E David Lynch autorizou (e ajudou) desvendar-se ao mundo

Chamam ao realizador David Lynch "czar do bizarro", um título que Kristine McKenna repudia na entrevista que deu ao DN, no momento em que vai ser lançada a biografia do cineasta feita a quatro mãos entre biografado e biógrafa.

Em 2015, a jornalista norte-americana Kristine McKenna propôs ao realizador David Lynch fazer uma biografia que o retratasse. "Ele aceitou imediatamente", diz a coautora de Espaço para Sonhar, um volume de 704 páginas que conta muito - quase tudo - sobre o cineasta. A resposta de Lynch foi uma surpresa para McKenna, revela em entrevista ao DN, e o resultado é "o livro que desejava fazer". Quando se insiste sobre se foi a biografia possível ou a que pretendia mesmo, pois é uma profunda conhecedora da obra e do realizador, responde que "David não pôs qualquer impedimento e até encorajou os amigos e conhecidos a falarem comigo".

O que resulta desta parceria que chega amanhã às livrarias portuguesas é fundamental para quem aprecia a obra de Lynch. Como artista controverso não deixa de questionar a razão de ser de uma biografia sobre si, mas isso passa-lhe pois o que faz em termos de revelação do seu quotidiano, das megalomanias e da influência da própria vida no cinema, permitem compreender um pouco melhor o autor de Duna, Mulholland Drive, Blue Velvet ou Eraserhead - filme que diz detestar -, bem como da série que mudou a televisão, Twin Peaks, entre uma longa produção que teve início em 1967 com Six Men Getting Sick.

Segundo a coautora, a parceria de que resulta Espaço para Sonhar foi "maravilhosa", especificando que foi um dos melhores trabalhos: "Foi ótimo esse tempo em que trabalhei no livro com o David. Ele é muito divertido e ao mesmo tempo bastante respeitador no que respeita às relações pessoais." Garante que não houve secretismos quando o questionava sobre qualquer aspeto da sua vida e profissão: "Facilitava os contactos e queria que os testemunhos tivessem a perspetiva de quem os dava e de como se lembravam da amizade com ele, mesmo que não fossem como imaginava."

Até que ponto a quantidade de entrevistas feitas para esta biografia atrapalhou ou clarificou o perfil de David Lynch? Para Kristine McKenna, as entrevistas aprofundaram a sua compreensão sobre David e encaminharam a história do realizador para direções que "nunca imaginara possíveis".

A biografia ocupou três anos da vida de Kristine McKenna e, garante, que é matéria para todos os tipos de leitores: "É destinado tanto aos cinéfilos como aos leitores comuns." Pergunta-se como têm sido a receção ao livro (saiu em junho nos EUA) e mostra-se satisfeita: "Recebi três géneros de reações diferentes: os grandes fãs de David adoram, porque além do que se conhece dele em linhas gerais fiz um grande esforço para ter muita informação inédita e nunca publicada; quem o quase desconhecia e até pensava que era uma pessoa estranha foi surpreendido pela forma como se revela e a faceta humana que partilha." A terceira reação é a de quem andou à procura de erros na biografia: "Alguns andaram à cata de enganos, claro que existem, mas fiz o melhor que sabia!"

Biografia by the book

Como acontece no género da biografia, McKenna começa pelas origens de David Lynch, no capítulo intitulado Pastoral Americana: "Creio que a infância de David tem um papel fundamental na formação do seu sentido estético e nos temas que aborda. Não é que a esse período da sua vida 'explique' aquilo em que se tornou, mas decerto que faz parte essencial da sua história."

Será esta a biografia definitiva? McKenna considera que Lynch é "um ser complexo e que vive uma vida com lados ainda por descobrir. Na nossa parceria, tentei fazer que fosse a história mais profunda da vida de David feita até ao momento, mas estou certo de que não fizemos o livro definitivo, afinal a vida dele ainda está a acontecer".

Escreverá o próprio David Lynch umas memórias num futuro? Kristine McKenna é direta: "Esta biografia é a memória de David." Não haverá mais, depreende-se. Quanto à versão final deste livro, é de McKenna ou a fixada pelo realizador, como uma director's cut: "Este é o livro que eu quis escrever." Taxativa.

Não vale a pena continuar sem fazer a pergunta: mudou de opinião sobre David Lynch enquanto conversava com ele e fazia a investigação? Sim, é a resposta: "Aprendi a gostar e a respeitar David ainda mais, até porque eu desconhecia a maior parte das pessoas com que colaborara durante a sua vida e que ao conversarem comigo fizeram-me ver como era generoso e sem segundas intenções."

Quanto ao vulgarizado epíteto de Lynch ser o "czar do bizarro", a opinião de McKenna é contrária: "De modo nenhum e considero esse 'título' bastante ofensivo. É próprio de pessoas que receiam aprofundar as questões filosóficas que a sua arte exige e tendem a utilizar expressões como 'estranho' e 'louco', mas se o quisermos acompanhar nessa busca percebe-se que há muito mais a acontecer do que o bizarro."

A preparação de Espaço para Sonhar contou com mais de uma centena de entrevistas com familiares de Lynch, ex-mulheres, atores ou produtores. Para o realizador não existiam "regras preestabelecidas para a parceria" e o método era numa primeira fase a escrita de Kristine de um capítulo que Lynch lia e corrigia, criando a versão final. O resultado, dizem ambos, "é uma crónica das coisas que aconteceram e não tanto a explicação acerca do seu significado". Ao aproximarem-se do fim da colaboração, tanto o biografado como a biógrafa tiveram o mesmo pensamento: "O livro parecia curto para mergulhar profundamente na história, mas a consciência humana é demasiado vasta para caber entre a capa e a contracapa de um livro. Quisemos ser definitivos, mesmo que se trate de um mero vislumbre."

A última pergunta é sobre a filmografia de David Lynch e a opinião de Kristine McKenna. Qual o filme de que mais gosta? Blue Velvet e Mulholland Drive é a resposta. A autora deverá estar na próxima edição do festival Leffest para apresentar a biografia.

Espaço para Sonhar

Kristine McKenna e David Lynch.

Editora Elsinore

704 páginas

Nas livrarias esta semana

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Francisco ​​​​​​​em Pequim?

1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. "Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo", disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso "vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa".