Premium Cinco sugestões para a rentrée (e outra para o adeus às férias)

De Shakespeare no Porto à estreia do jovem Lorenzo Viotti como maestro titular da Orquestra Gulbenkian e à grande trilogia de Fausto Bordalo Dias. Antes de tudo, o fim dos festivais de verão.

De saída das férias e com a rentrée à porta, antes de olhar para toda a temporada que aí vem, estas são algumas sugestões na passagem entre as férias e o regresso.

O Festival F em Faro é, a par do Milhões de Festa e do Avante!, um dos festivais que fecham o verão. Começa nesta quinta-feira e, até sábado, faz uma espécie de cartografia da música portuguesa, com espaço para diferentes tribos de ouvintes.

Do jazz de Salvador Sobral, que também atuará no seu projeto Alexander Search, com Júlio Resende, Daniel Neto, André Nascimento, Joel Silva, ao fado (e não fado) de Cristina Branco e Katia Guerreiro com a Orquestra Clássica do Sul, ao rock de Legendary Tigerman e dos The Gift ou ao pop dos D.A.M.A e de Diogo Piçarra; do metal dos Moonspell à eletrónica de Surma, ou até ao rap de Piruka, contam-se ainda Dead Combo, Blaya, Luís Severo, Rodrigo Leão, Manel Cruz, Elisa Rodrigues ou Janeiro.

Aos diferentes palcos, que atravessam Faro, juntam-se ainda as próprias ruas, que receberão espetáculos como Varredor de Marés, para a infância, encenado por Rita Neves, e a Banda às Riscas, grupo musical de animação de rua do Porto.

Shakespeare no Porto e Arthur Miller por grande parte do país

Subindo em direção a norte, paragem em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, para Entrada Livre nas salas. Como já é habitual, o teatro recebe os seus espectadores no começo da temporada abrindo as suas portas por bilhetes a custo zero. No dia 15, às 20.00, chega à Sala Garrett Teatro, com texto e encenação do francês Pascal Rambert. Ao palco sobem Beatriz Batarda, Rui Mendes, Cirila Bossuet, João Grosso e Lúcia Maria.

No mesmo dia, e no seguinte, estará também em cena À Espera de Godot, uma das maiores obras de Samuel Beckett, com encenação de David Pereira Bastos, bem como Um Espectáculo para os Meus Filhos, de Rui Pina Coelho. Na noite de 15 os Clã dão um concerto na varanda do teatro. Só no dia 16 se poderá ver Perigo Feliz - École des Maîtres, do encenador e diretor daquela casa, Tiago Rodrigues.

Mais acima, em Viseu, precisamente no Teatro Viriato, a 14 e 15 de setembro, sobe ao palco o espetáculo dos Artistas Unidos a partir do texto de Arthur Miller Do Alto da Ponte , encenado por Jorge Silva Melo. O texto situa-nos nos portos de Nova Iorque. No palco, lê-se na apresentação, "falar-se-á de emigrantes, de escolhas difíceis, dos anos 1950, dos dias de hoje". A peça segue para a Guarda, depois Leiria, Cartaxo, Vila Real, Bragança, Ponte de Lima, Aveiro, Porto e, já em 2019, chega a Lisboa.

Depois de Macbeth, Otelo, de Shakespeare, também numa encenação de Nuno Carinhas a partir de uma tradução do texto assinada pelo poeta Daniel Jonas (que já traduzira Macbeth e Como Queiram), estará no Teatro Nacional São João, no Porto, de 28 de setembro a 13 de outubro.

Numa programação complementar, Maria Sequeira Mendes, professora de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, orientará um seminário em torno desta obra de Shakespeare, intitulado Entra Otelo Fora de Si. São nove horas, que decorrerão nos sábados de 22 de setembro e 6 de outubro.

A estreia de Lorenzo Viotti e a revisitação de Fausto

De volta a Lisboa, o dia 4 de outubro ficará marcado pelo primeiro concerto de Lorenzo Viotti como maestro titular da Orquestra Gulbenkian: Viotti dirige Mahler. O jovem maestro franco-suíço de 28 anos estreou-se à frente da Orquestra Gulbenkian em janeiro de 2017, mas só em outubro desse ano seria anunciado como substituto do inglês Paul McCreesh. O Coro e a Orquestra Gulbenkian vão interpretar este mesmo concerto - composto pela Canção do Destino, op. 54 de Johannes Brahms, e a Sinfonia n.º 1 em Ré maior de Gustav Mahler - também no dia 6 de outubro.

Nome fundamental da música popular portuguesa, Fausto Bordalo Dias revisita a sua trilogia sobre a diáspora lusitana, composta pelos discos Por Este Rio acima (1982), Crónicas da Terra Ardente (1994) e Em Busca das Montanhas Azuis (2011). A 26 de outubro, no Grande Auditório (já esgotado) do Centro Cultural de Belém, Lisboa, e a 1 de dezembro na Casa da Música, Porto, o cantautor português fará essa peregrinação (a obra de Fernão Mendes Pinto inspira o primeiro dos discos) que atravessa canções como Lembra-Me Um Sonho Lindo ou Ao Longo de Um Claro Rio de Água Doce. "Fausto compõe cada álbum de originais como quem conta uma história, da primeira à última canção. Dizem os seus admiradores que cada um dos seus discos devia ser escutado de guião em punho", como quem vai à ópera, escreve a promotora dos concertos, Ao Sul do Mundo.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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