Já não se brinda a Estaline

Estive há umas semanas em Gori, a cidade de Estaline. Ainda lá está a casa onde nasceu e também o museu que lhe é dedicado, afinal estamos a falar do homem que liderou a União Soviética durante três décadas. Georgiano, de seu nome de batismo Iossif Vissarionovitch Djougachvili, começou por ser chamado Sosso em criança, Koba no início das atividades revolucionárias e finalmente Estaline, ou "homem de aço", quando se começou a aproximar do topo do aparelho comunista, que acabaria por tomar apesar da desconfiança de Lenine, o homem que transformou o Império Russo no primeiro país comunista do mundo.

Sinceramente, não me pareceu que houvesse muita admiração por Estaline hoje na Geórgia, mesmo que nos primeiros anos da independência a população de Gori tenha resistido aos planos das novas autoridades para derrubar a grande estátua que ficava na praça principal. Resta agora um pedestal vazio (mas permanece intacta a pequena estátua junto ao museu), e do culto a Estaline não há sinais, mesmo que a sua carruagem pessoal gere curiosidade e uma loja venda garrafas de chacha, a aguardente georgiana, com a forma de busto do antigo líder soviético, com o inconfundível bigode.

Gori esteve ocupada pelas tropas russas em agosto de 2008, durante a breve guerra russo-georgiana. O governo de Tiblíssi tentou recuperar o controlo sobre as repúblicas separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia, rebeldes desde o fim da União Soviética, e Moscovo veio em socorro destas, derrotando os militares georgianos. De certo modo foi também uma punição russa à ambição georgiana de integrar a NATO e a UE. Os soldados russos terão até obrigado os soldados georgianos capturados a fazer brindes a Estaline, forma de humilhação e também de relembrar que Moscovo já mandou em Tiblíssi, fosse no século final dos czares, fosse na era comunista.

A Geórgia, porém, não desistiu do seu destino Ocidental, e os edifícios públicos até ostentam bandeiras da UE. A relação de forças entre o pequeno país da Transcaucásia e a gigantesca Rússia é evidente, mas também é evidente a força da identidade nacional georgiana, que sobreviveu às arremetidas de impérios como o romano, o bizantino, o árabe, o persa, o otomano ou o russo (este, de início, apresentou-se como o protetor da cristã Geórgia, rodeada por potências islâmicas). Há quase década e meia que não existem relações diplomáticas e Moscovo reconheceu mesmo, entretanto, a independência sul-osseta e abkhaze.

Não tive dúvidas, pelo que vi em Tiblíssi, Gori ou Batumi, que é enorme a desconfiança em relação a Moscovo, e ainda mais de quem manda no Kremlin. E há aqui e acolá umas frases ofensivas contra a liderança russa pintadas no chão ou muros, tal como são comuns as bandeiras ucranianas expostas em varandas e janelas em sinal de apoio à outra ex-república soviética invadida em fevereiro deste ano. Contudo, conversei com russos que, sem abertamente criticarem os seus governantes, me disseram preferir viver em Tiblíssi. E que não sentiam animosidade por parte dos georgianos. Pelos vistos, esse sentimento de segurança e de à-vontade em Tiblíssi (desde que não se elogie Vladimir Putin) é bem conhecido de quem vive na Rússia e daí as recentes imagens de filas para atravessar a fronteira rumo à Geórgia, sobretudo depois das notícias de reforço do recrutamento para as unidades militares a combater na Ucrânia. A capital georgiana tem os seus encantos, desde os bairros históricos onde há banhos velhos de vários séculos, até ao cosmopolitismo da Shota Rustaveli, a principal avenida, mas quem conhece Moscovo ou São Petersburgo sabe bem como são cidades fascinantes, pelo que não é turismo que esses russos procuram agora, mesmo tendo em conta os famosos vinhos georgianos e a riqueza da gastronomia e a tradição na era soviética de destino de férias para as elites do regime.

Que Tiblíssi, a pró-NATO e pró-UE, se tenha tornado refúgio primeiro para os russos que discordam da intervenção na Ucrânia e, agora, para aqueles que não querem combater é sinal de que nem todas as guerras se ganham com tanques e aviões. E certamente não é para brindar à memória de Estaline que os russos chegam desta vez à Geórgia. Talvez venham em busca de uma capital que historicamente nunca desistiu de querer ser europeia, com todos os valores que isso encerra em si. O país de Estaline pode ensinar algo ao país de Putin.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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