Terrorismo em Angola aplacado

"Terminou com êxito a primeira fase de uma operação de estreita colaboração entre o Exército e a Força Aérea, tendente a desarticular e reduzir as atividades terroristas", relatava neste dia 30 de agosto de 1961 o DN. Em causa estavam movimentações "perigosas" levadas a cabo em Angola, que o governo informava estarem agora serenadas.

Logo o título entregava claramente a mensagem o que importava passar: "Uma vasta região do Norte de Angola vai regressar à tranquilidade devido à ação conjugada" dessas Forças Armadas na Serra de Canda, região que "servia de refúgio aos terroristas em trânsito ou em ação" contra territórios vizinhos.

O levantamento dito terrorista era consequência da independência do Congo belga, um ano antes, que enviara ondas de choque e contágio pelos territórios angolanos mais próximos, visíveis em movimentos revoltosos ou subversivos - ainda não totalmente entendidos na Metrópole como os primeiros ventos de mudança. Eram esses os primeiros passos para a sublevação que aconteceria meses depois, materializando-se na guerra colonial que acabaria por dar a independênia aos territórios ultramarinos.

Apesar de não pesar ainda devidamente a importância dos factos, de Lisboa seguiu um reforço de homens para combater esses primeiros revoltosos. Da sua atividade, nesses dias bem-sucedida, dava conta o DN, que informava que, terminada a junção das forças, começaram as "operações de limpeza para fazer regressar à tranquilidade esta importante região do Norte".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.