O princípio da leviandade

Ao mesmo tempo que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tenta mobilizar os Estados para o dever de enfrentarem o desafio do ambiente, na abertura da 74.ª Assembleia Geral da ONU, os governantes dos EUA e do Brasil, esquecidos do diálogo esperançoso que, por cartas, tiveram Jefferson e o Abade Correia da Serra, ignoram que, se o planeta pode ser destruído pela leviandade de qualquer suposta grande potência, não há um só Estado com a capacidade necessária para enfrentar os desafios do globalismo da nova circunstância sem governança.

Desde que a jovem Greta Thunberg, agora submetida a crítica, em 15 de março, assumiu a intervenção, inspirou, em 105 países, a adesão avaliada em mais de quatro milhões de pessoas, de regra jovens, que se manifestaram no mesmo sentido, antecedendo a sua recente intervenção na ONU. Aqui foi insistir na declaração que, submetida a crítica ou sem ela, correu o mundo: "Nós mostramos o que podemos fazer, e agora pertence aos governantes mostrarem o que podem fazer." A resposta ali recebida de que "é uma falácia dizer que a Amazónia é património da humanidade", ou que a resposta aos perigos tem de ser patriótica e não cooperativa, significa o esquecimento leviano de que é o planeta Terra que é património comum da humanidade.

Neste ponto, o presidente Macron, que tem suficientes problemas internos, merecia melhor atenção quanto às suas preocupações ambientais. Não se trata de supremacias ou de colonialismo, trata-se da "terra casa comum dos homens". Depois, a questão da paz, sem necessidade de relembrar todas as violações em curso, mostra especial gravidade no que toca às tensões com o Irão, que a incerta política dos EUA fez derivar para inquietação mundial.

Não pode esquecer-se que esteve a ponto de os EUA desencadearem um ataque contra o Irão, que o presidente suspendeu dez minutos antes da hora marcada, por se dar conta da dimensão do desastre humano que causaria. Acreditando que o Estado-Maior de qualquer potência pode não ter informado o seu comandante supremo dos efeitos de uma tal ação projetada, em algum passo do processo funcionou a leviandade.

O secretário-geral da ONU, atento ao pluralismo das ameaças sobre as quais tem de exercer o poder da palavra, e próximo da já anunciada reunião da Assembleia Geral que se iniciou em 23 de setembro, disse: "Não penso que tenhamos hoje uma ameaça mais séria para a paz e segurança do mundo do que a do Golfo. É claramente um domínio no qual o Conselho de Segurança tem um papel essencial a desempenhar." Como o presidente dos EUA não reparou que o Irão tem um passado histórico que lhe inspira responder que quer a paz mas não teme a guerra, é seguramente oportuna a esperada intervenção de Emmanuel Macron em Nova Iorque, por ser urgente tentar arrefecer a pressão dos EUA sobre o Irão, permitindo a este um apaziguamento da sua própria estratégia de resistência.

O ataque de 14 de setembro às instalações da Aramco, provocando uma vasta crise, não fortaleceu a esperança de um desejado encontro apaziguador entre Donald Trump e o representante do Irão Hassan Rouhani na sede da enfraquecida ONU: qualquer leviandade, como foi lembrado há mais de um século, antes de duas guerras mundiais, pode causar um desastre global. O princípio dessa ameaçadora leviandade ameaça alargar a sua jurisdição, que afetará a situação da própria União Europeia, já atenta à tão abalada estrutura constitucional do Reino Unido, que, com Brexit ou sem ele, é uma referência fundamental dos valores do europeísmo.

Embora seja evidente o declínio do prestígio, e portanto da autoridade, da ONU, o Conselho de Segurança não está dispensado de intervir no sentido de impedir que a desordem internacional evolucione no sentido de tornar gravemente inquietante o facto de o ambiente político poder antecipar a gravidade da questão do ambiente. Não tem sido frequente que o "poder da palavra" se sobreponha à "palavra dos poderes" que assumem o unilateralismo. Por isso, merece destaque e apoio, em vista da passividade do Conselho de Segurança, a persistência do secretário-geral da ONU, no exercício do "poder da palavra" que lhe pertence, em lutar pelo respeito dos princípios.

Porque não são os princípios que exigem renovação profunda, é o descaso pela exigência da "cooperação", que a circunstância a que o globalismo sem governança submeta a terra casa comum dos homens exige. Não se trata apenas de respeitar os tratados, que não podem ser olhados como não imperativos, é o respeito pela "justiça natural".

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