IPCC [Intergovernmental Panel on Climate Change], pela FAO [Food and Agricultura Organization, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura], por uma série de organizações independentes das ações políticas. E esses factos mostram que não podemos consumir, nem produzir nem distribuir da mesma maneira.

E o que espera fazer, em concreto?
Vamos tentar fazer pontos de transição entre o modelo atual e um modelo realmente responsável e sustentável. E é aí que nós achamos que falta coragem política para falar dos temas como eles devem ser falados. Nomeadamente o facto de a agricultura e a pecuária em Portugal serem o maior consumidor de recursos hídricos. Estamos a falar de cerca de 80% da água gasta em Portugal. E isso não é falado. Trata-se de agricultura intensiva. Pecuária intensiva. Degradação dos solos. Sobrecarga dos solos com agrotóxicos. O que temos de apresentar aos produtores e às pessoas que trabalham neste setor é a ideia de que não podemos continuar a trabalhar como trabalhamos. É nesse sentido que achamos que os fundos europeus devem conseguir dar a capacitação para estes produtores transitarem para modelos mais ecológicos, responsáveis e sustentáveis.

Por exemplo?
Transitar para modelos de produção extensiva de agricultura biológica. Ou mesmo outras indústrias que estão a florescer e até trazem mais rendimento e fixação no interior. Falo de alternativas aos laticínios, por exemplo. As bebidas vegetais, equiparadas aos laticínios, que estão a ter um incremento grande no mercado. Há mais queijos vegetais, gelados vegetais, bebidas vegetais, etc. Isso poderá ser uma oportunidade de emprego e capacitação para estas pessoas e para estas empresas transitarem para um modelo mais sustentável. Claro que o mercado funcionará da melhor maneira e as empresas são livres para operar no que desejarem, mas se houver incentivos para esta transição e os produtores perceberem que terão um papel ativo e vão ganhar mais dinheiro neste modelo ecológico, achamos que isso é positivo.

"Vamos aumentar o número de deputados. Parece-nos uma certeza. Tendo em conta o resultado nas europeias, o que temos feito e o programa que vamos apresentar, vamos crescer. O nosso objetivo é ter um grupo parlamentar."


Espera poder criar condições para a atribuição desses incentivos, através de fundos comunitários?
Sim. E foi também por isso que escolhemos a Comissão de Orçamento, onde também estamos presentes. Para poder garantir que há essas propostas e que elas podem ser discutidas. Os dados que temos causado aos ecossistemas são muito estruturais e é muito difícil reverter esta situação, mas temos de traçar uma linha vermelha e começar a trabalhar para mitigar esses danos. E é nessa perspetiva que queremos alocar estas verbas, para ajudar estas pessoas e empresas a fazer a transição.

O PAN está a crescer. Daqui a cinco anos acha que terá mais alguém do partido ao seu lado no Parlamento Europeu? Sente o peso da responsabilidade para 2024?
Não. Temos feito o nosso trabalho de forma muito linear.

Mas as coisas estão a acontecer de forma muito rápida. Até para si, que entrou no partido em 2012 e é membro da Comissão Política Nacional desde 2013 e agora chega a eurodeputado, depois de ter concorrido também às legislativas e às autárquicas.
Temos respondido sempre às responsabilidades. Eu entrei no partido com uma crença vincada de que podemos fazer muito e melhor. E assim fizemos. E temos crescido. Nas autárquicas [2017] tivemos um crescimento muito grande. O resultado nas europeias deste ano foi a concretização deste trabalho diário. E vamos continuar a trabalhar. Mas a responsabilidade é a mesma.

Sente que vieram dar resposta a uma fatia do eleitorado que não se revia no único partido de matriz ecologista que havia em Portugal, o PEV? O que distingue o PAN de Os Verdes?
Antes de mais, o que nos distingue é o facto de irmos a eleições sozinhos. É impossível aferir quanto vale o Partido Ecologista Os Verdes porque nunca foram a eleições sozinhos. Não sabemos se valem mil votos ou se só valem cem. Só isso, por si, já é muito relevante. Mas há também questões ligadas a uma visão muito antropocêntrica do mundo. Uma visão política assente à esquerda ou à direita tem sempre uma conotação muito antropocêntrica em que nós não nos revemos. Mas nós não nos comparamos com outros partidos. Todos têm o seu papel relevante na sociedade. Mais do que debater quem é o melhor ou quem tem mais ou menos, queremos debater as propostas pelas propostas, a ideia pela ideia, não atacando pessoas nem partidos, mas apenas apresentando as nossas pessoas e as nossas propostas. E achamos que isso é uma maneira diferente de estar na política, em vez de entrar pela guerrilha político-partidária, que tem afastado muita gente. As pessoas estão muito cansadas desta ideia da política como algo para ganhar influência ou recursos financeiros. Nós só queremos é debater as propostas e chamar as pessoas ao processo democrático. Se quiserem votar no PAN, votam. Se quiserem votar nos outros partidos, votam. Se quiserem criar o seu próprio movimento político, força. O que é importante é participarem e queremos contribuir para isso. E é isso que nos mantém na política: acreditar que a democracia pode ser mais e pode ser melhor.

Estamos a um mês e meio das eleições legislativas. Acha que o PAN vai aumentar o número de deputados na Assembleia da República?
Sim, vamos aumentar. Isso parece-nos uma certeza. Não fazemos futurismo, mas tendo em conta o resultado que tivemos nas europeias e o trabalho que temos feito e o programa que vamos apresentar no dia 30 de agosto, muito extenso e muito bem definido, parece-nos que vamos crescer.

Qual é o objetivo do PAN em número de deputados?
O nosso objetivo é ter um grupo parlamentar. Para termos as mesmas regalias parlamentares que os restantes partidos. Para isso precisamos de ter mais do que dois deputados.

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